segunda-feira, 11 de março de 2013

VIAGENS NA HISTÓRIA - 16


OS FUNDADORES

No correr destas viagens pela História voltamos, agora, às origens, ao tempo em que «tudo começou». O que nos leva a considerar uma noção que não está muito divulgada entre nós: a noção dos Fundadores. De facto, tendemos a considerar o primeiro rei, D. Afonso Henriques, como o quase-único artesão da independência e, quando muito, os seus pais, D. Henrique e D. Teresa, figuram como precursores, ponto final. Mas a verdade é que houve todo um grupo de homens que, pela sua importância social e militar, bem como pelas suas opções políticas, merecem amplamente partilhar da categoria de Fundadores de Portugal.
Nesta crónica, ocupar-me-ei de um só desses fundadores, um dos mais esquecidos e ausentes da memória popular: trata-se de Paio (isto é: Pelágio ou Pelayo…) Mendes, que foi arcebispo de Braga entre 1118 e 1137.
Segundo uma tradição histórica muito aceite, embora não totalmente comprovada, D. Paio Mendes pertencia à poderosa casa da Maia e era irmão de dois outros fundadores: Soeiro Mendes da Maia e Gonçalo Mendes da Maia, que ficou conhecido como «o Lidador». Para o caso que nos ocupa, não é importante saber se pertencia à casa da Maia ou à casa de Sousa; o que importa é o apoio que deu a D. Afonso Henriques e a provável influência que exerceu junto do infante — aliás, o Prof. Torcato Sousa Soares defendeu como hipótese quase certa que foi Paio Mendes, e não Egas Moniz, o aio de Afonso Henriques, hipótese que justificou com argumentos bastante convincentes.
De qualquer modo, o certo é que a acção deste homem se revelou decisiva em dois aspectos, sendo que o primeiro foi a sua luta constante contra Diogo Gelmires, arcebispo de Compostela. De facto, pode-se dizer que a luta pela emancipação da terra portucalense, foi (não só mas também) o verdadeiro duelo travado entre Compostela e Braga no campo da organização eclesiástica, da disputa pelas sés sufragâneas de cada arquidiocese. Dada a importância da Igreja, um tal conflito não podia deixar de ter reflexos políticos, mesmo porque os arcebispos também eram potentados militares. Ora, a verdade é que D. Paio Mendes mostrou-se particularmente dinâmico na defesa de Braga contra as investidas de Compostela.
O segundo aspecto foi, como referido acima, a adesão do arcebispo ao movimento autonomista de Afonso Henriques — e talvez mesmo que, em lugar de «adesão», se deva dizer «inspiração». Note-se que, quando D. Teresa, que se travou de razões com Paio Mendes, o exilou, este foi para Zamora — e levou consigo o jovem infante portucalense. Pois bem: como é sabido, foi justamente nessa ocasião, em Zamora, que Afonso Henriques se armou a si próprio cavaleiro, o que correspondia a dar um passo simbólico na direcção de uma coroa real, pois só os reis se armavam cavaleiros a si mesmos. E D. Paio Mendes estava presente; é difícil não pensar que aquele acto político se deve à sua influência, mais até do que à única iniciativa do então muito jovem infante.
Foi isto em 1122 ou 1125. E em 1128 travava-se a batalha de São Mamede, que deu o poder a Afonso Henriques. Ao lado do infante, estavam Egas Moniz, estavam os Sousas, estavam os da Maia — estava D. Paio Mendes, muito possivelmente, um dos grandes promotores da revolta contra D. Teresa e a «facção galega».
Sem dúvida que, na nossa Galeria dos Fundadores, temos de incluir este quase esquecido arcebispo de Braga.

João Aguiar


sábado, 9 de março de 2013

POEMA

Mordi o pó das planícies nuas,
Cortei a carne por humildade;
E não bastou ter-Te crucificado,
Porque quiseste que eu nascesse humano.

Calquei as flores com os pés e com orgulho,
Jorrei poemas, ladainhas, astros;
E não bastou ter-Te crucificado.

