sábado, 3 de novembro de 2012

VIAGENS NA HISTÓRIA 03


JUSTA HOMENAGEM

Peço, como grande favor, que não me enviem para a fogueira, pelo menos antes de terem acabado de ler o presente texto — que é uma homenagem a um censor da Inquisição. Uma homenagem, proclamo eu, que é justa e merecida.
Passo a explicar: um belo dia, na década de 70 do século XVI, um frade dominicano, censor do famoso, temido e sinistro Santo Ofício, recebeu a tarefa de dar parecer sobre um livro que fora submetido àquele tribunal, para efeitos de eventual publicação. O livro consistia num longo poema, recheado de episódios eróticos, divindades pagãs, descrições de voluptuosos corpos femininos, contestações à situação político-social, lamentos sobre a decadência das classes dominantes. Continha, pois, matéria mais do que suficiente não só para ver recusada a licença de publicação como ainda para ser queimado, em prólogo ominoso do que poderia vir a acontecer ao seu autor.
E que fez o censor da Inquisição? Pegou beatamente na sua pena, aguçou-lhe a ponta, mergulhou-a no tinteiro e escreveu que, tendo lido aqueles versos, não achey nelles cousa algua escandalosa nem contrária â fe & bõs custumes. Mais ainda: referindo-se à presença constante dos deuses pagãos no tal poema — em que, a dada altura, Júpiter só por pouco não faz um filho a Vénus, em público —, ele comentou que isto he Poesia & fingimento (...) e por isso me pareceo o liuro de se imprimir. Incluía também no parecer um elogio ao grande engenho do escritor.
Os leitores já terão adivinhado do que se trata, mas não resisto a transcrever o início do texto inquisitorial: Vi por mandado da santa & geral inquisição estes dez Cantos dos Lusiadas de Luis de Camões, dos valerosos feitos em armas que os Portugueses fizerão em Asia & Europa...
Exactamente. O censor do Santo Ofício era Frei Bartolomeu Ferreira, o livro era Os Lusíadas, o autor Luís de Camões. E é preciso conhecer um pouco da mentalidade oficial da época para entender quão anormal, quão escandaloso foi o parecer dado pelo frade dominicano. E escandaloso, atente-se, não só para a época: um Camões do século XX veria certissimamente recusada a sua obra durante o período do Estado Novo.
Evidentemente, houve motivos para que tal acontecesse. António José Saraiva, na sua edição de Os Lusíadas, salienta-os: Camões era amigo e protegido do conde de Vimioso, que, além de ser um grande senhor, tinha valimento; lavrava uma guerra surda mas sem quartel entre os jesuítas, que dominavam a corte, e os dominicanos, que dominavam o Santo Ofício; estes contavam com o apoio da rainha viúva, Catarina de Áustria, já afastada do governo, porém ainda com alguma influência, e note-se que fora ela quem patrocinara a primeira edição das obras completas do também «perigoso» Gil Vicente. Houve, segundo as palavras de Saraiva, uma pequena conspiração visando levar ao prelo o poema épico de Camões — uma conspiração bem sucedida, como sabemos e como folgamos.
E veja-se como as posições, as ideias os valores, estavam baralhados naquele específico momento da nossa História. Os jesuítas tinham uma tradição de cultura e até de certa tolerância, mormente na sua actuação em terras do Oriente e particularmente na China; os dominicanos, nesse domínio, haviam-se mostrado bem mais literalistas e rigorosos — além de terem a Inquisição nas mãos. No entanto, foi graças a eles, em especial a Frei Bartolomeu Ferreira, que o mais genial texto português foi publicado.
Fossem quais fossem os motivos, estou-lhes muito grato.
João Aguiar
Os Lusíadas na calçada portuguesa. Jardim de Camões - MACAU

