domingo, 30 de setembro de 2012

PEQUENOS TEXTOS


O fundamentalismo anti-tabagista

Este não é um texto poético destinado a cantar a mística do tabaco. Não sou, aliás, um fundamentalista do tabaco - tanto assim, que já passei períodos de dois ou mais anos sem fumar. E se atingisse uma permanente paz interior, um permanente estar-bem comigo próprio e com o mundo, talvez abandonasse outra vez o fumo.
Talvez, mas não é certo. Porque me parece evidente que hoje em dia o fundamentalismo anti-tabagista é um perigo que deve, que tem de ser combatido por todos os meios, incluindo, se necessário, a militância, pois nessa luta joga-se a liberdade, a inteligência e o bom senso da espécie humana. Não acreditam? Esperem até que Portugal passe a macaquear o Estrangeiro (essa misteriosa entidade) também neste domínio; nessa altura, quando a Polícia lhes entrar em casa porque o vizinho de cima se queixou de que, ao passar na escada, aspirou o fumo de um cigarro invisível e prevaricador, voltaremos a falar.
Portanto, é bem possível que, mesmo tendo eu atingido aquele estado de iluminação e de serenidade que dispensa qualquer apoio porque nele se desconhecem tensões ou angústias, é bem possível, repito, que conserve os meus cachimbos em uso. Civilizadamente, continuarei a abster-me de os acender naqueles locais onde o senso comum e a educação me dizem que posso incomodar seriamente o meu próximo. Mas continuarei a fumar fora desses locais, por solidariedade para com as vítimas do novo sistema ditatorial que se adivinha no horizonte.
Já estão, implicitamente, apontadas as principais razões que me levam a fumar.
Aqueles que pensam que, por exemplo, quem vive da escrita há-de ser uma pessoa serena e contente, por ter uma profissão coincidente com a sua vocação, são os mesmos que acham que o local de trabalho ideal para um escritor é em plena natureza, ouvindo pipilar os passarinhos e todos esses lugares-comuns super-estafados. Ou seja, são aqueles que não fazem a mínima ideia do que é o trabalho da escrita e por conseguinte ignoram tudo sobre as tensões internas que ele é capaz de provocar. Eu, que vos escrevo neste momento estas simples palavras, tenho o cachimbo apertado entre os dentes para ver se consigo alinhar, com um mínimo de harmonia e de gramática, tudo aquilo em que estou a pensar.
É mau para a saúde? Admito. Desde que nascemos, nós começamos a prejudicar a nossa saúde. Amar prejudica a saúde, cria ansiedades péssimas para o ritmo cardíaco e a tensão arterial. Comer é perigosíssimo, não sei se sabem. Beber, nem se fala - mesmo a água já não é o que era. Vestir uma camisa é um risco. Sair à rua é temeridade e ficar em casa é inconsciência pura. Por outro lado - o provérbio é conhecido e não fui eu que o inventei -, tudo aquilo que dá prazer e nos consola da experiência traumatizante que é a vida, ou faz mal à saúde ou é pecado. Muitas dessas coisas acumulam os inconvenientes: fazem mal e são pecados.
Por isso, humildemente, eu me assumo como pecador. Mas tenho como única droga - não direi como único pecado - o tabaco. Podia ser pior, não?
Bem sei: prejudico o meu semelhante. Pelo menos, é o que dizem as campanhas e os médicos.
Acontece, porém, que o meu semelhante, mesmo aquele que não fuma, faz gala em prejudicar-me. E eu, que faço?
Vou dizer-lhes: sofro em silêncio.
Até se descobrir que o futebol provoca o cancro, terei de suportar os grandes rituais da nova religião - e só o espectáculo da saída de um templo, perdão, de um estádio, me causa calafrios. Mas sofro esse prejuízo em silêncio, porque vivo em sociedade.
Até se descobrir que a música do Marco Paulo deteriora a vista e as funções renais, eu terei de a ouvir, excepto em minha casa. No entanto, não me passa pela cabeça lançar uma campanha. Sofro o prejuízo em silêncio, porque vivo em sociedade.
Até se descobrir que as actuais programações televisivas estão na origem do declínio da espécie, além de provocarem a cárie, eu terei de as suportar. No entanto, a única coisa que faço é desligar o meu receptor, sem que me passe pela cabeça desligar os receptores alheios. Sofro o prejuízo em silêncio, porque vivo em sociedade.
Todos nós, vivendo em sociedade, sofremos mais ou menos em silêncio. Excepto os fundamentalistas do anti-tabagismo.
Entretanto, vou confessar-lhes, o cachimbo é, para mim, mais do que um meio de acalmar tensões. Ele tem sido, muitas vezes, uma defesa contra os prejuízos sofridos em silêncio.
Quando estou num cocktail ou reunião social afim, e quero ir-me embora mas ainda não é decente, e vejo-me encalhado contra uma mesa sem saber o que hei-de fazer nem o que dizer, sobretudo porque alguém acabou de perguntar-me algo sobre o último discurso do primeiro-ministro e eu esqueci-me de ler o jornal.
Ou quando, para voltar a assunto já mencionado, a conversa à minha volta aborda temas religiosos, como a eleição do dr. Santana Lopes para o sólio pontifical do Sporting.
Ou quando apanho um engarrafamento.
Ou quando...
Enfim: nessas e noutras ocasiões, em vez de morder o meu próximo, eu mordo o meu cachimbo.
São raros os meus cachimbos que têm a boquilha inteira.
Já se vê, por aqui, a sua utilidade cívica.
João Aguiar


