domingo, 5 de maio de 2013

VIAGENS NA HISTÓRIA - 23

UMA ESTRANHA HERANÇA

A viagem deste mês leva-nos, para começar, aos séculos XII e XIII. E para tornar as coisas mais claras, temos de passar brevemente pela Itália.
Foi aí que, nesses séculos, decorreu a luta entre Guelfos e Gibelinos. Não podemos deter-nos nesta questão; digamos que, «grosso modo», se tratou de um confronto entre o Papado e o Sacro Império Romano-Germânico. Os Guelfos defendiam a supremacia do Papa, os Gibelinos a supremacia do Imperador. Mas o termo «gibelino» ganhou, pelo menos modernamente, um sentido histórico mais lato: designa, ainda que de forma vaga e genérica, uma certa concepção que, mesmo sem deixar de respeitar o pontífice de Roma, defende maior independência espiritual e política do indivíduo e do Estado. Assim, têm sido associados a este “gibelinismo” correntes e movimentos como o dos “espirituais” franciscanos e o dos joaquimitas, ou seja, seguidores dos ensinamentos do abade Joaquim de Flora.
Entremos agora em Portugal. O nosso país foi sempre, desde o início, um filho dilecto de Roma. A nossa independência tornou-se indiscutível com a bula “Manifestis Probatum”; o nosso primeiro rei declarou-se vassalo de São Pedro. Mas, simultaneamente, ao longo da primeira dinastia portuguesa, houve sempre manifestações de “gibelinismo”: é essa a estranha herança de que falo — estranha porque poucas vezes tem sido reconhecida como tal pelos próprios portugueses.
O primeiro sinal que dela temos é lendário: a história do “bispo negro”, que Alexandre Herculano aproveitou e que mostra um D. Afonso Henriques recusando-se a obedecer ao Papa. Trata-se de uma lenda, claro, mas as lendas dizem-nos muito sobre a mentalidade e as ideias que prevalecem, a dado momento, em determinado contexto social.
Já não são lendários os constantes conflitos entre a coroa e a alta hierarquia eclesiástica durante os reinados de D. Sancho I, D. Afonso II, D. Sancho II e D. Afonso III. Houve uma trégua com D. Dinis, porque este foi um mestre em diplomacia; mas foi também ele quem torneou a decisão pontifícia de dissolver a Ordem do Templo para obter a criação da Ordem de Cristo, em que se integraram todos os templários portugueses. E, mais tarde, será com o neto deste mesmo rei, D. Pedro I, que entrará em vigor o chamado Beneplácito Régio, estabelecendo que nenhum documento vindo da Cúria romana será válido sem o acordo expresso do soberano, que mandará verificar a sua autenticidade e também se não contraria as leis do país. É, verdadeiramente, uma expressão da concepção gibelina do poder.
Mas há que referir ainda as vozes da heterodoxia religiosa, que foram depois abafadas mas cujo murmúrio chega até nós: a influência dos espirituais franciscanos; as ideias de um certo Afonso Geraldes de Montemor e as de um certo Tomás Escoto, que pregou na igreja de Santos, em Lisboa — ambos foram fulminados pela furiosa e ortodoxa pena de Frei Álvaro Pelágio, bispo de Silves. Que, por sua vez, foi mandado calar por D. Afonso IV e D. Pedro I e teve de abandonar a sua diocese.
Falta-nos o espaço para continuar. No entanto, o que aqui fica já basta para entender que — sem, de modo algum, negar o papel importante na nossa história dos grandes nomes ortodoxos da Igreja — deveremos considerar, no nosso legado, essa “corrente gibelina” e, com ela, as linhas não-canónicas de pensamento filosófico e religioso que surgiram em Portugal. Talvez mereçam mais atenção e um estudo mais atento.
João Aguiar


Charola do Convento de Cristo — em TOMAR

terça-feira, 23 de abril de 2013

VIAGENS NA HISTÓRIA - 22


OS ESQUECIDOS

Em 1732, reinava em Portugal D. João V, foi publicado em Lisboa o primeiro tomo de uma obra intitulada «Ennoea, ou aplicação do entendimento sobre a Pedra Filosofal», cujo segundo tomo sairia no ano seguinte.
O autor era um médico formado em Coimbra chamado Anselmo Caetano de Abreu Gusmão Castelo Branco. Para os estudiosos das ciências herméticas, ele tem a particularidade de ser o único, ou um dos muito poucos alquimistas portugueses — conhecidos, entenda-se.
Não vamos tratar aqui de Alquimia, portuguesa ou estrangeira. O caso do Dr. Anselmo Caetano Castelo Branco é mencionado por ser um daqueles estudiosos portugueses que ousaram debruçar-se sobre matérias heterodoxas. E digo «ousaram» porque, regra geral, não era seguro fazê-lo. Veja-se outro exemplo: Frei Vicente Nogueira (1586 – 1654), fidalgo, escritor, cónego da Sé de Lisboa, coleccionador de livros; sabia grego, latim, caldaico, siríaco, árabe, italiano, francês e castelhano. A Inquisição apreendeu-lhe a biblioteca, muito rica em obras herméticas. Em 1631, partiu para Roma, possivelmente para evitar outros inconvenientes maiores. É verdade que a Restauração de 1640 lhe reconheceu os méritos, pois Vicente Nogueira exerceu o cargo de encarregado de negócios de Portugal junto da Santa Sé entre 1643 e 1654; considerando estas datas, vemos que não regressou ao seu país.
Poderia, se tal tivesse interesse, publicar aqui uma lista bem longa de nomes que, de uma forma ou de outra, sofreram, ao longo da História, as amarguras das limitações impostas à pesquisa, ao estudo e à especulação, seja no campo religioso, seja no campo filosófico ou na pesquisa científica. E note-se que, nesta matéria,  estou muito longe de ser fundamentalista: reconheço (nem todos o fazem) grandes méritos a D. João V, em cujo reinado se assinalam importantes iniciativas culturais; e nem sequer mando para o inferno D. João III, uma figura histórica demasiado complexa para ser atabalhoadamente despachada para o rol dos beatos tapados e maléficos — ao contrário do que pensa e escreve muita gente bem pensante.
Estou, assim, muito à vontade para dizer o que penso; e penso que ainda hoje (sim; ainda hoje) sofremos, não raro, da estreiteza que nos foi imposta por alguns séculos de Inquisição. Note-se que esta, sob as suas muitas formas (e, atenção, não somente a católica romana), foi um fenómeno geral e não peninsular. Digamos, porém, que por cá durou mais tempo, ou/e foi mais abrangente, e isto por motivos vários.
Não posso, agora, enumerar nem analisar esses motivos. Posso apenas observar que a Inquisição nos deixou uma larga ferida que ainda não sarou por completo. É claro que hoje se disfarça essa influência inconfessável e que, de resto, tem muito, tem quase tudo de inconsciente. Mas não será por acaso que o nosso solo não parece ser muito apropriado para a cultura da inovação. Os inventores portugueses ganham medalhas de ouro — mas as suas invenções, essas, nunca as vemos. E os homens que no passado abriram a janela do pensamento estão hoje esquecidos, quase todos.
Por isso aqui lhes presto homenagem.

