sexta-feira, 28 de junho de 2013
quarta-feira, 26 de junho de 2013
VIAGENS NA HISTÓRIA - 24
CIDADES SOBREPOSTAS
É uma verdade que, de tão evidente, acaba por ficar
oculta, porque ninguém pensa nela: a vida de uma cidade não é apenas aquilo que
nós vemos, as casas, as pessoas, os carros a passarem, aqui e agora; é também o
que nela aconteceu no passado — sobretudo, em certos lugares especiais, que por
esses acontecimentos ficaram ligados à sua história. Uma cidade é, no fundo, a
sobreposição de várias cidades.
O que vos
proponho é um breve passeio por Lisboa, parando em certos lugares que ficaram
marcados por sucessos históricos — embora, hoje, pouco reste dessas marcas.
Evitemos os
sítios óbvios, como o Terreiro do Paço (início da Restauração de 1640,
aclamação de D. João IV, etc.) e o castelo de S. Jorge, que, esse, é toda uma
enciclopédia. Mas, não longe do castelo, fica o Limoeiro, onde hoje funciona o
Centro de Estudos Judiciários e onde, durante longos anos, funcionou o mais
conhecido estabelecimento prisional de Lisboa. Aí se encontram ainda os
vestígios de um paço real e era nele que se encontravam D. Leonor Teles e o
conde Andeiro quando, a 6 de Dezembro de 1383, o Mestre de Avis lá entrou para
matar o favorito da rainha regente. Foi, pois, nesse lugar que se juntou depois
o povo de Lisboa, levantado por Álvaro Pais, para aclamar o Mestre e insultar a
rainha — ou seja, foi nesse lugar que se deu o primeiro episódio decisivo da
revolução que colocou no poder uma nova dinastia.
Mas, descendo
um pouco, chega-se à Sé; e, nesse mesmo dia 6 de Dezembro, pouco após a morte
do Andeiro, aí se juntou também a multidão enraivecida, porque o bispo de
Lisboa, D. Martinho, não mandara repicar os sinos, como exigiam os populares,
que forçaram as portas. O bispo, que, azar o seu, era castelhano, refugiou-se
numa das torres e de lá o atiraram para a rua, com grande soma de gritos e de
insultos — os insultos ainda hoje se podem ouvir, mas trocam-se entre
automobilistas.
Vamos agora às
proximidades do mosteiro dos Jerónimos, que, esse, é um dos tais lugares
óbvios, de modo que, de momento, não entremos; em vez disso, vamos aos pastéis
de Belém. Ora, a casa mais conhecida que os vende está construída em terreno
maldito — ou, pelo menos, era isso o que o marquês de Pombal havia decidido.
Mesmo ao lado da pastelaria, encontra-se o Beco do Chão Salgado; entrando nele,
depara-se com um marco de pedra no qual está escrita a maldição pombalina. Isto
porque em todo aquele terreno, hoje coberto de construções — com excepção do
beco — se erguia, no século XVIII, o palácio dos duques de Aveiro. Ora, como se
sabe, o duque de Aveiro, D. José de Mascarenhas, foi considerado culpado no
caso do atentado contra D. José I e executado publicamente em Belém. O seu
palácio foi arrasado e o chão coberto de sal — daí o nome do beco — e
colocou-se ali o tal marco, anunciando que naquele terreno jamais se poderia
construir. O que não se cumpriu, como pode ver quem lá vá; porém, o marco e o
beco ainda evocam a tragédia.
Enfim, o
último lugar cuja visita hoje proponho é a zona do Arco do Cego ou, mais
precisamente, as proximidades do antigo liceu (hoje escola) D. Filipa de
Lencastre. Aí havia uma lápida, que mais recentemente foi deslocada — sem
cerimónia — para o pequeno jardim que fica junto do gigantesco edifício da
Caixa Geral de Depósitos.