sábado, 1 de setembro de 2012

PEQUENOS TEXTOS - Pranchas VII


Que Maçonaria?
Venerável Mestre, queridos Irmãos: não dei um título formal a esta prancha, mas ele poderia ser: «Que Maçonaria?». E acrescento: que Maçonaria queremos nós praticar, afinal?
O texto presente é o resultado de uma simples e humilde reflexão baseada essencialmente em dois elementos: o primeiro é uma conversa havida há tempos com o nosso irmão F. S.; o segundo é a leitura, que faço presentemente, da obra de Oswald Wirth La Franc-Maçonnerie rendue intelligible à ses adeptes, com especial referência ao primeiro volume, consagrado ao Aprendiz.
Em relação à conversa com o Irmão F. S., o que tenho a relatar diz respeito à Respeitável Loja «Prince Henry the Navigator», que reúne essencialmente irmãos estrangeiros, julgo que, na sua maioria, de nacionalidade inglesa; como muitos Irmãos sabem, essa Loja, do Rito Emulação, tem as suas sessões no Algarve.
O nosso irmão F. S., que tem assistido a algumas dessas sessões, fez sobre elas algumas observações que achei interessantes. Contou ele que o ritual é executado da forma mais exacta e rigorosa que se possa imaginar, mesmo porque todos os intervenientes conhecem de cor as palavras que hão-de proferir e os gestos que lhes compete fazer. Sob este aspecto, disse ele, as sessões da «Prince Henry the Navigator» são verdadeiramente exemplares. Em contrapartida, toda a participação dos irmãos parece, digamos assim, esgotar-se na execução do ritual. Nada mais existe para além dele — excepto o ágape partilhado após a sessão, o qual é, digamos assim também, muito animado.
Por uma razão qualquer, que não irei tentar definir, guardei esta informação na memória. E foi com algum interesse que verifiquei, há muito pouco tempo, ao fazer a leitura do primeiro volume da já citada obra de Oswald Wirth, que aquilo que o irmão F. S. me contou se verificava já na Maçonaria inglesa em finais do século XIX e princípios do século XX. Com efeito, o volume de Wirth sobre o Aprendiz teve a sua primeira edição em 1894 e uma segunda edição revista e aumentada em 1908. Ora, a dado passo do livro, o autor refere-se ao «Trabalho maçónico segundo a concepção inglesa» e diz o seguinte:
«Os maçons ingleses nunca sentiram a necessidade de imprimir aos seus trabalhos um carácter particularmente filosófico. Receariam que, promovendo discussões no seio das Lojas, estariam a infringir esse espírito de fraternidade que a Maçonaria tem a missão essencial de propagar e manter. Sempre acreditaram que era preciso contentar-se, em loja, com a prática do ritual e nada mais». Alguns parágrafos adiante, Wirth prossegue: «Como, no entanto, se trata de uma ocupação monótona, muitas vezes fastidiosa e sempre bastante árida (estou a citar Wirth sem, neste caso, concordar com ele), desforram-se sempre com um festim, que consideram merecido. Enquanto se procede às cerimónias rituais, é observada a mais perfeita disciplina (…). Mas quando os obreiros são chamados a passar do labor à comida e à bebida, (…) e que os trabalhos são retomados sob uma outra forma em torno da mesa de banquete, então desaparecem os constrangimentos, estabelece-se entre os convivas a mais franca convivência e é de copo na mão que a fraternidade se mostra verdadeiramente expansiva».
A esta citação, deixem que acrescente da minha lavra: este copo na mão e esta expansão têm conhecido alguns exageros. De resto, o próprio Wirth aponta esses abusos, e não somente no que se refere à Inglaterra. Mas faz mais: já no terceiro volume da obra, consagrado ao grau de Mestre, ele estabelece, de certo modo, uma comparação com a Maçonaria francesa, que, para facilitar, poderemos, grosso modo, tomar como representando a Maçonaria do continente europeu, especialmente a dos países latinos; e fala então da elaboração de rituais, da alteração e actualização de rituais, dos debates filosóficos; ou seja, de uma busca constante de aperfeiçoamento.
Devo, neste ponto, fazer um parêntesis para considerar, ainda que muito brevemente, o próprio Oswald Wirth para dizer que ele foi, sem dúvida, um grande autor maçon, mas que não pode ser aceite em bloco — o que, de resto, ele não exigia nem queria, bem pelo contrário. Além disso, tanto quanto sei e tanto quanto posso julgar por esta sua obra — uma das mais importantes que deixou —, Wirth não foi aquilo a que podemos chamar um maçon regular. O que não diminui os seus méritos nem a profundidade e vastidão dos seus conhecimentos, mas deve, ainda assim, ser tomado em conta.
Retomando e simplificando um pouco, julgo não estar errado ao dizer que nos encontramos perante dois modelos distintos de Maçonaria — sempre reconhecendo, como é evidente, os pontos comuns: um modelo, de fundo anglo-saxão, que é essencialmente ritualista e conservador; e outro modelo, a que poderemos chamar «latino», que é essencialmente especulativo e maleável. Repito que estou a simplificar, porém atrevo-me a dizer que nas suas linhas gerais esta ideia está correcta, ou assim me parece.
Cada modelo tem as suas virtudes. No que se refere ao ritualismo, é-nos explicado, na nossa obediência regular, que o rito possui virtualidades próprias, que nunca é vazio, pois que actua sobre os participantes, provoca em cada um deles uma transformação interior. O rito, dizem-nos, quando correctamente praticado, é capaz de nos conduzir à verdadeira iniciação, levar-nos até àquele conhecimento que não se encontra em livro algum porque é apenas intuído e sentido intimamente e não pode ser expresso por palavras: em suma, o real segredo maçónico. E o próprio Oswald Wirth, que não esconde, naturalmente, a sua preferência pela Maçonaria francesa, reconhece (cito agora o livro do Mestre) que «nenhum rito é desprovido de valor. Mesmo cumprido maquinalmente, o acto ritual tem a sua eficácia».