João Aguiar

Biblioteca do Convento de Mafra

domingo, 14 de abril de 2013

VIAGENS NA HISTÓRIA - 21


VIAGEM A MARIALVA

Entenda-se: não me refiro à povoação. Esta viagem é ao mundo histórico dos marqueses de Marialva. Confesso que o uso do termo «marialvismo» e da palavra «marialva» como substantivo comum (muitas vezes, mesmo, como adjectivo) começou a intrigar-me a partir do momento em que, por curiosidade e às vezes por necessidade, pesquisei, ainda que superficialmente, as vidas dos seis marqueses de Marialva.
Toda a gente sabe — mais ou menos — o que são o marialvismo e os marialvas: copos, estúrdia, machismo, mulheres «de má nota», touradas, cavalos, ócio, fidalguismo estéril, etc. Ora, quando eu, ingenuamente, fui à procura disto no 1º marquês de Marialva, D. António Luís de Menezes, encontrei, antes, um herói nacional: conspirador de 1640, general brilhante durante a Guerra da Restauração (vencedor nas Linhas de Elvas e em Montes Claros, etc., etc.) e um dos plenipotenciários portugueses nas negociações do Tratado de Madrid (1668), que pôs termo à guerra com a Espanha. Passei ao 2º marquês, depois ao 3º… para abreviar: só no 4º marquês de Marialva, D. Pedro José de Alcântara Menezes Noronha Coutinho, é que fui encontrar um «toque» de marialvismo, porém muito distorcido: este 4º marquês foi, simplesmente, um dos melhores cavaleiros europeus do seu tempo; tanto assim que à boa equitação se deu o nome de «arte de Marialva». Mas D. Pedro José (etc.) não se limitou aos cavalos, também foi sócio da Academia Real das Ciências, o que parece indicar que tinha outros interesses. E nada disto, equitação incluída, é propriamente marialvismo, no sentido negativo. Dos outros marqueses de Marialva, o 2º e o 3º combateram na Guerra da Sucessão de Espanha; e todos os seis foram militares. O 6º, que morreu solteiro e sem filhos, foi também diplomata. Ponto final. Em que ficamos?
Sem pretensões de defender tese histórica, eu acho, timidamente, que a culpa de tudo pertence a Júlio Dantas. Que resolveu escrever uma peça de teatro sobre a vida da famosa Maria Severa, fadista bonita (e de «má nota») que viveu entre 1820 e 1846.
A Severa fora — toda a Lisboa o sabia — amante do 13º conde de Vimioso, D. Francisco de Paula de Portugal e Castro. E este, sim: era aquilo a que se chama hoje um «marialva»: ócio, touros e cavalos (admita-se que nesse campo era muito destro e valente), copos, faduncho, boémia, inutilidade, machismo, enfim, todo o programa do «marialvismo» decadente. Uma pena, já que a casa de Vimioso dera ao país gente muito ilustre, pelo menos até ao 7º conde, D. Miguel de Portugal.
Então, porquê «marialvas» e não «vimiosos», porquê «marialvismo» e não «vimiosismo»? Julgo que por isto: Júlio Dantas, a pedido do chefe do Governo, Hintze Ribeiro, aceitou poupar a família Vimioso. E como o último marquês de Marialva morrera em 1823, Dantas resolveu inventar um «conde de Marialva» (título que existiu, mas que se extinguiu no século XVI) e fazer dele o amante da Severa. Ora, esta peça teatral de Júlio Dantas veio a ser adaptada ao cinema por Leitão de Barros: o primeiro filme sonoro português e, na época (1930), um grande êxito de bilheteira. Estava feita a transformação de «vimioso» em «marialva». E os fados começaram a cantar os marialvas e as severas e tudo ficou consumado.
Se algum erudito me quiser dar na cabeça, com argumentos (e documentos) de peso, não me queixarei. Desde que os argumentos e documentos sejam mesmo de peso. Até lá, acho que é devida uma desculpa aos marqueses de Marialva…