terça-feira, 30 de outubro de 2012

VIAGENS NA HISTÓRIA


A FRAUDE HONESTA

O destino desta viagem é Alcobaça; a sua época, o século XVII. Entremos sub-repticiamente no cartório do mosteiro e observemos aquele monge, além, muito ocupado a escrever. Não sabemos — ninguém sabe — quem ele é, mas, aqui para nós, está a fazer algo de muito importante: em pleno século XVII, escreve a cópia de um original do século XII. E, o que é ainda mais importante: como esse original nunca existiu, o monge está a inventá-lo. Assim, graças a esta esclarecida acção, vão entrar na História as Cortes de Lamego.
Façamos o enquadramento. Em 1632, ou seja, a época final da dominação filipina, Frei António Brandão publicou o terceiro volume da obra Monarquia Lusitana e nele incluiu, com uma advertência sobre a sua duvidosa credibilidade, um documento que seria a cópia tardia das actas de umas cortes que se teriam realizado em Lamego, em data posterior à da batalha de Ourique, para proceder à coroação solene de D. Afonso Henriques e estabelecer uma lei fundamental para o novo reino português. Para aqueles que em 1632 ansiavam pela restauração da independência e sonhavam já fazer da casa ducal de Bragança a nova dinastia real portuguesa, as decisões dessas cortes, sobre as quais, até então, ninguém ouvira ou lera uma só palavra, eram uma bênção caída do Céu: os princípios da sucessão no trono nelas consagrados tornavam virtualmente ilegítima a realeza dos Filipes em Portugal, tanto mais que, entre outros elementos importantes, impunham claramente a noção de que nenhum príncipe estrangeiro poderia reinar sobre os Portugueses; e, para completar o quadro, sustentava-se também um outro princípio: o da legitimidade da revolta popular contra o soberano que não respeitasse as liberdades, garantias e compromissos consignados naquelas actas.
Deste modo, discretamente, por vias de um documento cuja autenticidade não era assegurada mas que, apesar disso, se publicava, ficavam lançadas as bases jurídicas para um levantamento contra a dinastia que reinava a partir de Madrid. E isto não caiu em saco roto: oito anos mais tarde, a Restauração de 1640 tomaria as actas das Cortes de Lamego como uma das principais bases jurídicas e políticas da legitimidade e legalidade não só do movimento do 1º de Dezembro como da nova dinastia de Bragança.
Todos os historiadores actuais vos dirão, com inteira propriedade, que as Cortes de Lamego não existiram e que, portanto, as suas actas são falsas. Não tanto pelo facto de não haver outros documentos coevos a corroborá-las, o que já é significativo, mas enfim, poderiam ter-se perdido; mas porque um acontecimento tão importante seria fatalmente citado em diplomas posteriores e, sobretudo, porque as actas contêm erros e anacronismos graves.
E, no entanto, a fraude acaba por revelar-se menos... fraudulenta do que possa parecer. Ao reunir, um pouco desajeitadamente, os elementos que usou, o seu desconhecido autor coligiu, afinal, os princípios mais importantes daquilo a que podemos chamar o direito público português, contidos em capítulos de outras cortes realizadas sob as duas primeiras dinastias (e verdadeiras, essas), em testamentos reais, que eram também fontes de direito, e ainda no costume, que tinha, na época, uma força jurídica importante. Para dar apenas um exemplo, o preceito estabelecendo que um príncipe estrangeiro não podia reinar em Portugal fora estabelecido, por via revolucionária, em 1383 – 85 e fora ele que colocara D. João I no trono. Deste modo, as actas de Lamego, embora inventadas, não eram uma pura invenção...
Por isso, deixemos aquele monge, além, trabalhar calmamente e regressemos, nos bicos dos pés, ao século XXI, sem o perturbarmos no seu labor.
 João Aguiar
Vitrais do Mosteiro da Batalha