Paralelamente, o modelo especulativo, aberto à discussão filosófica e a uma maior maleabilidade de acção, mostra-se, afinal, fiel às nossas origens, pois não esqueçamos que a Maçonaria passou, justamente, de operativa a especulativa e também que, numa perspectiva histórica, enquanto se pode ainda falar de Maçonaria operativa, esta já comporta um cunho especulativo e já integra maçons «aceites», não ligados ao ofício de construtor. Por outro lado, os ritos, ou antes, os rituais, não podem manter-se rigorosamente imutáveis, até porque, ao longo dos tempos, foram colhendo elementos que porventura não teriam real valor iniciático, ou deixaram de corresponder às condições e necessidades da época. Na minha modestíssima opinião, um exemplo flagrante destes dois vícios é o do ágape ritual, tal como se nos apresenta hoje, pelo menos no R\E\A\A\
Os dois modelos têm, pois, sem qualquer dúvida, importantes qualidades positivas. Mas, não sendo a perfeição uma coisa deste mundo, comportam também alguns riscos.
Assim, no caso do modelo a que chamei anglo-saxão, corre-se o perigo de se chegar a um completo monolitismo, a um completo imobilismo, a uma rotina árida e estéril. Acrescento que, neste modelo, o ágape, ritual ou não, deixou de ser a continuação dos trabalhos em ambiente diverso, como seria desejável, para se tornar em algo que é, afinal, muito profano em espírito — mesmo quando se trata de um ágape ritual. Perdoem-me, irmãos, a crueza das palavras, mas é difícil evitar a… «profanação» no final da sétima saúde feita com vinho.
Por outro lado, o ritualismo puro e duro durante a sessão, sem que haja preocupações filosóficas ou espirituais, não cria defesa alguma contra a criação de um «espírito de lobby» que é a deformação da fraternidade e da entreajuda. E não se julgue, de facto, que a Maçonaria inglesa está imune a este risco. Leia-se Foster Bailey e Wilmshurst[1] a este propósito. E acrescento que, por via profana mas de confiança, tive já informações sobre esta realidade.
Quanto ao segundo modelo, em que se integra historicamente a Maçonaria portuguesa, ele tem sido fértil em cisões, desvios, e levou mesmo a uma completa desvirtuação e negação dos mais elementares princípios maçónicos, como foi o caso das proclamações de ateísmo, da eliminação das menções ao G\A\D\U\ e da retirada da Bíblia, ou qualquer livro da Lei Sagrada, do altar do templo. E também não foi possível evitar a criação de lobbies, quer políticos, quer económicos.
Numa perspectiva realista, havemos de aceitar que todos estes desvios, em ambos os modelos que defini, eram e são parte da falível natureza humana. Em Maçonaria, só podem ser evitados com um extremo cuidado na selecção de candidatos, com uma vontade permanentemente desperta, uma vigilância constante sobre nós próprios e uma fidelidade sempre renovada aos nossos grandes princípios. O que constitui todo um programa, cuja execução está longe de ser fácil.
Entretanto, coloca-se-nos, a nós, uma primeira questão: que modelo deveremos tentar seguir, hoje, que torne mais exequível a concretização desse programa e fazer com que ele nos ajude a cumprir os objectivos maçónicos?
Corremos um grande risco: o de recolhermos o pior das duas concepções. O que nos levará, ou levaria, a uma rotina ritual, talvez não muito rigorosa, e a um resvalar da loja para um clube de amigos, uma tertúlia recreativa em que as pessoas se reúnem para fazer uns passes apressados antes de irem cear e ver o futebol, enquanto falam de negócios ou fazem um pouco de má língua social ou combinam mais uma cisão, ao sabor de lutas por uma qualquer preeminência, aliás ilusória.
Julgo, como é natural, que o esforço a fazer deverá tender para reunir o melhor, e não o pior, dos dois modelos citados. Isto é: cumprir o ritual com todo o rigor possível; mas vivê-lo, também — já o disse, não concordo com Wirth quando ele fala em monotonia; porém, concordo com ele quando afirma que um ritual nunca é desprovido de valor, nunca é inútil.  Sobretudo, desde que seja vivido.
Ao mesmo tempo, julgo que não deveremos contentar-nos com o ritual. Dentro da disciplina da regularidade, temos um vasto campo para debate, troca de ideias e de informações, pesquisa, investigação e meditação, quer individual quer colectiva. Acima de tudo, não podemos esquecer que somos uma ordem iniciática. Nem que aquilo a que se chama a egrégora da Loja não é — proponho-vos esta reflexão — não é uma abstracção intelectual, mas uma realidade, tal como os teósofos modernos a entendem, ou muito semelhante à concepção que eles defendem. Ora, essa egrégora, essa entidade, tem de ser permanentemente mantida, cuidada e melhorada.
Para sintetizar, direi que, em meu humilde entender, esta loja, ou antes: qualquer loja, deve operar especulativamente, reunindo assim, afinal, os dois ramos tradicionais da Maçonaria.
Disse, V\M\
João Aguiar M\M\
9/10/2006
Natureza Morta - Óleo sobre tela 70X70
[1] Foster Bailey: O Espírito da Maçonaria, Hugin, Lisboa; W. L. Wilmshurst: Maçonaria, Prefácio, Lisboa.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