João Aguiar

Joaquim Carneiro da Silva, 1727-1818
[5º Marquês de Marialva] 

domingo, 7 de abril de 2013

VIAGENS NA HISTÓRIA - 20


VIAGEM AO VENDAVAL

Serve esta viagem na História para prestar homenagem a um homem português, pouco brilhante, mas muito injustiçado. Quanto ao vendaval de que se fala aqui, inclui várias rajadas destruidoras: a Revolução Francesa e as suas consequências em toda a Europa; a invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão; a Revolução Liberal portuguesa; a independência do Brasil e, pelo meio, várias guerras. Foi isto o que o tal homem injustiçado teve de enfrentar —e muito mais ainda, por acréscimo.
O leitor já terá percebido que estou a evocar a figura do rei D. João VI. Certas historiografias — a romântica, a marxista, entre outras — têm zurzido impiedosamente este monarca. Mas os juízos que sobre ele fazem são, no mínimo, apressados. Poucos governantes, nacionais ou estrangeiros, tiveram de enfrentar um período de tantas mutações brutais, um «salto» tão fundamental na evolução social, política, económica e ideológica como D. João VI enfrentou ao longo dos 34 anos em que chefiou o Estado, primeiro em nome da sua mãe, D. Maria I, depois como regente oficialmente investido e finalmente como rei. Note-se, também, que D. João não contava, de todo, subir ao trono: o herdeiro era o seu irmão D. José, príncipe do Brasil, ao que parece com melhor cabeça e que fora cuidadosamente preparado por Pombal, mas que viria a morrer aos vinte e sete anos.
A questão é muito simples: durante o vendaval, europeu e português, a que me referi, Portugal teria necessitado de um génio e de um herói. Que pena: em vez disso, teve somente um homem sensato, honesto, bem intencionado e pacífico, ansioso por evitar conflitos e derramamentos de sangue. Ora, a esse homem, o que lhe saiu na rifa foi uma série de guerras e revoluções, uma família desunida em que se remexia uma amantíssima esposa militantemente reaccionária, um país invadido, destroçado, economicamente destruído e saqueado pelos invasores. Seria difícil fazer melhor do que ele fez, nas circunstâncias em que ocupou o trono de Portugal.
Não é possível apresentar aqui o historial do reinado de D. João VI. O que é possível — e, atrevo-me a dizer, necessário — é fazer a seguinte advertência: não devemos iludir-nos ingenuamente com o pouco brilho e a barriga do senhor, tal como os retratos o mostram. Não era um tonto que ali estava. A retirada da família real para o Brasil foi um golpe de mestre e D. João, então ainda regente, adoptou uma política extremamente subtil, mesmo maquiavélica: arranjou as coisas de modo a que, na Europa, Portugal pudesse ser considerado como «aliado» da França (por isso deixou disposições para que não houvesse resistência); ao mesmo tempo, mantinha os portos brasileiros abertos aos navios ingleses, para jogar a cartada britânica logo que o ímpeto napoleónico fosse quebrado. Nada disto era heróico, mas ele não queria heroísmo, queria, sim, acautelar a futura independência do seu povo e poupar-lhe, quanto possível, as misérias de uma guerra.
Nos conflitos que acompanharam a instauração do constitucionalismo, o rei agiu sempre no sentido de apaziguar os ânimos, de conseguir uma evolução pacífica, de promover a concórdia. Quem sabe, se não o tivessem assassinado — como parece ter sido o caso —, talvez ainda pudesse concretizar uma parte do seu sonho, um país pacificado, um povo reconciliado consigo mesmo.
Se falhou (e falhou), a culpa não foi sua. O seu grande defeito foi não ter sido um génio. Bom, mas criticar é fácil e aqueles que o têm coberto de lama também o não foram, nem são…
João Aguiar


domingo, 31 de março de 2013

VIAGENS NA HISTÓRIA - 19


A TEIMOSIA

Desta vez, para realizarmos convenientemente a nossa viagem na História, seria preciso seguir o exemplo de Santo António ao produzir o milagre da ubiquidade — difícil, porque nenhum de nós é santo. Ou seja, teríamos de fazer várias viagens ao mesmo tempo. Para simplificar, proponho somente três incursões no passado, a primeira das quais a Massangano, no século XVII.
Massangano fica na margem direita do rio Cuanza, em Angola. Tem uma inegável importância na história colonial, porque foi palco de vários combates. Mas o que interessa, aqui, é o período que vai de 1641 a 1648. Durante esses sete anos, Luanda esteve em poder dos holandeses, que passaram, na prática, a dominar Angola — mas não a totalidade do território: as autoridades portuguesas foram entrincheirar-se em Massangano, que se tornou a capital portuguesa de Angola. Em 1648, Salvador Correia de Sá expulsou os holandeses de Luanda e os portugueses de Massangano foram finalmente socorridos.
Esta crónica não é um hino de louvor ao colonialismo (português ou holandês); mas a História não é alterável. O que quero salientar, aqui, é a furiosa persistência (a teimosia!) com que os portugueses se agarraram àquela praça empoleirada sobre o Cuanza. No princípio dos anos 70 (século XX, claro), visitei Massangano; e, mesmo então, a vista das ruínas — igreja, fortaleza, tribunal, enfim, os edifícios de uma administração reduzida mas decida a funcionar — era impressionante. Como puderam resistir naquela solidão, militarmente acossados de todas as partes e sujeitos às febres que levaram muitos deles? Que teimosia foi aquela?
Segunda viagem: será breve, porque já me referi ao assunto em crónica anterior: o segundo cerco de Diu, em 1546. Durou seis meses e quando D. João de Castro pôde finalmente intervir e libertar a praça, já esta não era muito mais que uma grande ruína, mas onde ainda se combatia. De fins de Abril a Novembro de 1546, os sitiados, homens e mulheres, combateram com raiva. Recusaram as propostas de rendição com honra, que lhes permitiriam partir levando os seus haveres. Não podemos, hoje, imaginar o que terão sido aqueles seis meses na fortaleza de Diu. Uma vez mais: teimosia!
E a terceira viagem vai mais longe no tempo e é mais vasta no espaço: refiro-me a toda a história da implantação portuguesa no Oriente. Um historiador inglês bem conhecido, o Prof. Charles Boxer, dá-nos uma perspectiva de estrangeiro, que é sempre bom ter em conta quando é honesta (como é o caso), mesmo se por vezes algo incorrecta ou injusta. No seu livro «O Império Marítimo Português», Boxer faz notar, com justeza, que se fala muito das conquistas portuguesas  no Oriente, mas que se fala pouco das várias tentativas falhadas que antecederam essas conquistas. E comenta, em substância, que os portugueses mostraram uma enorme tenacidade, uma enorme determinação (uma enorme teimosia!) na construção do seu império marítimo.
Como o leitor compreendeu, era à teimosia que eu queria chegar com estas viagens. Ponhamos de lado as possíveis motivações e as explicações — bravura, força espiritual, sede de riquezas e de poder, ardor religioso, ganância, tudo isso esteve presente em proporções diversas, mas não é, aqui, o meu tema. O meu tema é a persistência, a coragem da teimosia que os portugueses mostraram em vários momentos da sua história, e não só nestes que acabo de referir. Como país e como povo, somos um  caso de teimosia.
E que falta ela nos faz, hoje…!
João Aguiar