sábado, 27 de outubro de 2012

VIAGENS NA HISTÓRIA


ANTES DO PRINCÍPIO

Estas «Viagens na História» realizam-se, como o seu próprio nome indica, no espaço e no tempo. E a primeira para a qual vos convido é ao Minho, no século XI. Nessa época, ainda D. Afonso Henriques não tinha nascido nem chegara à Península o quarto filho do duque de Borgonha, um brilhante cavaleiro chamado Henrique.
Havia já uma terra portucalense, então sujeita ao rei da Galiza — Garcia, filho de Fernando I de Leão e Castela e que, por morte deste, herdara aqueles dois territórios. Porém, segundo um cronista, a maior parte desse Portugal primitivo reconhecia como senhor um vassalo de Garcia, o conde Nuno Mendes, e este revoltou-se contra o rei, chefiando, assim, um movimento de emancipação. Tentativa malograda, aliás: numa batalha travada em 1071, entre os rios Cávado e Ave, as tropas do conde foram derrotadas por Garcia e o próprio Nuno Mendes morreu em combate — diga-se, a propósito, que o vencedor também não viria a ter muita sorte, pois acabou os seus dias no cativeiro, aí colocado pelo próprio irmão, Afonso VI, o avô materno de Afonso Henriques.
Mas voltemos ao conde Nuno Mendes. Alguns historiadores consideram que a sua rebelião não teve um significado profundo — seria apenas um dos muitos sobressaltos políticos em que a época era fértil —, enquanto outros sustentam que se tratava já de uma manifestação da vontade portuguesa de afirmar a independência (note-se que, por «vontade portuguesa», temos de entender a vontade dos nobres e, eventualmente, de uma parte do alto clero; o povo, como entidade política, não existia então). Entretanto, se a Crónica dos Godos não mente e os factos ocorreram, resta que este episódio é, de qualquer forma, como que um prelúdio, ainda que relativamente longínquo, à fundação do reino de Portugal e mereceria talvez ficar na nossa memória; julgo, no entanto, que o bom povo português, que sabe na ponta da língua quem é Deco e quanto Luís Figo ganha por mês, está olimpicamente em branco no que se refere a Nuno Mendes, a menos que exista um jogador de futebol com esse nome, coisa que, confesso o meu grave pecado, ignoro.
Mesmo entre aqueles que sentem algum interesse pelas nossas raízes, esta personagem é largamente desconhecida. Em compensação, toda a gente (mais ou menos) sabe (mais ou menos) quem foi Viriato e considera-o como um antepassado quase directo, noção nebulosa que contém algum exagero. Sem dúvida, é uma figura interessante — nem me conviria dizer o contrário, já que escrevi um romance sobre a sua vida; sem dúvida, também, a história do chefe lusitano faz parte do nosso legado. Em todo o caso, não deixa de ser curioso que tantos autores portugueses, antigos e modernos, se hajam debruçado avidamente sobre Viriato, que viveu no século II antes de Cristo, bem longe no tempo da formação da nacionalidade, e poucos tenham sido aqueles que se interessaram pelo conde Nuno Mendes, que viveu no século XI depois de Cristo e morreu menos de cem anos antes da batalha de S. Mamede, a «primeira tarde portuguesa», como já lhe chamaram.
Aliás, quando nós pensamos no nosso passado remoto — o que, vamos lá, não acontece muitas vezes —, as imagens que nos surgem são: Viriato, depois, num grande salto, D. Afonso Henriques desrespeitando a senhora sua mãe (e não foi bem assim...) e por fim a luta contra os Mouros. O quadro é, confessemos, um bocado desértico.
Por isso, aqui fica, nesta viagem ao Minho do século XI, esta recomendação do guia: «À vossa direita, entre o Ave e o Cávado, podem ver o conde portucalense Nuno Mendes a combater contra Garcia, rei da Galiza. Vai ser trucidado, mas que fique a lembrança».
João Aguiar