PEQUENOS TEXTOS - Pranchas VI

As três colunetas do Templo: 
Sabedoria, Força e Beleza
A reflexão que hoje proponho aos Irmãos diz respeito às três colunetas do Templo: Sabedoria, Força e Beleza. Insisto em que é uma proposta de reflexão e não uma informação, ainda menos uma qualquer forma de revelação!
Tal reflexão veio ao meu espírito por uma via muito natural: como sabem, desempenho presentemente as funções de Mestre de Cerimónias na nossa Respeitável Loja; no início de cada sessão ritual, tenho de acender as luzes das três colunetas e compete-me também apagá-las no final. Daí que as frases ditas pelo Venerável Mestre e pelos dois Vigilantes durante esses momentos estejam bem gravadas na minha memória. Pensei então — isto há vários meses — que seria interessante procurar os sentidos possíveis de tais frases e tentar, depois, extrair consequências, ou hipóteses, a partir desses sentidos possíveis.
Começando pela coluneta da Sabedoria, lembro que o termo «sabedoria» é ambíguo. Pode significar «saber», isto é, grosso modo, «qualidade de quem possui muitos conhecimentos»; ou pode significar — sageza. Aliás, nos textos maçónicos franceses o termo usado é «sagesse», tal como nos ingleses o termo é «wisdom». «Saber» e «sageza» não são exactamente sinónimos, embora o significado do primeiro esteja associado ao segundo. É lamentável que o vocábulo «sages», que existiu na língua portuguesa, se haja perdido; mas, ressuscitando-o temporariamente, diremos que todo o sages é sábio, embora nem todo o sábio seja necessariamente sages.
Ora bem, julgo que, usado em Maçonaria, e sobretudo na frase «Que a Sabedoria presida à construção do nosso edifício», dita pelo Venerável Mestre no momento em que o Mestre de Cerimónias acende a primeira luz das colunetas, este termo «Sabedoria» reúne, necessariamente, os dois significados: é um conhecimento, mas este conhecimento é também intuição, é também ética. É, atrevo-me a dizer, gnose. Ou seja, o conhecimento salvador.
Sem ele, não se chegaria sequer à noção de que há um edifício, um templo, a construir, dentro e fora de cada um de nós. E é nele, evidentemente, que reside ainda o saber do arquitecto, necessário para levantar paredes e lançar arcos e rasgar janelas.
Caminhando depois em torno do pavimento mosaico, o Mestre de Cerimónias acende a luz da segunda coluneta e o Primeiro Vigilante diz: «Que a Força o complete» — complete o edifício a cuja construção a Sabedoria deve presidir.
A minha proposta, quanto à Força, é também múltipla. Por um lado, a Sabedoria corresponde ao projecto de construção do edifício, projecto que restaria inútil se tal construção se não realizasse. O «completar» significa, pois, a realização do projecto concebido, a passagem da Teoria à Prática e, necessariamente, a Força há-de ser aqui associada à ideia do uso da Energia indispensável para organizar o caos, a Matéria bruta — entenda-se esta «Matéria», claro está, no seu sentido mais lato, que inclui o símbolo: não falamos apenas da matéria física, mas também da «matéria psíquica».
Por outro lado, esta Força será igualmente a Vontade. De actuar, de construir, de executar, de transformar. De, falando uma vez mais maçonicamente, combater o vício e exaltar a virtude. A começar pela vontade do candidato que parte para a Iniciação.