TORRE DE BELÉM - Lisboa

domingo, 24 de março de 2013

VIAGENS NA HISTÓRIA - 18


«A EUROPA IMITARÁ PORTUGAL»…
Quem escreveu isto não foi um  daqueles patriotas furiosos que já estão fora de moda. O autor destas linhas foi o muito celebrado escritor e pensador francês Victor Hugo: «Felicito a vossa nação. Portugal dá o exemplo à Europa. Desfrutai de antemão essa imensa glória. A Europa imitará Portugal».
Com certeza, alguns leitores já sabem do que se trata e também saberão, portanto, aonde nos leva esta viagem na História: ao reinado de D. Luís I, mais exactamente a 1 de Julho de 1867, data da abolição da pena de morte em Portugal. Victor Hugo terá levado algum tempo a saber disto, porque, ao que parece, as suas palavras entusiastas datam de 1876, mas não importa.
Na realidade, a lei de 1867, integrada na Reforma Penal que nesse ano entrou em vigor, era o remate de um processo começado havia muito. No reinado de D. Maria I, deixara de se aplicar a pena de morte a mulheres — a última foi executada em 1772 e o crime era gravíssimo. Depois, nos princípios do século XIX, Ribeiro dos Santos atacou a pena de morte num artigo publicado na imprensa. Enfim, em Março de 1852, no reinado de D. Maria II, a Câmara dos Deputados aprovou o Artigo 16º do Acto Adicional à Carta Constitucional, que abolia a pena de morte para crimes políticos — mas note-se que tal pena não era aplicada desde 1834.
A lei de 1867 era, pois, a sequência lógica do processo: abolia a pena capital para todos os crimes civis. Acrescente-se que a pena se manteve no foro militar, mas, em 1874, quando um soldado de Infantaria assassinou um alferes, acabou por ser condenado a prisão perpétua, apesar de ter havido polémica sobre o assunto. A pena capital para crimes militares (deserção, traição) só viria a ser definitivamente abolida (tanto quanto estas coisas são definitivas…) em 1976. No entanto, mais uma vez, não há notícia confirmada de execuções excepto uma referência, segundo parece não muito segura, ao período da Primeira Guerra Mundial, quando teria sido executado um soldado do Corpo Expedicionário Português em França.
A questão da pena capital é, evidentemente, complexa e as respostas não são imediatas. Pessoalmente, admito, inclino-me bem mais para a abolição total do que para qualquer outra solução, embora haja casos em que eu, como qualquer um de nós, penso: «Aquele(a) grandíssimo(a) … precisava era de forca!». São casos muito, muito especiais.
E assim, considero que é motivo de orgulho termos abolido a pena de morte em 1867. Segundo uma consulta (breve, admito) que fiz, só a Venezuela nos terá precedido, em 1863; a seguir foi a vez da Holanda, em 1870, e a da Costa Rica, em 1877.
Estranho, não é, que as grandes potências, as luminárias dos povos, os grandes fachos da civilização não estejam à nossa frente?! Aliás, o grande Império Americano, tal como o reemergente Celeste Império, não querem nada com a abolição da pena capital.
São concepções diferentes. Mas eu, que prevejo, ante o aumento de criminalidade de que sofremos, um bem possível (e digamos: necessário, mesmo inelutável) agravamento de penas, formulo a esperança de que saibamos manter a medida justa. E nos lembremos de que nem o Estado Novo ousou restabelecer a pena de morte.
João Aguiar