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

PEQUENOS TEXTOS


TRÊS PALAVRAS SOBRE WOLFGANG AMADEUS
Primeira — Comecei, não sei porquê, a gostar da chamada «música clássica» aí por volta dos meus onze anos. Aos quinze, sobre tal matéria, eu tinha — como é costume ter nessa idade — uma opinião perfeitamente clara, definida, intransigente e imutável. A história da música dividia-se em «Antes de Richard Wagner» e «Depois de Richard Wagner»; e Wagner era o único compositor inteiramente digno desse nome, o génio único e absoluto. Quanto a Mozart, o meu juízo estava também definido: Mozart era um chato.
O que se passa, com os quinze anos, é que muito brevemente se transformam em dezasseis e dezassete e por aí fora; e, ao mesmo tempo que a acne juvenil vai desaparecendo, desaparecem também as certezas claras, definidas e imutáveis. Portanto, e quase sem dar por isso, entrei num processo de maturação e assimilação musical que, sem abandonar Wagner, me levou para Richard Strauss, depois me fez saltar para Stravinsky e logo a seguir, algo inesperadamente, para os italianos, de Rossini a Pizzetti. Foi só então que me virei para o século XVIII e descobri o Vivaldi das «Quatro Estações» e, mais tarde, os portugueses — e por essa altura já eu me havia dado conta, finalmente, de que começara a gostar muito de Mozart. Levei tempo, mas cheguei lá.
O que, a meu ver, mostra duas coisas: primeira, o carácter caótico e inteiramente amador da minha cultura musical, que é uma simples manta de retalhos cosida ao sabor da simples e deseducada sensibilidade; segunda, o facto de Mozart ter sido, para mim, um «prémio de maturidade». Foi-me preciso perder, não a acne exterior mas a interior, para chegar até ele. E, quando cheguei, compreendi não só que valera bem a pena mas ainda que teria sido uma catástrofe pessoal eu ter ficado na fase do «Mozart é um chato», impermeável e insensível à sua música.

Segunda — De certo modo, o que hoje mais me impressiona e atrai em Mozart é — por paradoxal que pareça — aquilo que nos separa. Eu precisei de longos anos de maturação para chegar a entender a sua música; ele nasceu quase como a deusa Atena, que brotou de Zeus já crescida, vestida e armada, pronta para a luta. A precocidade de Mozart deixa-nos atordoados: aos cinco anos compunha minuetes, aos onze cantatas completas, aos doze compunha óperas, aos catorze compôs o «Mitridate, Re di Ponto». Como foi possível? Não basta responder: era um génio. A interrogação mantém-se: como foi possível?
Só à custa de um profundo desequilíbrio. E, ainda assim, esta violência íntima que é ser capaz de compor uma ópera completa aos catorze anos tem, necessária e fatalmente, de ser paga em trauma em desgaste. Sim, fica-se com a sensação de que «algo», nele, tinha de rebentar…
E rebentou, como sabemos. A sua desordem pessoal é o sinal e a prova. E não podemos admirar-nos com a sua morte aos trinta e cinco anos: Mozart esgotou, nesses trinta e cinco anos, toda a energia, toda sua força vital de um século inteiro. O que mais lhe restaria fazer neste mundo?

Terceiro — Genialidade, precocidade, ambas levadas até ao (ou mesmo além do) ponto-limite possível e concebível. Mas também atordoa nele a modernidade.
Não sou músico, nem sei música. Isto poderá ser lamentável, porém não impeditivo: tal como sou, basta-me ouvir o «Requiem» ou a cantata maçónica «Dir, Seele des Weltalls, o Sonne» ou ainda a ária «Fra l’oscure ombre funeste», do «Davidde penitente», para perguntar-me, sem esperança de resposta: «Mas esta é mesmo música do século XVIII?». E menciono somente estes três exemplos.
Dito isto, não encontro nada mais para dizer. Há temas para os quais as palavras não chegam: torna-se necessária a música…