Enfim, o Mestre de Cerimónias chega à terceira coluneta e acende a sua luz no momento em que o Segundo Vigilante diz: «Que a Beleza o decore».
Devo dizer que foi este o verdadeiro ponto de partida da minha reflexão, porque se me pôs a questão seguinte: é legítimo associar ética e estética?
A resposta a que cheguei foi esta: não, nem sempre — mas a Beleza, se bem que não baste, não deixa de ser essencial. O próprio rigor do ritual nos diz que a forma é importante. E, na vida concreta, na chamada vida de todos os dias, vemos, a cada passo, vemos, demasiadas vezes, como, por exemplo, a construção da economia, quando despreza a harmonia, tem efeitos terríveis na vida das sociedades. É, aliás, o que sucede quando — e esta é uma atitude que tende a predominar — são invertidos os valores e se põe o indivíduo ao serviço da Economia, quando é esta que deve estar ao seu serviço. A Beleza não é em si mesma uma virtude, porém faz parte integrante das nossas necessidades básicas — embora nem sempre nos demos conta disso —, porque a sua ausência corrói-nos o espírito, a vontade e a criatividade. Poderia citar muitos exemplos, mas bastará evocar as consequências psicológicas da vida num bairro degradado.
Todas estas ideias têm, digamos, um remate nas três frases que, no final da sessão em Loja, acompanham o acto de apagar as luzes das colunetas.
Assim, no momento em que o Mestre de Cerimónias apaga a luz da Sabedoria, o Venerável Mestre proclama: «Que a Paz reine sobre a Terra». Parece-me evidente que a paz, a paz física e psíquica, é, se me permitem a expressão, uma «filha da Sabedoria», no seu sentido de sageza. E que a paz é indispensável à construção, uma ideia está intimamente ligada à outra, tal como a ideia de conflito está associada à ideia de destruição.
«Que o Amor reine entre os homens», diz o Primeiro vigilante quando o Mestre de Cerimónias apaga a luz da segunda coluneta. Isto é: a Força não é cega, nem fria, nem impessoal. A energia é de construção, não de destruição. A vontade é solidária e não egoísta. Cada um de nós não pode procurar a sua salvação em exclusivo, como se fosse um monopólio.
E: «Que a Alegria permaneça nos corações», diz o Segundo Vigilante quando o Mestre de Cerimónias apaga a terceira coluneta. A nossa obra de construção deve ser uma obra de alegria. Referi já que — sempre em proposta de reflexão, não em afirmação dogmática — a Beleza nos é indispensável e que sofremos, no nosso íntimo, as consequências da sua ausência.
Finalmente, se quisermos ir um pouco mais longe, poderemos considerar, no seu conjunto, as frases ditas junto das colunetas no início e no final da sessão. Veremos, atrevo-me a sugerir, que elas contém, em resumo, a descrição da Obra de Deus, enquanto Grande Arquitecto: a Sabedoria unindo-se à Vontade criadora para construir aquilo a que chamamos Universo, que tão mal conhecemos ainda, apesar de tudo, mas cuja Beleza, profunda, indescritível, nos é patente quando paramos, ainda que por breves momentos, para o considerar.
Ora, é também maçónica a noção de que somos todos, ou queremos vir a ser, auxiliares do Grande Arquitecto no Seu trabalho de construção do Templo. Penso que a parte do ritual das sessões executada junto das colunetas servirá, entre outros, o propósito de nos recordar esse objectivo.
Disse, Venerável Mestre.
João Aguiar, M.M.
Museu Britânico