terça-feira, 19 de março de 2013

VIAGENS NA HISTÓRIA - 17

 BRUMAS DA MEMÓRIA

Para os poucos que ainda sabem a letra do Hino Nacional, o título desta crónica há-de dizer algo: é de entre as brumas da memória que se ouve a voz dos nossos egrégios avós, etc., etc. O que acontece é que a memória nacional está cada vez mais brumosa e nesse nevoeiro se perdem, esquecidos, muitos dos egrégios avós cuja voz deveríamos ouvir ou, pelo menos, cuja lembrança deveríamos reter.
Pois bem, desta vez proponho à vossa atenção um desses homens esquecidos, chamado Henrique de Carvalho (1843 – 1909). Esquecido pela nossa amnésia, mas também, quiçá, arredado por aquilo a que alguns considerarão ser incorrecção política: afinal de contas, foi um homem do império e das colónias, um militar do séc. XIX que se tornou conhecido por explorar a Lunda, por ser o seu primeiro governador e promover a sua plena integração na Angola colonial. Além disso, anteriormente, prestara serviço em Macau e em São Tomé. Sempre no império. Portanto, pessoa para pôr de lado, dir-se-á…
E  dir-se-á mal. Antes de mais, porque as figuras históricas devem ser julgadas à luz da sua época e não da nossa; e depois, no que toca particularmente a Henrique Augusto Dias de Carvalho, pelas qualidades específicas que provou ter, ao longo da sua vida. Uma vida demasiado preenchida para ser aqui narrada em pormenor; teremos de contentar-nos com umas pinceladas.
Era militar de carreira — chegou a general — e espera-se de um militar que seja corajoso. Pois bem: Henrique de Carvalho era dotado de grande coragem física, e provou-o; mas, curiosamente, provou-o quase sempre em acções de paz: no tempo em que esteve em Macau, o Território andava em sobressalto, com ataques de piratas, um banditismo crescente e a indisciplina da guarnição militar. Pois bem, o jovem tenente graduado em capitão logrou pôr cobro a tudo isso, evitando sempre que possível o recurso à violência. Sozinho e desarmado, internou-se em território chinês para dar voz de prisão a uma vintena de desertores; e o que é extraordinário é que os trouxe de volta, tal era o respeito e a confiança que incutia nos subordinados. Mais tarde, em Angola, de novo só e sem armas, fez como Santa Isabel de Aragão: meteu-se entre dois exércitos (um de quiocos, outro de lundas) que iam defrontar-se em batalha. Falou com os chefes, reconciliou-os, levou-os a apertarem as mãos. Acrescente-se que veio a receber a Torre e Espada, que não é uma simples distinção honorífica.
Coragem física, mas também moral; enquanto, em Luanda, várias vozes incitavam a uma acção militar na Lunda (porque a guerra é lucrativa, sobretudo para os fornecedores), Henrique de Carvalho opôs-se energicamente: sabia que podia fazer as coisas sem derramamento de sangue. O que deu azo às costumadas intrigas e lhe causou não poucos dissabores.
Teve ainda uma outra coragem: a de não procurar os grandes gestos espectaculares. Em Macau, São Tomé e Angola, a maior parte do seu trabalho — que não era apenas militar mas também administrativo e de interesse civil — consistiu em actos pouco «vistosos» mas essenciais: na tonta gíria política do nosso tempo, era, verdadeiramente, um homem estruturante
Mas os povos sentem a acção de homens como este. Ao partir de Macau, a comunidade chinesa ofereceu-lhe um faixa de seda bordada com uma mensagem de agradecimento; e em 1975, em Angola, a gente da Lunda pediu às tropas do MPLA e da FNLA que respeitassem o monumento erguido a Henrique de Carvalho. O seu busto foi levado para o Museu de Angola, em Luanda, numa cerimónia oficial organizada pelas autoridades angolanas.
O que, julgo, diz tudo.
João Aguiar


segunda-feira, 11 de março de 2013

VIAGENS NA HISTÓRIA - 16


OS FUNDADORES

No correr destas viagens pela História voltamos, agora, às origens, ao tempo em que «tudo começou». O que nos leva a considerar uma noção que não está muito divulgada entre nós: a noção dos Fundadores. De facto, tendemos a considerar o primeiro rei, D. Afonso Henriques, como o quase-único artesão da independência e, quando muito, os seus pais, D. Henrique e D. Teresa, figuram como precursores, ponto final. Mas a verdade é que houve todo um grupo de homens que, pela sua importância social e militar, bem como pelas suas opções políticas, merecem amplamente partilhar da categoria de Fundadores de Portugal.
Nesta crónica, ocupar-me-ei de um só desses fundadores, um dos mais esquecidos e ausentes da memória popular: trata-se de Paio (isto é: Pelágio ou Pelayo…) Mendes, que foi arcebispo de Braga entre 1118 e 1137.
Segundo uma tradição histórica muito aceite, embora não totalmente comprovada, D. Paio Mendes pertencia à poderosa casa da Maia e era irmão de dois outros fundadores: Soeiro Mendes da Maia e Gonçalo Mendes da Maia, que ficou conhecido como «o Lidador». Para o caso que nos ocupa, não é importante saber se pertencia à casa da Maia ou à casa de Sousa; o que importa é o apoio que deu a D. Afonso Henriques e a provável influência que exerceu junto do infante — aliás, o Prof. Torcato Sousa Soares defendeu como hipótese quase certa que foi Paio Mendes, e não Egas Moniz, o aio de Afonso Henriques, hipótese que justificou com argumentos bastante convincentes.
De qualquer modo, o certo é que a acção deste homem se revelou decisiva em dois aspectos, sendo que o primeiro foi a sua luta constante contra Diogo Gelmires, arcebispo de Compostela. De facto, pode-se dizer que a luta pela emancipação da terra portucalense, foi (não só mas também) o verdadeiro duelo travado entre Compostela e Braga no campo da organização eclesiástica, da disputa pelas sés sufragâneas de cada arquidiocese. Dada a importância da Igreja, um tal conflito não podia deixar de ter reflexos políticos, mesmo porque os arcebispos também eram potentados militares. Ora, a verdade é que D. Paio Mendes mostrou-se particularmente dinâmico na defesa de Braga contra as investidas de Compostela.
O segundo aspecto foi, como referido acima, a adesão do arcebispo ao movimento autonomista de Afonso Henriques — e talvez mesmo que, em lugar de «adesão», se deva dizer «inspiração». Note-se que, quando D. Teresa, que se travou de razões com Paio Mendes, o exilou, este foi para Zamora — e levou consigo o jovem infante portucalense. Pois bem: como é sabido, foi justamente nessa ocasião, em Zamora, que Afonso Henriques se armou a si próprio cavaleiro, o que correspondia a dar um passo simbólico na direcção de uma coroa real, pois só os reis se armavam cavaleiros a si mesmos. E D. Paio Mendes estava presente; é difícil não pensar que aquele acto político se deve à sua influência, mais até do que à única iniciativa do então muito jovem infante.
Foi isto em 1122 ou 1125. E em 1128 travava-se a batalha de São Mamede, que deu o poder a Afonso Henriques. Ao lado do infante, estavam Egas Moniz, estavam os Sousas, estavam os da Maia — estava D. Paio Mendes, muito possivelmente, um dos grandes promotores da revolta contra D. Teresa e a «facção galega».
Sem dúvida que, na nossa Galeria dos Fundadores, temos de incluir este quase esquecido arcebispo de Braga.

