domingo, 5 de maio de 2013

VIAGENS NA HISTÓRIA - 23

UMA ESTRANHA HERANÇA

A viagem deste mês leva-nos, para começar, aos séculos XII e XIII. E para tornar as coisas mais claras, temos de passar brevemente pela Itália.
Foi aí que, nesses séculos, decorreu a luta entre Guelfos e Gibelinos. Não podemos deter-nos nesta questão; digamos que, «grosso modo», se tratou de um confronto entre o Papado e o Sacro Império Romano-Germânico. Os Guelfos defendiam a supremacia do Papa, os Gibelinos a supremacia do Imperador. Mas o termo «gibelino» ganhou, pelo menos modernamente, um sentido histórico mais lato: designa, ainda que de forma vaga e genérica, uma certa concepção que, mesmo sem deixar de respeitar o pontífice de Roma, defende maior independência espiritual e política do indivíduo e do Estado. Assim, têm sido associados a este “gibelinismo” correntes e movimentos como o dos “espirituais” franciscanos e o dos joaquimitas, ou seja, seguidores dos ensinamentos do abade Joaquim de Flora.
Entremos agora em Portugal. O nosso país foi sempre, desde o início, um filho dilecto de Roma. A nossa independência tornou-se indiscutível com a bula “Manifestis Probatum”; o nosso primeiro rei declarou-se vassalo de São Pedro. Mas, simultaneamente, ao longo da primeira dinastia portuguesa, houve sempre manifestações de “gibelinismo”: é essa a estranha herança de que falo — estranha porque poucas vezes tem sido reconhecida como tal pelos próprios portugueses.
O primeiro sinal que dela temos é lendário: a história do “bispo negro”, que Alexandre Herculano aproveitou e que mostra um D. Afonso Henriques recusando-se a obedecer ao Papa. Trata-se de uma lenda, claro, mas as lendas dizem-nos muito sobre a mentalidade e as ideias que prevalecem, a dado momento, em determinado contexto social.
Já não são lendários os constantes conflitos entre a coroa e a alta hierarquia eclesiástica durante os reinados de D. Sancho I, D. Afonso II, D. Sancho II e D. Afonso III. Houve uma trégua com D. Dinis, porque este foi um mestre em diplomacia; mas foi também ele quem torneou a decisão pontifícia de dissolver a Ordem do Templo para obter a criação da Ordem de Cristo, em que se integraram todos os templários portugueses. E, mais tarde, será com o neto deste mesmo rei, D. Pedro I, que entrará em vigor o chamado Beneplácito Régio, estabelecendo que nenhum documento vindo da Cúria romana será válido sem o acordo expresso do soberano, que mandará verificar a sua autenticidade e também se não contraria as leis do país. É, verdadeiramente, uma expressão da concepção gibelina do poder.
Mas há que referir ainda as vozes da heterodoxia religiosa, que foram depois abafadas mas cujo murmúrio chega até nós: a influência dos espirituais franciscanos; as ideias de um certo Afonso Geraldes de Montemor e as de um certo Tomás Escoto, que pregou na igreja de Santos, em Lisboa — ambos foram fulminados pela furiosa e ortodoxa pena de Frei Álvaro Pelágio, bispo de Silves. Que, por sua vez, foi mandado calar por D. Afonso IV e D. Pedro I e teve de abandonar a sua diocese.
Falta-nos o espaço para continuar. No entanto, o que aqui fica já basta para entender que — sem, de modo algum, negar o papel importante na nossa história dos grandes nomes ortodoxos da Igreja — deveremos considerar, no nosso legado, essa “corrente gibelina” e, com ela, as linhas não-canónicas de pensamento filosófico e religioso que surgiram em Portugal. Talvez mereçam mais atenção e um estudo mais atento.
João Aguiar