domingo, 1 de julho de 2012

PEQUENOS TEXTOS


SONHOS DE UMA NOITE DE AGOSTO

PRIMEIRO 
  
   O primeiro dia de Fevereiro começava, lentamente, repousa-damente, a escurecer quando chegou, vindo da Rua do Arsenal, o «landau» que transportava o infante D. Manuel e o visconde de Asseca, oficial-mor da Casa Real.
Chegado ao Terreiro do Paço, o «landau» foi parar junto da entrada da estação fluvial. Lá dentro, muita gente da Corte, o presidente do Governo, João Franco Castelo Branco, vários ministros: aguardava-se a chegada do vapor D. Luís. A bordo, viajavam o Rei, a Rainha e o Príncipe Real, que regressavam a Lisboa, vindos de Vila Viçosa.
D. Manuel dirigiu-se imediatamente ao general Vasconcellos Porto, ministro da Guerra; este era, entre os membros do Governo ditatorial de João Franco, um dos poucos que o jovem infante apreciava — não que isso tivesse qualquer importância para os mecanismos da política, D. Manuel não tinha voto nessa matéria.
Porém, mesmo sem voto, o infante estava preocupado e ninguém poderia dizer sensatamente que sem razão. Poucos dias antes, a 28 de Janeiro, rebentara em Lisboa uma intentona republicana — isto para já não falar na crescente hostilidade contra a ditadura, ainda que obviamente temporária, de João Franco. Este, um pouco no jeito de quem sossega uma criança nervosa, enviara, a 30 de Janeiro, uma carta a D. Manuel garantindo-lhe que «tudo estava sossegado e não havia nada a recear».
Essa mesma inquietação levou o infante para junto de Vasconcellos Porto e este adoptou a mesma atitude tranquilizadora tomada pelo Presidente do Ministério: tudo estava bem, nada havia a recear. Confiança que não era partilhada pelo coronel Correia, oficial da polícia, que insistia sobre o perigo de não ter sido montado um dispositivo especial de segurança, mas João Franco varreu secamente esses receios, meteu o coronel na ordem.
No exterior, outra voz apreensiva se ouvia: era o tenente-coronel Alfredo de Albuquerque, conversando com o conde de Sabugosa e com o capitão Roçadas, recente herói das campanhas de África. Apontando a carruagem aberta que esperava a família real, desabafava:
— Eu queria que viessem automóveis, mas El-Rei telegrafou-me de Vila Viçosa… prefere viajar em «landau» aberto…
Entretanto, o D. Luís aproximava-se, vencendo o Tejo.
Quarenta minutos mais tarde, os viajantes reais desembarcavam, El-Rei envergando o uniforme de generalíssimo. D. Manuel adiantou-se para abraçar os pais e o irmão, depois foi a breve cerimónia dos cumprimentos, seguida de alguns minutos de conversas soltas em que, inevitavelmente, o principal tema era a intentona do dia 28. Discretamente, o visconde de Asseca — a quem o infante, durante o trajecto para o Terreiro do Paço, voltara a falar dos seus receios — aproximou-se de El-Rei, perguntou-lhe se não preferiria, afinal, viajar para o paço em automóvel. Mas D. Carlos estava decidido. Seria a carruagem aberta, para que todos vissem a família real, para que se soubesse que ninguém tinha medo. E acrescentou, num murmúrio que só o visconde pôde ouvir:
— Eu não durmo, Salvador; trago sempre a minha arma carregada.

*

Este Primeiro Sonho ganha ritmo, passa a momento presente…

Exterior. Terreiro do Paço. A carruagem aberta avança. D. Carlos dá a direita a D. Amélia; em frente do par real, os filhos. O Rei mantém a mão direita no bolso do capote, onde guardou o seu Smith & Wesson de calibre 32. Tal como o filho mais novo, também respira naquele ar da tarde uma ameaça indefinida.
A carruagem roda. O infante olha, distraído, para a estátua de D. José — e vê, sem acreditar, um homem sombrio, de cerrada barba negra, de gabão negro, que ele abre para mostrar uma carabina… «que má brincadeira», pensa D. Manuel, antes de compreender.
E agora, tudo se precipita. O infante vai falar, mas não tem tempo: o homem deixou passar o «landau» real e depois, rápido, chega-se à frente, põe um joelho em terra e dispara — ao mesmo tempo, do outro lado, um rapaz adianta-se, de pistola em punho, salta para o estribo da carruagem e dispara também…
Mas o Rei, embora ferido nas costas, vira-se para trás, responde ao fogo do homem da carabina enquanto D. Luís Filipe, que também vem armado, se levanta, empunhando o seu Colt, e dispara sobre o segundo pistoleiro. Este logrou atingir o Príncipe Real, mas, cedendo ao impacto das balas recebidas, cai do estribo, tomba por terra e é acabado, a tiros e golpes de sabre, pelos elementos da polícia que rodeiam o «landau». Entretanto, D. Luís Filipe, amparado por D. Manuel, desaba sobre o assento, com o peito ensanguentado. A Rainha, que numa primeira explosão gritara «Infames! Infames!», tenta agora socorrer o marido. D. Carlos sangra abundantemente, mas consegue murmurar:
— Manuel… que não o matem!
O infante compreendeu. Debruçando-se por cima do irmão, que desmaiou, grita ao tenente Figueira, que vibrara já uma espadeirada no assassino do capote:
— Tenente! Não mate o homem! Ordem de el-Rei!
Ordem difícil de cumprir, porque o criminoso, embora ferido, ainda empunha a arma; porém, o oficial não só ouviu a ordem: tal como o infante, entendeu-lhe também a razão. Fere ainda o inimigo, mas cuida para que o golpe não seja mortal. Com um pontapé faz voar a carabina. E grita aos seus homens: apanhem-na e guardem-na bem. E arranjem um médico, este miserável tem de sobreviver.
Já a carruagem real se afastou, levada pelo galope dos cavalos. D. Amélia grita ao cocheiro, o leal Bento Caparica: depressa, para o Hospital da Estrela.  Mas, na Rua do Arsenal, ouve-se mais um tiro e agora a vítima é o infante D. Manuel, ferido no braço direito. O marquês de Alvito, que segue na segunda carruagem, grita:
— Bento, para o Arsenal! Para o Arsenal!
E, apesar de também ter recebido uma bala, Bento Caparica, ouvindo aquele grito, chicoteia furiosamente os animais. O Arsenal está ali mesmo, em menos de um minuto passam o portão.