João Aguiar


sábado, 9 de março de 2013

POEMA

Mordi o pó das planícies nuas,
Cortei a carne por humildade;
E não bastou ter-Te crucificado,
Porque quiseste que eu nascesse humano.

Calquei as flores com os pés e com orgulho,
Jorrei poemas, ladainhas, astros;
E não bastou ter-Te crucificado.

Matei e feri, curei e fui curado,
Mil vezes me sangrei e Te sangrei,
E não bastou ter-Te crucificado:
Ainda quis coroar-Te rei de espinhos,
Rei de sangue e suor, e flagelado.

E olha para a Tua obra magna,
Tu, que quiseste que eu nascesse humano:

Não Te bastou ter-Te crucificado.

João Aguiar, 1972

Pontiado a aparo com tinta da china sobre papel A3

VIAGENS NA HISTÓRIA - 15


A RESTAURAÇÃO ESQUECIDA

Penso que todos os portugueses, mesmo os mais distraídos e os mais ignorantes, sabem em que consistiu a Restauração e até lhe conhecem a data, mesmo porque é feriado nacional. Porém, convido-vos hoje a viajar até ao início do século XIX, para evocarmos uma outra restauração, talvez menos espectacular e não tão bem sucedida, mas que, mesmo assim, merece um lugar na nossa memória.
Vamos, pois, até aos princípios do Verão de 1808. No últimos meses do ano anterior, um exército napoleónico comandado pelo general Junot ocupara Portugal e a família real portuguesa embarcara para o Brasil. Quem governava o reino, agora, era Junot e podemos calcular que não o fazia com grande (ou pequeno) carinho ou respeito pelos Portugueses. Aliás, a diplomacia delirante de Napoleão previra o desmembramento do país em três partes, como bolo cortado em três fatias.
Pois bem, no início de Junho de 1808 o Porto sublevou-se — e, como um rastilho, a revolta espalhou-se, praticamente, a todo o país. O general Manuel Gomes Sepúlveda, governador das armas de Trás-os-Montes, lançou-se na resistência com a maior energia, apesar dos seus setenta e três anos: em Bragança, fez aclamar o príncipe regente, D. João (futuro D. João VI), criou uma junta governativa, mobilizou os trasmontanos, formou regimentos de milícias; o movimento espalhou-se pelo Minho, e cobriu, assim, boa parte do Norte: Braga, Barcelos, Guimarães, Viana, Melgaço, Chaves. O general Loison, o tristemente famoso «maneta», que cometeu terríveis atrocidades, tentou avançar sobre o Porto mas foi cercado em Mesão Frio e retirou para Almeida, fazendo sempre sangrentas tropelias; e a revolta chegou a Aveiro, a Coimbra, à Figueira da Foz.
Mosteiro de Alcobaça - Nave central
Também o Alentejo se levantou contra o ocupante; e no Algarve o primeiro brado foi ouvido em Olhão: a 16 de Junho era aclamado aí o príncipe regente e em Faro o general francês Maurin recebia voz de prisão, ao mesmo tempo que os restantes franceses eram expulsos. Foi então que um certo Manuel Garrocho, marinheiro de Olhão, decidiu, loucamente, meter-se com os companheiros no seu pequeno caíque Bom Sucesso e ir até ao Brasil, nada mais nada menos, para informar o regente de que Portugal estava a expulsar os invasores — e o mais extraordinário é que conseguiu lá chegar.
Como evoluiu esta restauração do reino? Não tão bem como a outra, é verdade. Mas também será verdade que, pelo menos numa fase inicial, terá facilitado bastante o trabalho às tropas inglesas que desembarcaram pouco depois em Portugal e que, apoiadas por unidades portuguesas, viriam a derrotar as forças de Junot na Roliça e no Vimieiro. Essas duas batalhas puseram termo à primeira invasão francesa; e assim, a restauração de 1808 foi, de facto, vitoriosa e efectiva.
Como sabemos, houve mais duas invasões napoleónicas e, tanto sob o ponto de vista militar como político, as coisas não foram simples e ao povo português estavam ainda reservados muitos sofrimentos. Isso, porém, não impede que esta restauração mereça fazer parte da nossa memória — e, com ela, o nome do general Sepúlveda. De que ninguém fala — o que é, no mínimo, lamentável. Mas já nos vamos habituando: não é um futebolista…
 João Aguiar

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

EXERCÍCIOS - Scraperboard

Pistia stratiotes
É um género botânico, pertencente à família Araceae.
Lápis de cor sobre Scraperboard 15X23cm