Matei e feri, curei e fui curado,
Mil vezes me sangrei e Te sangrei,
E não bastou ter-Te crucificado:
Ainda quis coroar-Te rei de espinhos,
Rei de sangue e suor, e flagelado.

E olha para a Tua obra magna,
Tu, que quiseste que eu nascesse humano:

Não Te bastou ter-Te crucificado.

João Aguiar, 1972

Pontiado a aparo com tinta da china sobre papel A3

VIAGENS NA HISTÓRIA - 15


A RESTAURAÇÃO ESQUECIDA

Penso que todos os portugueses, mesmo os mais distraídos e os mais ignorantes, sabem em que consistiu a Restauração e até lhe conhecem a data, mesmo porque é feriado nacional. Porém, convido-vos hoje a viajar até ao início do século XIX, para evocarmos uma outra restauração, talvez menos espectacular e não tão bem sucedida, mas que, mesmo assim, merece um lugar na nossa memória.
Vamos, pois, até aos princípios do Verão de 1808. No últimos meses do ano anterior, um exército napoleónico comandado pelo general Junot ocupara Portugal e a família real portuguesa embarcara para o Brasil. Quem governava o reino, agora, era Junot e podemos calcular que não o fazia com grande (ou pequeno) carinho ou respeito pelos Portugueses. Aliás, a diplomacia delirante de Napoleão previra o desmembramento do país em três partes, como bolo cortado em três fatias.
Pois bem, no início de Junho de 1808 o Porto sublevou-se — e, como um rastilho, a revolta espalhou-se, praticamente, a todo o país. O general Manuel Gomes Sepúlveda, governador das armas de Trás-os-Montes, lançou-se na resistência com a maior energia, apesar dos seus setenta e três anos: em Bragança, fez aclamar o príncipe regente, D. João (futuro D. João VI), criou uma junta governativa, mobilizou os trasmontanos, formou regimentos de milícias; o movimento espalhou-se pelo Minho, e cobriu, assim, boa parte do Norte: Braga, Barcelos, Guimarães, Viana, Melgaço, Chaves. O general Loison, o tristemente famoso «maneta», que cometeu terríveis atrocidades, tentou avançar sobre o Porto mas foi cercado em Mesão Frio e retirou para Almeida, fazendo sempre sangrentas tropelias; e a revolta chegou a Aveiro, a Coimbra, à Figueira da Foz.
Mosteiro de Alcobaça - Nave central
Também o Alentejo se levantou contra o ocupante; e no Algarve o primeiro brado foi ouvido em Olhão: a 16 de Junho era aclamado aí o príncipe regente e em Faro o general francês Maurin recebia voz de prisão, ao mesmo tempo que os restantes franceses eram expulsos. Foi então que um certo Manuel Garrocho, marinheiro de Olhão, decidiu, loucamente, meter-se com os companheiros no seu pequeno caíque Bom Sucesso e ir até ao Brasil, nada mais nada menos, para informar o regente de que Portugal estava a expulsar os invasores — e o mais extraordinário é que conseguiu lá chegar.
Como evoluiu esta restauração do reino? Não tão bem como a outra, é verdade. Mas também será verdade que, pelo menos numa fase inicial, terá facilitado bastante o trabalho às tropas inglesas que desembarcaram pouco depois em Portugal e que, apoiadas por unidades portuguesas, viriam a derrotar as forças de Junot na Roliça e no Vimieiro. Essas duas batalhas puseram termo à primeira invasão francesa; e assim, a restauração de 1808 foi, de facto, vitoriosa e efectiva.
Como sabemos, houve mais duas invasões napoleónicas e, tanto sob o ponto de vista militar como político, as coisas não foram simples e ao povo português estavam ainda reservados muitos sofrimentos. Isso, porém, não impede que esta restauração mereça fazer parte da nossa memória — e, com ela, o nome do general Sepúlveda. De que ninguém fala — o que é, no mínimo, lamentável. Mas já nos vamos habituando: não é um futebolista…
 João Aguiar