* 

Arsenal.
El-Rei e o Príncipe Real estão estendidos em macas de ferro, cobertas com lençóis improvisados. Os médicos observam-nos: já ali se encontram vários, mas destacam-se o Dr. Moreira Júnior e o Dr. António Lencastre.
Abriu-se um espaço para que possam observar os feridos com a necessária serenidade profissional. A alguma distância, D. Amélia, ansiosa, murmurando orações, não tira os olhos do marido e do filho mais velho. Quanto ao infante D. Manuel, o ferimento sofrido e o choque do atentado tiveram nele um efeito entorpecente. Levam-no para a Sala do Inspector, onde a sua ferida será tratada. Enquanto caminha, quase com um autómato, ele vê passar, apressadamente, João Franco, na companhia de Vasconcellos Porto e de Aires de Ornelas, ministro da Marinha: dirigem-se para a Sala da Balança, vão telefonar, a ordenar providências urgentes.
Afrontando o choque e o ferimento, o jovem endireita-se à vista do chefe do Governo; bem gostaria de o cobrir de recriminações, porém este não é o momento, há algo bem mais urgente. E chama:
— Senhor Presidente, uma palavra!
A turva expressão de João Franco torna-se ainda mais carregada: não tem tempo para ouvir aquela criança! Mas enfim, a criança tem dezoito anos e é infante de Portugal. Aproxima-se, contrariado, invocando já a sua urgência…
— É justamente uma urgência: quando tombou ferido, el-Rei meu pai ordenou — ordenou, digo bem — que fosse poupada a vida do miserável que disparou sobre ele. É muito importante que lhe tratem os ferimentos. Esse homem terá de confessar quem foram os mandantes do atentado. Peço-lhe que dê instruções à polícia e que seja esta a sua primeira providência.
A criança, afinal, tem razão. João Franco baixa a cabeça, num gesto que é anuência e saudação ao infante. Depois, afasta-se a toda a pressa. Quando o vê pelas costas, D. Manuel sente-se de novo invadido pelo entorpecimento e deixa-se levar, para ser examinado e tratado.
Junto das macas onde jazem D. Carlos e D. Luís Filipe, os médicos ministram aos feridos os primeiros cuidados; ainda é cedo para avaliar sobre o estado de el-Rei, apenas se sabe que vive; o caso do Príncipe Real, embora ele tenha sido gravemente atingido, justifica mais esperanças. É isto o que D. João de Lencastre, um dos médicos presentes, diz à Rainha. Mas, acrescenta, mesmo no caso de el-Rei, não há que desesperar. Entretanto, urge transportar sua majestade e sua alteza real para lugar mais confortável e propício às intervenções cirúrgicas de que necessitam, agora que as medidas inadiáveis foram tomadas.
O Dr. Moreira Júnior indica o Hospital da Estrela, aliás já para lá foi enviada mensagem telefónica a dar as primeiras ordens. O seu colega, D. João de Lencastre, concorda. Mais tarde, acrescenta, logo que possível, quando não haja perigo, sua majestade e sua alteza real serão transportados para o paço das Necessidades…
Uma voz firme, autoritária, interrompe-o:
— Não! Para a Ajuda!
É a Rainha mãe, D. Maria Pia. Tinham telefonado para o paço da Ajuda, a sua residência, a dar a notícia. E a velha senhora ali está, mais cedo do que todos esperavam, mostrando a sua energia indómita.
— Quando for possível, o meu filho e o meu neto irão para a Ajuda! — repete. E, dirigindo-se à nora, acrescenta: — Minha filha, peço o seu apoio. Se me tivessem ouvido mais cedo…!
Todos sabem ao que se refere a Rainha mãe: o paço das Necessidades tem fama de ser maldito. Superstição, certamente, mas é verdade que D. Maria II ali perdeu o seu primeiro marido, Augusto de Leuchtenberg, dois meses após o casamento; ali perderia, logo no parto, três dos seus filhos; ali viveria um reinado agitado por constantes convulsões; ali morreria com 34 anos somente. Depois, no mesmo paço, viveria D. Pedro V o seu breve romance com D. Estefânia — um ano durara o casamento e o próprio Rei viria a falecer aos 25 anos de idade. Tão sinistra era a reputação das Necessidades, ao cabo de tanta desgraça, que o povo de Lisboa fora em romaria pedir ao novo Rei, D. Luís I, que abandonasse o malfadado paço. E o Rei fizera a vontade ao povo, transferira-se para a Ajuda. A sua viúva, Maria Pia, não esqueceu a tradição popular. D. Amélia tenta acalmar a sogra, diz-lhe que haverá tempo para ponderar a questão.
Mas D. Maria Pia não se acalma porque, nesse momento, surge João Franco. A velha Rainha cresce para ele e a sua voz eleva-se, com o cortante de um chicote:
— A sua obra, senhor Presidente! — diz ela, apontando as macas.
João Franco, abalado por aquele ataque, não tem palavras para responder. E a Rainha mãe acrescenta:
— Já o acusaram de ser o coveiro da Monarquia. Agora, acuso-o eu. Se o meu filho e o meu neto morrerem, o senhor será o assassino!
Uma vez mais, D. Amélia tenta acalmar a sogra — não que o Presidente do Ministério lhe mereça grande consideração, mas aquela cena é pouco digna.
Lá fora, a noite cai.