Charola do Convento de Cristo — em TOMAR

terça-feira, 23 de abril de 2013

VIAGENS NA HISTÓRIA - 22


OS ESQUECIDOS

Em 1732, reinava em Portugal D. João V, foi publicado em Lisboa o primeiro tomo de uma obra intitulada «Ennoea, ou aplicação do entendimento sobre a Pedra Filosofal», cujo segundo tomo sairia no ano seguinte.
O autor era um médico formado em Coimbra chamado Anselmo Caetano de Abreu Gusmão Castelo Branco. Para os estudiosos das ciências herméticas, ele tem a particularidade de ser o único, ou um dos muito poucos alquimistas portugueses — conhecidos, entenda-se.
Não vamos tratar aqui de Alquimia, portuguesa ou estrangeira. O caso do Dr. Anselmo Caetano Castelo Branco é mencionado por ser um daqueles estudiosos portugueses que ousaram debruçar-se sobre matérias heterodoxas. E digo «ousaram» porque, regra geral, não era seguro fazê-lo. Veja-se outro exemplo: Frei Vicente Nogueira (1586 – 1654), fidalgo, escritor, cónego da Sé de Lisboa, coleccionador de livros; sabia grego, latim, caldaico, siríaco, árabe, italiano, francês e castelhano. A Inquisição apreendeu-lhe a biblioteca, muito rica em obras herméticas. Em 1631, partiu para Roma, possivelmente para evitar outros inconvenientes maiores. É verdade que a Restauração de 1640 lhe reconheceu os méritos, pois Vicente Nogueira exerceu o cargo de encarregado de negócios de Portugal junto da Santa Sé entre 1643 e 1654; considerando estas datas, vemos que não regressou ao seu país.
Poderia, se tal tivesse interesse, publicar aqui uma lista bem longa de nomes que, de uma forma ou de outra, sofreram, ao longo da História, as amarguras das limitações impostas à pesquisa, ao estudo e à especulação, seja no campo religioso, seja no campo filosófico ou na pesquisa científica. E note-se que, nesta matéria,  estou muito longe de ser fundamentalista: reconheço (nem todos o fazem) grandes méritos a D. João V, em cujo reinado se assinalam importantes iniciativas culturais; e nem sequer mando para o inferno D. João III, uma figura histórica demasiado complexa para ser atabalhoadamente despachada para o rol dos beatos tapados e maléficos — ao contrário do que pensa e escreve muita gente bem pensante.
Estou, assim, muito à vontade para dizer o que penso; e penso que ainda hoje (sim; ainda hoje) sofremos, não raro, da estreiteza que nos foi imposta por alguns séculos de Inquisição. Note-se que esta, sob as suas muitas formas (e, atenção, não somente a católica romana), foi um fenómeno geral e não peninsular. Digamos, porém, que por cá durou mais tempo, ou/e foi mais abrangente, e isto por motivos vários.
Não posso, agora, enumerar nem analisar esses motivos. Posso apenas observar que a Inquisição nos deixou uma larga ferida que ainda não sarou por completo. É claro que hoje se disfarça essa influência inconfessável e que, de resto, tem muito, tem quase tudo de inconsciente. Mas não será por acaso que o nosso solo não parece ser muito apropriado para a cultura da inovação. Os inventores portugueses ganham medalhas de ouro — mas as suas invenções, essas, nunca as vemos. E os homens que no passado abriram a janela do pensamento estão hoje esquecidos, quase todos.
Por isso aqui lhes presto homenagem.

João Aguiar

Biblioteca do Convento de Mafra

domingo, 14 de abril de 2013

VIAGENS NA HISTÓRIA - 21


VIAGEM A MARIALVA

Entenda-se: não me refiro à povoação. Esta viagem é ao mundo histórico dos marqueses de Marialva. Confesso que o uso do termo «marialvismo» e da palavra «marialva» como substantivo comum (muitas vezes, mesmo, como adjectivo) começou a intrigar-me a partir do momento em que, por curiosidade e às vezes por necessidade, pesquisei, ainda que superficialmente, as vidas dos seis marqueses de Marialva.
Toda a gente sabe — mais ou menos — o que são o marialvismo e os marialvas: copos, estúrdia, machismo, mulheres «de má nota», touradas, cavalos, ócio, fidalguismo estéril, etc. Ora, quando eu, ingenuamente, fui à procura disto no 1º marquês de Marialva, D. António Luís de Menezes, encontrei, antes, um herói nacional: conspirador de 1640, general brilhante durante a Guerra da Restauração (vencedor nas Linhas de Elvas e em Montes Claros, etc., etc.) e um dos plenipotenciários portugueses nas negociações do Tratado de Madrid (1668), que pôs termo à guerra com a Espanha. Passei ao 2º marquês, depois ao 3º… para abreviar: só no 4º marquês de Marialva, D. Pedro José de Alcântara Menezes Noronha Coutinho, é que fui encontrar um «toque» de marialvismo, porém muito distorcido: este 4º marquês foi, simplesmente, um dos melhores cavaleiros europeus do seu tempo; tanto assim que à boa equitação se deu o nome de «arte de Marialva». Mas D. Pedro José (etc.) não se limitou aos cavalos, também foi sócio da Academia Real das Ciências, o que parece indicar que tinha outros interesses. E nada disto, equitação incluída, é propriamente marialvismo, no sentido negativo. Dos outros marqueses de Marialva, o 2º e o 3º combateram na Guerra da Sucessão de Espanha; e todos os seis foram militares. O 6º, que morreu solteiro e sem filhos, foi também diplomata. Ponto final. Em que ficamos?
Sem pretensões de defender tese histórica, eu acho, timidamente, que a culpa de tudo pertence a Júlio Dantas. Que resolveu escrever uma peça de teatro sobre a vida da famosa Maria Severa, fadista bonita (e de «má nota») que viveu entre 1820 e 1846.
A Severa fora — toda a Lisboa o sabia — amante do 13º conde de Vimioso, D. Francisco de Paula de Portugal e Castro. E este, sim: era aquilo a que se chama hoje um «marialva»: ócio, touros e cavalos (admita-se que nesse campo era muito destro e valente), copos, faduncho, boémia, inutilidade, machismo, enfim, todo o programa do «marialvismo» decadente. Uma pena, já que a casa de Vimioso dera ao país gente muito ilustre, pelo menos até ao 7º conde, D. Miguel de Portugal.
Então, porquê «marialvas» e não «vimiosos», porquê «marialvismo» e não «vimiosismo»? Julgo que por isto: Júlio Dantas, a pedido do chefe do Governo, Hintze Ribeiro, aceitou poupar a família Vimioso. E como o último marquês de Marialva morrera em 1823, Dantas resolveu inventar um «conde de Marialva» (título que existiu, mas que se extinguiu no século XVI) e fazer dele o amante da Severa. Ora, esta peça teatral de Júlio Dantas veio a ser adaptada ao cinema por Leitão de Barros: o primeiro filme sonoro português e, na época (1930), um grande êxito de bilheteira. Estava feita a transformação de «vimioso» em «marialva». E os fados começaram a cantar os marialvas e as severas e tudo ficou consumado.
Se algum erudito me quiser dar na cabeça, com argumentos (e documentos) de peso, não me queixarei. Desde que os argumentos e documentos sejam mesmo de peso. Até lá, acho que é devida uma desculpa aos marqueses de Marialva…