João Aguiar

Lugar dos Moinhos - Ponte de Lima

domingo, 30 de setembro de 2012

PEQUENOS TEXTOS


O fundamentalismo anti-tabagista

Este não é um texto poético destinado a cantar a mística do tabaco. Não sou, aliás, um fundamentalista do tabaco - tanto assim, que já passei períodos de dois ou mais anos sem fumar. E se atingisse uma permanente paz interior, um permanente estar-bem comigo próprio e com o mundo, talvez abandonasse outra vez o fumo.
Talvez, mas não é certo. Porque me parece evidente que hoje em dia o fundamentalismo anti-tabagista é um perigo que deve, que tem de ser combatido por todos os meios, incluindo, se necessário, a militância, pois nessa luta joga-se a liberdade, a inteligência e o bom senso da espécie humana. Não acreditam? Esperem até que Portugal passe a macaquear o Estrangeiro (essa misteriosa entidade) também neste domínio; nessa altura, quando a Polícia lhes entrar em casa porque o vizinho de cima se queixou de que, ao passar na escada, aspirou o fumo de um cigarro invisível e prevaricador, voltaremos a falar.
Portanto, é bem possível que, mesmo tendo eu atingido aquele estado de iluminação e de serenidade que dispensa qualquer apoio porque nele se desconhecem tensões ou angústias, é bem possível, repito, que conserve os meus cachimbos em uso. Civilizadamente, continuarei a abster-me de os acender naqueles locais onde o senso comum e a educação me dizem que posso incomodar seriamente o meu próximo. Mas continuarei a fumar fora desses locais, por solidariedade para com as vítimas do novo sistema ditatorial que se adivinha no horizonte.
Já estão, implicitamente, apontadas as principais razões que me levam a fumar.
Aqueles que pensam que, por exemplo, quem vive da escrita há-de ser uma pessoa serena e contente, por ter uma profissão coincidente com a sua vocação, são os mesmos que acham que o local de trabalho ideal para um escritor é em plena natureza, ouvindo pipilar os passarinhos e todos esses lugares-comuns super-estafados. Ou seja, são aqueles que não fazem a mínima ideia do que é o trabalho da escrita e por conseguinte ignoram tudo sobre as tensões internas que ele é capaz de provocar. Eu, que vos escrevo neste momento estas simples palavras, tenho o cachimbo apertado entre os dentes para ver se consigo alinhar, com um mínimo de harmonia e de gramática, tudo aquilo em que estou a pensar.
É mau para a saúde? Admito. Desde que nascemos, nós começamos a prejudicar a nossa saúde. Amar prejudica a saúde, cria ansiedades péssimas para o ritmo cardíaco e a tensão arterial. Comer é perigosíssimo, não sei se sabem. Beber, nem se fala - mesmo a água já não é o que era. Vestir uma camisa é um risco. Sair à rua é temeridade e ficar em casa é inconsciência pura. Por outro lado - o provérbio é conhecido e não fui eu que o inventei -, tudo aquilo que dá prazer e nos consola da experiência traumatizante que é a vida, ou faz mal à saúde ou é pecado. Muitas dessas coisas acumulam os inconvenientes: fazem mal e são pecados.
Por isso, humildemente, eu me assumo como pecador. Mas tenho como única droga - não direi como único pecado - o tabaco. Podia ser pior, não?
Bem sei: prejudico o meu semelhante. Pelo menos, é o que dizem as campanhas e os médicos.
Acontece, porém, que o meu semelhante, mesmo aquele que não fuma, faz gala em prejudicar-me. E eu, que faço?
Vou dizer-lhes: sofro em silêncio.
Até se descobrir que o futebol provoca o cancro, terei de suportar os grandes rituais da nova religião - e só o espectáculo da saída de um templo, perdão, de um estádio, me causa calafrios. Mas sofro esse prejuízo em silêncio, porque vivo em sociedade.
Até se descobrir que a música do Marco Paulo deteriora a vista e as funções renais, eu terei de a ouvir, excepto em minha casa. No entanto, não me passa pela cabeça lançar uma campanha. Sofro o prejuízo em silêncio, porque vivo em sociedade.
Até se descobrir que as actuais programações televisivas estão na origem do declínio da espécie, além de provocarem a cárie, eu terei de as suportar. No entanto, a única coisa que faço é desligar o meu receptor, sem que me passe pela cabeça desligar os receptores alheios. Sofro o prejuízo em silêncio, porque vivo em sociedade.
Todos nós, vivendo em sociedade, sofremos mais ou menos em silêncio. Excepto os fundamentalistas do anti-tabagismo.
Entretanto, vou confessar-lhes, o cachimbo é, para mim, mais do que um meio de acalmar tensões. Ele tem sido, muitas vezes, uma defesa contra os prejuízos sofridos em silêncio.
Quando estou num cocktail ou reunião social afim, e quero ir-me embora mas ainda não é decente, e vejo-me encalhado contra uma mesa sem saber o que hei-de fazer nem o que dizer, sobretudo porque alguém acabou de perguntar-me algo sobre o último discurso do primeiro-ministro e eu esqueci-me de ler o jornal.
Ou quando, para voltar a assunto já mencionado, a conversa à minha volta aborda temas religiosos, como a eleição do dr. Santana Lopes para o sólio pontifical do Sporting.
Ou quando apanho um engarrafamento.
Ou quando...
Enfim: nessas e noutras ocasiões, em vez de morder o meu próximo, eu mordo o meu cachimbo.
São raros os meus cachimbos que têm a boquilha inteira.
Já se vê, por aqui, a sua utilidade cívica.
João Aguiar