Essa lápida
comemora a intervenção da rainha Santa Isabel, quando as tropas do rei D. Dinis
e as do seu herdeiro, o futuro Afonso IV, se defrontavam no início de uma
batalha de Alvalade que não chegou a realizar-se, porque a rainha, que fora
avisada, veio de Odivelas, onde se encontrava, e meteu-se, sozinha, entre os
dois exércitos, forçando-os a baixar as armas.
Termino assim
esta peregrinação por outros tempos da cidade de Lisboa, porque é bonito
rematar com um acto de paz.
João
Aguiar
terça-feira, 18 de junho de 2013
quarta-feira, 29 de maio de 2013
sexta-feira, 24 de maio de 2013
domingo, 5 de maio de 2013
VIAGENS NA HISTÓRIA - 23
UMA ESTRANHA HERANÇA
A viagem deste
mês leva-nos, para começar, aos séculos XII e XIII. E para tornar as coisas
mais claras, temos de passar brevemente pela Itália.
Foi aí que,
nesses séculos, decorreu a luta entre Guelfos e Gibelinos. Não podemos deter-nos
nesta questão; digamos que, «grosso modo», se tratou de um confronto entre o
Papado e o Sacro Império Romano-Germânico. Os Guelfos defendiam a supremacia do
Papa, os Gibelinos a supremacia do Imperador. Mas o termo «gibelino» ganhou,
pelo menos modernamente, um sentido histórico mais lato: designa, ainda que de
forma vaga e genérica, uma certa concepção que, mesmo sem deixar de respeitar o
pontífice de Roma, defende maior independência espiritual e política do
indivíduo e do Estado. Assim, têm sido associados a este “gibelinismo”
correntes e movimentos como o dos “espirituais” franciscanos e o dos
joaquimitas, ou seja, seguidores dos ensinamentos do abade Joaquim de Flora.
Entremos agora
em Portugal. O nosso país foi sempre, desde o início, um filho dilecto de Roma.
A nossa independência tornou-se indiscutível com a bula “Manifestis Probatum”;
o nosso primeiro rei declarou-se vassalo de São Pedro. Mas, simultaneamente, ao
longo da primeira dinastia portuguesa, houve sempre manifestações de
“gibelinismo”: é essa a estranha herança de que falo — estranha porque poucas
vezes tem sido reconhecida como tal pelos próprios portugueses.
O primeiro
sinal que dela temos é lendário: a história do “bispo negro”, que Alexandre
Herculano aproveitou e que mostra um D. Afonso Henriques recusando-se a
obedecer ao Papa. Trata-se de uma lenda, claro, mas as lendas dizem-nos muito
sobre a mentalidade e as ideias que prevalecem, a dado momento, em determinado
contexto social.
Já não são
lendários os constantes conflitos entre a coroa e a alta hierarquia
eclesiástica durante os reinados de D. Sancho I, D. Afonso II, D. Sancho II e
D. Afonso III. Houve uma trégua com D. Dinis, porque este foi um mestre em
diplomacia; mas foi também ele quem torneou a decisão pontifícia de dissolver a
Ordem do Templo para obter a criação da Ordem de Cristo, em que se integraram
todos os templários portugueses. E, mais tarde, será com o neto deste mesmo
rei, D. Pedro I, que entrará em vigor o chamado Beneplácito Régio,
estabelecendo que nenhum documento vindo da Cúria romana será válido sem o
acordo expresso do soberano, que mandará verificar a sua autenticidade e também
se não contraria as leis do país. É, verdadeiramente, uma expressão da
concepção gibelina do poder.
Mas há que
referir ainda as vozes da heterodoxia religiosa, que foram depois abafadas mas
cujo murmúrio chega até nós: a influência dos espirituais franciscanos; as
ideias de um certo Afonso Geraldes de Montemor e as de um certo Tomás Escoto,
que pregou na igreja de Santos, em Lisboa — ambos foram fulminados pela furiosa
e ortodoxa pena de Frei Álvaro Pelágio, bispo de Silves. Que, por sua vez, foi
mandado calar por D. Afonso IV e D. Pedro I e teve de abandonar a sua diocese.