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

EXERCÍCIOS - Scraperboard

Pistia stratiotes
É um género botânico, pertencente à família Araceae.
Lápis de cor sobre Scraperboard 15X23cm

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

VIAGENS NA HISTÓRIA - 14


UM SIMPLES SOLDADO

Este mês, a nossa viagem na História leva-nos a França e ao ano de 1918. Foi, como se sabe, o último da I Guerra Mundial, mas não foi menos sangrento do que os anteriores.
Portugal entrara oficialmente no conflito, contra os impérios centrais, em 1916; porém, na Europa — pois que em África houvera já escaramuças com tropas alemãs —, o envio do Corpo Expedicionário Português (CEP) só se concretizaria em finais de Janeiro de 1917. Não vou aqui analisar a fundo os motivos que levaram o Governo português de então a fazer alinhar o país com um dos blocos beligerantes; regra geral, aponta-se como principal razão a necessidade de poder defender o império colonial, sobretudo Angola e Moçambique; pela minha parte, e embora não recusando a validade dessa perspectiva, suspeito que, a complementá-la, estaria o desejo da República, então ainda muito recente mas já precocemente debilitada, abalada por dissensões internas, por uma grave instabilidade e sérias provações económicas e financeiras, de encontrar uma forma de minimizar esses problemas contrapondo-lhes um projecto nacional, mobilizador, que concentrasse interesses e atenções.
Para o caso em apreço, isso não interessa, de resto. O «caso» em apreço é um só homem, um jovem camponês transmontano de vinte e dois anos, nascido em Valongo, concelho de Murça, a quem tinham vestido um uniforme e incorporado no Regimento de Infantaria 19, de Chaves. Chamava-se Aníbal Augusto Milhais; ficaria, porém, na História sob o nome de Soldado Milhões.
O rapaz embarcou para França a 23 de Maio de 1917. Não sabia, evidentemente, que embarcava para um destino histórico — e lendário, já que os relatos das suas proezas divergem em vários pontos. Do que não há dúvida é que Aníbal Milhais entrou na galeria dos heróis portugueses durante a batalha de La Lys, a 9 de Abril de 1918.
Com este nome designa-se o combate do primeiro dia da grande ofensiva alemã contra a 2ª Divisão do CEP, como parte da «Operação Georgette», lançada pelo 6º Exército alemão do general Ludendorff. Foi nesse combate que Milhais ganhou o seu nome de honra: a bravura que mostrou foi tal que o seu comandante, o major João Ferreira do Amaral, o abraçou e lhe disse: «Chamas-te Milhais, mas vales milhões!». E o «Milhões» ficou.
Três meses depois, em Julho, o Soldado Milhões tornava-se definitivamente célebre: no campo de Isberg, sozinho, empunhando a sua metralhadora Lewis, cobriu e protegeu a retirada dos seus camaradas portugueses e de soldados escoceses. Consta que se houve de tal forma que os alemães pensaram estarem a enfrentar toda uma unidade inimiga. Em consequência — coisa muito rara — recebeu a Torre e Espada no próprio campo de batalha, das mãos do general Gomes da Costa. A esta distinção seguir-se-ia a Cruz de Guerra, a Cruz de Leopoldo da Bélgica e muitas outras.
Nada disto impediu que mais tarde, em 1928, o herói emigrasse para o Brasil, para ver se conseguia sustentar os filhos: uma pátria agradecida NÃO velava por ele… porém, os portugueses residentes no Brasil abriram uma subscrição a seu favor, para que pudesse viver dignamente no seu país. E Milhões regressou a Portugal. Dedicou-se uma vez mais à lavoura, o seu ofício de sempre; e veio a falecer em 1970.
Teve honras militares; fizeram-lhe um monumento. Mas eu penso, humildemente, que é preciso algo mais: manter viva a sua memória. Não temos assim tantos como ele para nos darmos ao luxo de esquecer.
João Aguiar