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

VIAGENS NA HISTÓRIA - 14


UM SIMPLES SOLDADO

Este mês, a nossa viagem na História leva-nos a França e ao ano de 1918. Foi, como se sabe, o último da I Guerra Mundial, mas não foi menos sangrento do que os anteriores.
Portugal entrara oficialmente no conflito, contra os impérios centrais, em 1916; porém, na Europa — pois que em África houvera já escaramuças com tropas alemãs —, o envio do Corpo Expedicionário Português (CEP) só se concretizaria em finais de Janeiro de 1917. Não vou aqui analisar a fundo os motivos que levaram o Governo português de então a fazer alinhar o país com um dos blocos beligerantes; regra geral, aponta-se como principal razão a necessidade de poder defender o império colonial, sobretudo Angola e Moçambique; pela minha parte, e embora não recusando a validade dessa perspectiva, suspeito que, a complementá-la, estaria o desejo da República, então ainda muito recente mas já precocemente debilitada, abalada por dissensões internas, por uma grave instabilidade e sérias provações económicas e financeiras, de encontrar uma forma de minimizar esses problemas contrapondo-lhes um projecto nacional, mobilizador, que concentrasse interesses e atenções.
Para o caso em apreço, isso não interessa, de resto. O «caso» em apreço é um só homem, um jovem camponês transmontano de vinte e dois anos, nascido em Valongo, concelho de Murça, a quem tinham vestido um uniforme e incorporado no Regimento de Infantaria 19, de Chaves. Chamava-se Aníbal Augusto Milhais; ficaria, porém, na História sob o nome de Soldado Milhões.
O rapaz embarcou para França a 23 de Maio de 1917. Não sabia, evidentemente, que embarcava para um destino histórico — e lendário, já que os relatos das suas proezas divergem em vários pontos. Do que não há dúvida é que Aníbal Milhais entrou na galeria dos heróis portugueses durante a batalha de La Lys, a 9 de Abril de 1918.
Com este nome designa-se o combate do primeiro dia da grande ofensiva alemã contra a 2ª Divisão do CEP, como parte da «Operação Georgette», lançada pelo 6º Exército alemão do general Ludendorff. Foi nesse combate que Milhais ganhou o seu nome de honra: a bravura que mostrou foi tal que o seu comandante, o major João Ferreira do Amaral, o abraçou e lhe disse: «Chamas-te Milhais, mas vales milhões!». E o «Milhões» ficou.
Três meses depois, em Julho, o Soldado Milhões tornava-se definitivamente célebre: no campo de Isberg, sozinho, empunhando a sua metralhadora Lewis, cobriu e protegeu a retirada dos seus camaradas portugueses e de soldados escoceses. Consta que se houve de tal forma que os alemães pensaram estarem a enfrentar toda uma unidade inimiga. Em consequência — coisa muito rara — recebeu a Torre e Espada no próprio campo de batalha, das mãos do general Gomes da Costa. A esta distinção seguir-se-ia a Cruz de Guerra, a Cruz de Leopoldo da Bélgica e muitas outras.
Nada disto impediu que mais tarde, em 1928, o herói emigrasse para o Brasil, para ver se conseguia sustentar os filhos: uma pátria agradecida NÃO velava por ele… porém, os portugueses residentes no Brasil abriram uma subscrição a seu favor, para que pudesse viver dignamente no seu país. E Milhões regressou a Portugal. Dedicou-se uma vez mais à lavoura, o seu ofício de sempre; e veio a falecer em 1970.
Teve honras militares; fizeram-lhe um monumento. Mas eu penso, humildemente, que é preciso algo mais: manter viva a sua memória. Não temos assim tantos como ele para nos darmos ao luxo de esquecer.
João Aguiar


sábado, 2 de fevereiro de 2013

VIAGENS NA HISTÓRIA - 13


O QUE FALTAVA DIZER

Não é a primeira vez que, nestas crónicas, abordo a revolução de 1383 – 1385. Aliás, a crónica do mês passado focava um assunto que lhe está muito próximo, isto é, a batalha dos Atoleiros. Ora, se volto à mesma época e a um tema já referido anteriormente, é por duas razões; primeira, nunca é demais recordar um facto tão importante e que tende a cair no esquecimento; 1383 deveria ser recordado, pelo menos, com o destaque dado ao 25 de Abril de 1974. Segunda razão: faltava ainda dizer-vos qualquer coisa — o significado europeu, e mesmo mundial, do que ocorreu durante aqueles dois anos dos finais do século XIV.
Às vezes, temos uma visão mais nítida do nosso país quando o olhamos com os olhos de um estrangeiro. É o que se passa neste caso em relação a um autor pouco conhecido, o francês Dominique Lelièvre, autor de um livro que passou quase desapercebido: «Mer et Révolution». A maior parte desta obra não nos traz propriamente novidades, mesmo porque, na sua maioria, as fontes são portuguesas (a começar pelo incomparável Fernão Lopes). Porém, ao introduzir o assunto do seu livro perante os leitores, o autor faz algumas considerações que, regra geral, os meus compatriotas (aqueles, bem poucos, que conhecem o assunto) nunca fazem, nem lhes entra sequer na cabeça.
É assim que Dominique Lelièvre faz notar que os portugueses «foram os únicos na Europa a conseguir com êxito, à escala de uma nação, uma “revolução burguesa” (1383 – 85)». E, mais adiante, acrescenta: «Se o caso de Portugal é único, não é por isso menos exemplar, tanto pela vitória conseguida pelas armas com uma táctica tipicamente “burguesa” já experimentada na Flandres perante os orgulhosos senhores franceses, como pelos avanços sociais, mesmo que estes hajam sido minimizados ao longo dos decénios seguintes. Desta “revolução burguesa”, cujo primeiro mérito é o seu êxito, nasce uma nova dinastia que levará Portugal ao firmamento dos países descobridores. Estes acontecimentos revolucionários mereciam ser conhecidos e reconhecidos».
Conhecidos e reconhecidos: é isso o que faz falta. Tanto a nível internacional como (em primeiro lugar) a nível nacional. Na Europa, o século XIV, tempo de transição, foi fértil em levantamentos populares, motins e revoltas. De todos esses tumultos, os mais conhecidos foram as «jacqueries», em França. As classes populares queriam libertar-se do jugo da nobreza, os burgueses queriam um lugar ao Sol. Mas, nesse século XIV, tais movimentos acabaram por ser todos esmagados; serviram de prelúdio à futura transformação e nada mais. Excepto em Portugal. Aí — ou melhor, aqui — a revolução venceu; e venceu (o que é muito importante) de um modo «operacional», isto é: foi possível encontrar um novo equilíbrio. De modo revolucionário, contra toda a tradição, elegeu-se um novo rei para que iniciasse uma nova dinastia. O povo reclamou ao Mestre de Avis que os ricos pagassem taxas, fintas e talhas, tal como os pobres pagavam. Os mesteirais passaram a estar representados no governo municipal de Lisboa e outras cidades. O conselho régio deixou de ser somente formado por nobres e membros do alto clero: os letrados falavam agora mais alto.
Não tenho espaço, evidentemente, para enumerar as mudanças trazidas pela revolução. O que importa, repito, é que, na ideia de um escritor não português, esta revolução é um caso único e exemplar.
O que é inteiramente correcto. Mas nós, os descendentes de toda aquela gente que fez a revolução de 83 – 85, teremos acaso uma opinião sobre o assunto? Saberemos, sequer, de que é que se trata?
É uma dúvida, no mínimo, angustiante.
João Aguiar