Falta-nos o
espaço para continuar. No entanto, o que aqui fica já basta para entender que —
sem, de modo algum, negar o papel importante na nossa história dos grandes
nomes ortodoxos da Igreja — deveremos considerar, no nosso legado, essa
“corrente gibelina” e, com ela, as linhas não-canónicas de pensamento filosófico
e religioso que surgiram em Portugal. Talvez mereçam mais atenção e um estudo
mais atento.
João
Aguiar
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| Charola do Convento de Cristo — em TOMAR |
terça-feira, 23 de abril de 2013
VIAGENS NA HISTÓRIA - 22
OS ESQUECIDOS
Em 1732, reinava em
Portugal D. João V, foi publicado em Lisboa o primeiro tomo de uma obra
intitulada «Ennoea, ou aplicação do entendimento sobre a Pedra Filosofal», cujo
segundo tomo sairia no ano seguinte.
O autor era um médico
formado em Coimbra chamado Anselmo
Caetano de Abreu Gusmão Castelo Branco. Para os estudiosos das ciências
herméticas, ele tem a particularidade de ser o único, ou um dos muito poucos
alquimistas portugueses — conhecidos, entenda-se.
Não vamos tratar aqui de Alquimia, portuguesa ou estrangeira. O caso do
Dr. Anselmo Caetano Castelo Branco é mencionado por ser um daqueles estudiosos
portugueses que ousaram debruçar-se sobre matérias heterodoxas. E digo
«ousaram» porque, regra geral, não era seguro fazê-lo. Veja-se outro exemplo: Frei Vicente Nogueira (1586 – 1654), fidalgo,
escritor, cónego da Sé de Lisboa, coleccionador de livros; sabia grego,
latim, caldaico, siríaco, árabe, italiano, francês e castelhano. A Inquisição
apreendeu-lhe a biblioteca, muito rica em obras herméticas. Em 1631, partiu
para Roma, possivelmente para evitar outros inconvenientes maiores. É verdade
que a Restauração de 1640 lhe reconheceu os méritos, pois Vicente Nogueira exerceu o cargo de
encarregado de negócios de Portugal junto da Santa Sé entre 1643 e 1654;
considerando estas datas, vemos que não regressou ao seu país.
Poderia, se tal tivesse
interesse, publicar aqui uma lista bem longa de nomes que, de uma forma ou de
outra, sofreram, ao longo da História, as amarguras das limitações impostas à
pesquisa, ao estudo e à especulação, seja no campo religioso, seja no campo
filosófico ou na pesquisa científica. E note-se que, nesta matéria, estou muito longe de ser
fundamentalista: reconheço (nem todos o fazem) grandes méritos a D. João V, em
cujo reinado se assinalam importantes iniciativas culturais; e nem sequer mando
para o inferno D. João III, uma figura histórica demasiado complexa para ser
atabalhoadamente despachada para o rol dos beatos tapados e maléficos — ao
contrário do que pensa e escreve muita gente bem pensante.
Estou, assim, muito à
vontade para dizer o que penso; e penso que ainda hoje (sim; ainda hoje)
sofremos, não raro, da estreiteza que nos foi imposta por alguns séculos de
Inquisição. Note-se que esta, sob as suas muitas formas (e, atenção, não
somente a católica romana), foi um fenómeno geral e não peninsular. Digamos,
porém, que por cá durou mais tempo, ou/e foi mais abrangente, e isto por
motivos vários.
Não posso, agora, enumerar
nem analisar esses motivos. Posso apenas observar que a Inquisição nos deixou
uma larga ferida que ainda não sarou por completo. É claro que hoje se disfarça
essa influência inconfessável e que, de resto, tem muito, tem quase tudo de
inconsciente. Mas não será por acaso que o nosso solo não parece ser muito
apropriado para a cultura da inovação. Os inventores portugueses ganham
medalhas de ouro — mas as suas invenções, essas, nunca as vemos. E os homens
que no passado abriram a janela do pensamento estão hoje esquecidos, quase
todos.
Por isso aqui lhes presto
homenagem.
João Aguiar
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Biblioteca do Convento de Mafra
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