sábado, 1 de setembro de 2012

PEQUENOS TEXTOS - Pranchas VII


Que Maçonaria?
Venerável Mestre, queridos Irmãos: não dei um título formal a esta prancha, mas ele poderia ser: «Que Maçonaria?». E acrescento: que Maçonaria queremos nós praticar, afinal?
O texto presente é o resultado de uma simples e humilde reflexão baseada essencialmente em dois elementos: o primeiro é uma conversa havida há tempos com o nosso irmão F. S.; o segundo é a leitura, que faço presentemente, da obra de Oswald Wirth La Franc-Maçonnerie rendue intelligible à ses adeptes, com especial referência ao primeiro volume, consagrado ao Aprendiz.
Em relação à conversa com o Irmão F. S., o que tenho a relatar diz respeito à Respeitável Loja «Prince Henry the Navigator», que reúne essencialmente irmãos estrangeiros, julgo que, na sua maioria, de nacionalidade inglesa; como muitos Irmãos sabem, essa Loja, do Rito Emulação, tem as suas sessões no Algarve.
O nosso irmão F. S., que tem assistido a algumas dessas sessões, fez sobre elas algumas observações que achei interessantes. Contou ele que o ritual é executado da forma mais exacta e rigorosa que se possa imaginar, mesmo porque todos os intervenientes conhecem de cor as palavras que hão-de proferir e os gestos que lhes compete fazer. Sob este aspecto, disse ele, as sessões da «Prince Henry the Navigator» são verdadeiramente exemplares. Em contrapartida, toda a participação dos irmãos parece, digamos assim, esgotar-se na execução do ritual. Nada mais existe para além dele — excepto o ágape partilhado após a sessão, o qual é, digamos assim também, muito animado.
Por uma razão qualquer, que não irei tentar definir, guardei esta informação na memória. E foi com algum interesse que verifiquei, há muito pouco tempo, ao fazer a leitura do primeiro volume da já citada obra de Oswald Wirth, que aquilo que o irmão F. S. me contou se verificava já na Maçonaria inglesa em finais do século XIX e princípios do século XX. Com efeito, o volume de Wirth sobre o Aprendiz teve a sua primeira edição em 1894 e uma segunda edição revista e aumentada em 1908. Ora, a dado passo do livro, o autor refere-se ao «Trabalho maçónico segundo a concepção inglesa» e diz o seguinte:
«Os maçons ingleses nunca sentiram a necessidade de imprimir aos seus trabalhos um carácter particularmente filosófico. Receariam que, promovendo discussões no seio das Lojas, estariam a infringir esse espírito de fraternidade que a Maçonaria tem a missão essencial de propagar e manter. Sempre acreditaram que era preciso contentar-se, em loja, com a prática do ritual e nada mais». Alguns parágrafos adiante, Wirth prossegue: «Como, no entanto, se trata de uma ocupação monótona, muitas vezes fastidiosa e sempre bastante árida (estou a citar Wirth sem, neste caso, concordar com ele), desforram-se sempre com um festim, que consideram merecido. Enquanto se procede às cerimónias rituais, é observada a mais perfeita disciplina (…). Mas quando os obreiros são chamados a passar do labor à comida e à bebida, (…) e que os trabalhos são retomados sob uma outra forma em torno da mesa de banquete, então desaparecem os constrangimentos, estabelece-se entre os convivas a mais franca convivência e é de copo na mão que a fraternidade se mostra verdadeiramente expansiva».
A esta citação, deixem que acrescente da minha lavra: este copo na mão e esta expansão têm conhecido alguns exageros. De resto, o próprio Wirth aponta esses abusos, e não somente no que se refere à Inglaterra. Mas faz mais: já no terceiro volume da obra, consagrado ao grau de Mestre, ele estabelece, de certo modo, uma comparação com a Maçonaria francesa, que, para facilitar, poderemos, grosso modo, tomar como representando a Maçonaria do continente europeu, especialmente a dos países latinos; e fala então da elaboração de rituais, da alteração e actualização de rituais, dos debates filosóficos; ou seja, de uma busca constante de aperfeiçoamento.