João Aguiar

Joaquim Carneiro da Silva, 1727-1818
[5º Marquês de Marialva] 

domingo, 7 de abril de 2013

VIAGENS NA HISTÓRIA - 20


VIAGEM AO VENDAVAL

Serve esta viagem na História para prestar homenagem a um homem português, pouco brilhante, mas muito injustiçado. Quanto ao vendaval de que se fala aqui, inclui várias rajadas destruidoras: a Revolução Francesa e as suas consequências em toda a Europa; a invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão; a Revolução Liberal portuguesa; a independência do Brasil e, pelo meio, várias guerras. Foi isto o que o tal homem injustiçado teve de enfrentar —e muito mais ainda, por acréscimo.
O leitor já terá percebido que estou a evocar a figura do rei D. João VI. Certas historiografias — a romântica, a marxista, entre outras — têm zurzido impiedosamente este monarca. Mas os juízos que sobre ele fazem são, no mínimo, apressados. Poucos governantes, nacionais ou estrangeiros, tiveram de enfrentar um período de tantas mutações brutais, um «salto» tão fundamental na evolução social, política, económica e ideológica como D. João VI enfrentou ao longo dos 34 anos em que chefiou o Estado, primeiro em nome da sua mãe, D. Maria I, depois como regente oficialmente investido e finalmente como rei. Note-se, também, que D. João não contava, de todo, subir ao trono: o herdeiro era o seu irmão D. José, príncipe do Brasil, ao que parece com melhor cabeça e que fora cuidadosamente preparado por Pombal, mas que viria a morrer aos vinte e sete anos.
A questão é muito simples: durante o vendaval, europeu e português, a que me referi, Portugal teria necessitado de um génio e de um herói. Que pena: em vez disso, teve somente um homem sensato, honesto, bem intencionado e pacífico, ansioso por evitar conflitos e derramamentos de sangue. Ora, a esse homem, o que lhe saiu na rifa foi uma série de guerras e revoluções, uma família desunida em que se remexia uma amantíssima esposa militantemente reaccionária, um país invadido, destroçado, economicamente destruído e saqueado pelos invasores. Seria difícil fazer melhor do que ele fez, nas circunstâncias em que ocupou o trono de Portugal.
Não é possível apresentar aqui o historial do reinado de D. João VI. O que é possível — e, atrevo-me a dizer, necessário — é fazer a seguinte advertência: não devemos iludir-nos ingenuamente com o pouco brilho e a barriga do senhor, tal como os retratos o mostram. Não era um tonto que ali estava. A retirada da família real para o Brasil foi um golpe de mestre e D. João, então ainda regente, adoptou uma política extremamente subtil, mesmo maquiavélica: arranjou as coisas de modo a que, na Europa, Portugal pudesse ser considerado como «aliado» da França (por isso deixou disposições para que não houvesse resistência); ao mesmo tempo, mantinha os portos brasileiros abertos aos navios ingleses, para jogar a cartada britânica logo que o ímpeto napoleónico fosse quebrado. Nada disto era heróico, mas ele não queria heroísmo, queria, sim, acautelar a futura independência do seu povo e poupar-lhe, quanto possível, as misérias de uma guerra.
Nos conflitos que acompanharam a instauração do constitucionalismo, o rei agiu sempre no sentido de apaziguar os ânimos, de conseguir uma evolução pacífica, de promover a concórdia. Quem sabe, se não o tivessem assassinado — como parece ter sido o caso —, talvez ainda pudesse concretizar uma parte do seu sonho, um país pacificado, um povo reconciliado consigo mesmo.
Se falhou (e falhou), a culpa não foi sua. O seu grande defeito foi não ter sido um génio. Bom, mas criticar é fácil e aqueles que o têm coberto de lama também o não foram, nem são…
João Aguiar