sábado, 2 de fevereiro de 2013

VIAGENS NA HISTÓRIA - 13


O QUE FALTAVA DIZER

Não é a primeira vez que, nestas crónicas, abordo a revolução de 1383 – 1385. Aliás, a crónica do mês passado focava um assunto que lhe está muito próximo, isto é, a batalha dos Atoleiros. Ora, se volto à mesma época e a um tema já referido anteriormente, é por duas razões; primeira, nunca é demais recordar um facto tão importante e que tende a cair no esquecimento; 1383 deveria ser recordado, pelo menos, com o destaque dado ao 25 de Abril de 1974. Segunda razão: faltava ainda dizer-vos qualquer coisa — o significado europeu, e mesmo mundial, do que ocorreu durante aqueles dois anos dos finais do século XIV.
Às vezes, temos uma visão mais nítida do nosso país quando o olhamos com os olhos de um estrangeiro. É o que se passa neste caso em relação a um autor pouco conhecido, o francês Dominique Lelièvre, autor de um livro que passou quase desapercebido: «Mer et Révolution». A maior parte desta obra não nos traz propriamente novidades, mesmo porque, na sua maioria, as fontes são portuguesas (a começar pelo incomparável Fernão Lopes). Porém, ao introduzir o assunto do seu livro perante os leitores, o autor faz algumas considerações que, regra geral, os meus compatriotas (aqueles, bem poucos, que conhecem o assunto) nunca fazem, nem lhes entra sequer na cabeça.
É assim que Dominique Lelièvre faz notar que os portugueses «foram os únicos na Europa a conseguir com êxito, à escala de uma nação, uma “revolução burguesa” (1383 – 85)». E, mais adiante, acrescenta: «Se o caso de Portugal é único, não é por isso menos exemplar, tanto pela vitória conseguida pelas armas com uma táctica tipicamente “burguesa” já experimentada na Flandres perante os orgulhosos senhores franceses, como pelos avanços sociais, mesmo que estes hajam sido minimizados ao longo dos decénios seguintes. Desta “revolução burguesa”, cujo primeiro mérito é o seu êxito, nasce uma nova dinastia que levará Portugal ao firmamento dos países descobridores. Estes acontecimentos revolucionários mereciam ser conhecidos e reconhecidos».
Conhecidos e reconhecidos: é isso o que faz falta. Tanto a nível internacional como (em primeiro lugar) a nível nacional. Na Europa, o século XIV, tempo de transição, foi fértil em levantamentos populares, motins e revoltas. De todos esses tumultos, os mais conhecidos foram as «jacqueries», em França. As classes populares queriam libertar-se do jugo da nobreza, os burgueses queriam um lugar ao Sol. Mas, nesse século XIV, tais movimentos acabaram por ser todos esmagados; serviram de prelúdio à futura transformação e nada mais. Excepto em Portugal. Aí — ou melhor, aqui — a revolução venceu; e venceu (o que é muito importante) de um modo «operacional», isto é: foi possível encontrar um novo equilíbrio. De modo revolucionário, contra toda a tradição, elegeu-se um novo rei para que iniciasse uma nova dinastia. O povo reclamou ao Mestre de Avis que os ricos pagassem taxas, fintas e talhas, tal como os pobres pagavam. Os mesteirais passaram a estar representados no governo municipal de Lisboa e outras cidades. O conselho régio deixou de ser somente formado por nobres e membros do alto clero: os letrados falavam agora mais alto.
Não tenho espaço, evidentemente, para enumerar as mudanças trazidas pela revolução. O que importa, repito, é que, na ideia de um escritor não português, esta revolução é um caso único e exemplar.
O que é inteiramente correcto. Mas nós, os descendentes de toda aquela gente que fez a revolução de 83 – 85, teremos acaso uma opinião sobre o assunto? Saberemos, sequer, de que é que se trata?
É uma dúvida, no mínimo, angustiante.
João Aguiar