Devo, neste ponto, fazer um parêntesis para considerar, ainda que muito brevemente, o próprio Oswald Wirth para dizer que ele foi, sem dúvida, um grande autor maçon, mas que não pode ser aceite em bloco — o que, de resto, ele não exigia nem queria, bem pelo contrário. Além disso, tanto quanto sei e tanto quanto posso julgar por esta sua obra — uma das mais importantes que deixou —, Wirth não foi aquilo a que podemos chamar um maçon regular. O que não diminui os seus méritos nem a profundidade e vastidão dos seus conhecimentos, mas deve, ainda assim, ser tomado em conta.
Retomando e simplificando um pouco, julgo não estar errado ao dizer que nos encontramos perante dois modelos distintos de Maçonaria — sempre reconhecendo, como é evidente, os pontos comuns: um modelo, de fundo anglo-saxão, que é essencialmente ritualista e conservador; e outro modelo, a que poderemos chamar «latino», que é essencialmente especulativo e maleável. Repito que estou a simplificar, porém atrevo-me a dizer que nas suas linhas gerais esta ideia está correcta, ou assim me parece.
Cada modelo tem as suas virtudes. No que se refere ao ritualismo, é-nos explicado, na nossa obediência regular, que o rito possui virtualidades próprias, que nunca é vazio, pois que actua sobre os participantes, provoca em cada um deles uma transformação interior. O rito, dizem-nos, quando correctamente praticado, é capaz de nos conduzir à verdadeira iniciação, levar-nos até àquele conhecimento que não se encontra em livro algum porque é apenas intuído e sentido intimamente e não pode ser expresso por palavras: em suma, o real segredo maçónico. E o próprio Oswald Wirth, que não esconde, naturalmente, a sua preferência pela Maçonaria francesa, reconhece (cito agora o livro do Mestre) que «nenhum rito é desprovido de valor. Mesmo cumprido maquinalmente, o acto ritual tem a sua eficácia».
Paralelamente, o modelo especulativo, aberto à discussão filosófica e a uma maior maleabilidade de acção, mostra-se, afinal, fiel às nossas origens, pois não esqueçamos que a Maçonaria passou, justamente, de operativa a especulativa e também que, numa perspectiva histórica, enquanto se pode ainda falar de Maçonaria operativa, esta já comporta um cunho especulativo e já integra maçons «aceites», não ligados ao ofício de construtor. Por outro lado, os ritos, ou antes, os rituais, não podem manter-se rigorosamente imutáveis, até porque, ao longo dos tempos, foram colhendo elementos que porventura não teriam real valor iniciático, ou deixaram de corresponder às condições e necessidades da época. Na minha modestíssima opinião, um exemplo flagrante destes dois vícios é o do ágape ritual, tal como se nos apresenta hoje, pelo menos no R\E\A\A\
Os dois modelos têm, pois, sem qualquer dúvida, importantes qualidades positivas. Mas, não sendo a perfeição uma coisa deste mundo, comportam também alguns riscos.
Assim, no caso do modelo a que chamei anglo-saxão, corre-se o perigo de se chegar a um completo monolitismo, a um completo imobilismo, a uma rotina árida e estéril. Acrescento que, neste modelo, o ágape, ritual ou não, deixou de ser a continuação dos trabalhos em ambiente diverso, como seria desejável, para se tornar em algo que é, afinal, muito profano em espírito — mesmo quando se trata de um ágape ritual. Perdoem-me, irmãos, a crueza das palavras, mas é difícil evitar a… «profanação» no final da sétima saúde feita com vinho.