domingo, 31 de março de 2013

VIAGENS NA HISTÓRIA - 19


A TEIMOSIA

Desta vez, para realizarmos convenientemente a nossa viagem na História, seria preciso seguir o exemplo de Santo António ao produzir o milagre da ubiquidade — difícil, porque nenhum de nós é santo. Ou seja, teríamos de fazer várias viagens ao mesmo tempo. Para simplificar, proponho somente três incursões no passado, a primeira das quais a Massangano, no século XVII.
Massangano fica na margem direita do rio Cuanza, em Angola. Tem uma inegável importância na história colonial, porque foi palco de vários combates. Mas o que interessa, aqui, é o período que vai de 1641 a 1648. Durante esses sete anos, Luanda esteve em poder dos holandeses, que passaram, na prática, a dominar Angola — mas não a totalidade do território: as autoridades portuguesas foram entrincheirar-se em Massangano, que se tornou a capital portuguesa de Angola. Em 1648, Salvador Correia de Sá expulsou os holandeses de Luanda e os portugueses de Massangano foram finalmente socorridos.
Esta crónica não é um hino de louvor ao colonialismo (português ou holandês); mas a História não é alterável. O que quero salientar, aqui, é a furiosa persistência (a teimosia!) com que os portugueses se agarraram àquela praça empoleirada sobre o Cuanza. No princípio dos anos 70 (século XX, claro), visitei Massangano; e, mesmo então, a vista das ruínas — igreja, fortaleza, tribunal, enfim, os edifícios de uma administração reduzida mas decida a funcionar — era impressionante. Como puderam resistir naquela solidão, militarmente acossados de todas as partes e sujeitos às febres que levaram muitos deles? Que teimosia foi aquela?
Segunda viagem: será breve, porque já me referi ao assunto em crónica anterior: o segundo cerco de Diu, em 1546. Durou seis meses e quando D. João de Castro pôde finalmente intervir e libertar a praça, já esta não era muito mais que uma grande ruína, mas onde ainda se combatia. De fins de Abril a Novembro de 1546, os sitiados, homens e mulheres, combateram com raiva. Recusaram as propostas de rendição com honra, que lhes permitiriam partir levando os seus haveres. Não podemos, hoje, imaginar o que terão sido aqueles seis meses na fortaleza de Diu. Uma vez mais: teimosia!
E a terceira viagem vai mais longe no tempo e é mais vasta no espaço: refiro-me a toda a história da implantação portuguesa no Oriente. Um historiador inglês bem conhecido, o Prof. Charles Boxer, dá-nos uma perspectiva de estrangeiro, que é sempre bom ter em conta quando é honesta (como é o caso), mesmo se por vezes algo incorrecta ou injusta. No seu livro «O Império Marítimo Português», Boxer faz notar, com justeza, que se fala muito das conquistas portuguesas  no Oriente, mas que se fala pouco das várias tentativas falhadas que antecederam essas conquistas. E comenta, em substância, que os portugueses mostraram uma enorme tenacidade, uma enorme determinação (uma enorme teimosia!) na construção do seu império marítimo.
Como o leitor compreendeu, era à teimosia que eu queria chegar com estas viagens. Ponhamos de lado as possíveis motivações e as explicações — bravura, força espiritual, sede de riquezas e de poder, ardor religioso, ganância, tudo isso esteve presente em proporções diversas, mas não é, aqui, o meu tema. O meu tema é a persistência, a coragem da teimosia que os portugueses mostraram em vários momentos da sua história, e não só nestes que acabo de referir. Como país e como povo, somos um  caso de teimosia.
E que falta ela nos faz, hoje…!
João Aguiar

TORRE DE BELÉM - Lisboa