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

VIAGENS NA HISTÓRIA - 12


A PEQUENA BATALHA
A memória histórica, quando existe — em Portugal está em crise, tal como o resto —, funciona, muitas vezes, de modo profundamente injusto. Eis uma das muitas injustiças que eu poderia citar: quando se fala da revolução de 1383 – 1385, ou do Santo Condestável, salta imediatamente para a ribalta a batalha de Aljubarrota e, em termos militares, não se fala de mais nada. Ora, sem dúvida que Aljubarrota foi muito importante, foi uma batalha decisiva — mas não foi a única. Ainda deveríamos citar Atoleiros, Trancoso e Valverde. E é justamente para a batalha dos Atoleiros que queria chamar a vossa atenção.
Foi, é certo, um recontro de pequenas proporções, que, a fazer fé no cronista Fernão Lopes, teve uma curta duração. Também é verdade que não foi decisivo. Ainda assim, na minha muito humilde opinião, mereceria ter um lugar na História semelhante ao de Aljubarrota. E uma breve evocação do acontecimento bastará para explicar porquê.
D. Nuno Álvares Pereira
pórtico de Santa Maria de Belém
(Mosteiro das Gerónimos)
A batalha travou-se a 6 de Abril de 1384, perto de Fronteira, no Alentejo. A situação, nos dias antecedentes, era a seguinte: o rei Juan I de Castela estava em Santarém com o seu exército, ultimando os preparativos para cercar Lisboa; nesta cidade, o Mestre de Avis, futuro D. João I de Portugal, organizava a defesa; e no Alentejo entrara uma segunda hoste castelhana. Portanto, enquanto Lisboa se preparava para enfrentar Juan I, era preciso assegurar também a defesa do Alentejo invadido e para isso o Mestre de Avis nomeou D. Nuno Álvares Pereira (que ainda não era condestável) como fronteiro.
Nun’Álvares partiu de Lisboa e pelo caminho foi tentando engrossar a sua magra coluna. Em Estremoz passou revista às tropas: eram menos de 300 lanças, cerca de 1000 peões e 100 besteiros: muito pouco. O inimigo, que partira do Crato para ir atacar Fronteira, tinha mais de 1000 lanças e grande número de «ginetes» — isto é, lanceiros a cavalo — e muita peonagem. No comando estavam alguns grandes senhores, entre eles um irmão mais velho de Nun'Álvares, D. Pedro Álvares Pereira, prior do Hospital, que combatia por Castela.
A disparidade de efectivos era enorme. No entanto, Nun’Álvares insistiu em dar batalha, no lugar dos Atoleiros. E obteve uma vitória rápida e estrondosa. E é aqui que chegamos ao que eu queria dizer desde o princípio.
Ele venceu porque, contra a cavalaria de Castela, opôs uma espécie de «quadrado» de infantaria, em que a vanguarda estava guarnecida por lanças cravadas no solo e, logo atrás, por uma linha de besteiros e fundibulários. Os ginetes castelhanos começaram a ser abatidos por projécteis antes mesmo de chegarem ao contacto directo com o inimigo e depois os cavalos eram trespassados pelas lanças da vanguarda portuguesa. Sem entrar em pormenores: os invasores sofreram 120 baixas, os defensores nem uma só.
Ora bem: esta foi a primeira vez que tal aconteceu em Portugal. Como diz Fernão Lopes, «este Nun’Álvares foi o primeiro que da memória dos homens (…) pôs batalha pé terra em Portugal e a venceu». A táctica seria repetida em Aljubarrota e Valverde. Em Trancoso, vitória em que o Condestável não participou, também se formou quadrado — porque um dos comandantes portugueses estivera nos Atoleiros.
Se a esta estreia táctica juntarmos o enorme efeito moral produzido no campo português e o fim da invasão do Alentejo, concluiremos, penso, que esta é uma batalha a não esquecer.

João Aguiar