Por outro lado, o ritualismo puro e duro durante a sessão, sem que haja preocupações filosóficas ou espirituais, não cria defesa alguma contra a criação de um «espírito de lobby» que é a deformação da fraternidade e da entreajuda. E não se julgue, de facto, que a Maçonaria inglesa está imune a este risco. Leia-se Foster Bailey e Wilmshurst[1] a este propósito. E acrescento que, por via profana mas de confiança, tive já informações sobre esta realidade.
Quanto ao segundo modelo, em que se integra historicamente a Maçonaria portuguesa, ele tem sido fértil em cisões, desvios, e levou mesmo a uma completa desvirtuação e negação dos mais elementares princípios maçónicos, como foi o caso das proclamações de ateísmo, da eliminação das menções ao G\A\D\U\ e da retirada da Bíblia, ou qualquer livro da Lei Sagrada, do altar do templo. E também não foi possível evitar a criação de lobbies, quer políticos, quer económicos.
Numa perspectiva realista, havemos de aceitar que todos estes desvios, em ambos os modelos que defini, eram e são parte da falível natureza humana. Em Maçonaria, só podem ser evitados com um extremo cuidado na selecção de candidatos, com uma vontade permanentemente desperta, uma vigilância constante sobre nós próprios e uma fidelidade sempre renovada aos nossos grandes princípios. O que constitui todo um programa, cuja execução está longe de ser fácil.
Entretanto, coloca-se-nos, a nós, uma primeira questão: que modelo deveremos tentar seguir, hoje, que torne mais exequível a concretização desse programa e fazer com que ele nos ajude a cumprir os objectivos maçónicos?
Corremos um grande risco: o de recolhermos o pior das duas concepções. O que nos levará, ou levaria, a uma rotina ritual, talvez não muito rigorosa, e a um resvalar da loja para um clube de amigos, uma tertúlia recreativa em que as pessoas se reúnem para fazer uns passes apressados antes de irem cear e ver o futebol, enquanto falam de negócios ou fazem um pouco de má língua social ou combinam mais uma cisão, ao sabor de lutas por uma qualquer preeminência, aliás ilusória.
Julgo, como é natural, que o esforço a fazer deverá tender para reunir o melhor, e não o pior, dos dois modelos citados. Isto é: cumprir o ritual com todo o rigor possível; mas vivê-lo, também — já o disse, não concordo com Wirth quando ele fala em monotonia; porém, concordo com ele quando afirma que um ritual nunca é desprovido de valor, nunca é inútil.  Sobretudo, desde que seja vivido.
Ao mesmo tempo, julgo que não deveremos contentar-nos com o ritual. Dentro da disciplina da regularidade, temos um vasto campo para debate, troca de ideias e de informações, pesquisa, investigação e meditação, quer individual quer colectiva. Acima de tudo, não podemos esquecer que somos uma ordem iniciática. Nem que aquilo a que se chama a egrégora da Loja não é — proponho-vos esta reflexão — não é uma abstracção intelectual, mas uma realidade, tal como os teósofos modernos a entendem, ou muito semelhante à concepção que eles defendem. Ora, essa egrégora, essa entidade, tem de ser permanentemente mantida, cuidada e melhorada.
Para sintetizar, direi que, em meu humilde entender, esta loja, ou antes: qualquer loja, deve operar especulativamente, reunindo assim, afinal, os dois ramos tradicionais da Maçonaria.
Disse, V\M\
João Aguiar M\M\
9/10/2006
Natureza Morta - Óleo sobre tela 70X70
[1] Foster Bailey: O Espírito da Maçonaria, Hugin, Lisboa; W. L. Wilmshurst: Maçonaria, Prefácio, Lisboa.