*

Hospital Militar da Estrela.
Cortesãos, oficiais, altos funcionários, membros do corpo diplomático, todos contidos a uma distância conveniente, excepto alguns, mais íntimos da família real, entre eles o conde de Tattenbach, ministro da Alemanha em Lisboa.
A junta médica pronunciou-se e o Dr. D. António de Lencastre vem dar conta à Rainha: o estado de el-Rei é estacionário e o nosso prognóstico é ainda reservado, mas, por mim, sinto-me optimista. Quanto ao Príncipe Real, podemos considerá-lo fora de perigo imediato.
É ainda pouco, mas é um alívio. D. Amélia vira-se para o filho mais novo, que ouviu as notícias a seu lado, e diz-lhe, com carinho, porém com firmeza: ele representa agora a família, é uma pesada responsabilidade.
O moço reage imediatamente. Ele próprio teve já tempo para fazer aquela mesma reflexão.
— Estou pronto, minha querida mãe. Parece-me que, antes de mais, tenho duas coisas a fazer. A primeira é visitar o tenente que dominou aquele homem horrível, o da barba negra. Vi, na altura, que também foi ferido. Há-de estar neste mesmo hospital, certamente…
A Rainha aprova e diz que ela própria irá visitar o tenente Figueira, mais tarde.
— … A segunda coisa, minha mãe, será para mim um sacrifício, quando devia ser um grande prazer: como sabe, estreia-se em São Carlos uma ópera de Wagner, Tristão e Isolda, e todos nós iríamos assistir…
— Sim, mas tudo já foi cancelado, por ordem do Governo! Naturalmente!
A vinte metros de distância encontra-se João Franco, rodeado de vários ministros. D. Manuel dirige-se a ele, falando num tom friamente cortês:
— Senhor Presidente, sua majestade a Rainha e eu próprio lhe solicitamos que anule a ordem de cancelamento dos espectáculos públicos. Pela minha parte, irei a São Carlos, peço-lhe que mande a polícia tomar providências.
O ditador olha-o com estranheza.
— Senhor infante, as circunstâncias…
Mas D. Manuel interrompe-o:
— As circunstâncias exigem que se ponha cobro aos boatos que hão-de circular por Lisboa. Sua majestade el-Rei e sua alteza real estão vivos, graças a Deus… e apenas a Deus, pois aquele Terreiro do Paço estava deserto, não havia nenhuma providência. É preciso que todos saibam que el-Rei vive, que o Príncipe Real também.
— Senhor infante, a notícia já foi publicada. Peço a vossa alteza que…
— Estou certo de que tal seria a vontade de el-Rei meu pai, se ele estivesse consciente.
Sem mais, D. Manuel vira-lhe as costas e volta para junto da Rainha. Esta, que o olha com ternura, diz-lhe:
— Meu filho, que eu não seja obrigada a sair daqui. É minha intenção passar a noite no hospital, aliás já pedi que me arranjassem um quarto. Se mais nada houvesse, um canto, uma simples maca, me bastariam por esta noite. Hoje, não seria capaz de voltar ao paço, nem de sair daqui…
Uma voz se interpõe:
— Irei eu a São Carlos, com o meu neto!
Mãe e filho não se tinham dado conta da proximidade de D. Maria Pia, que ouvira a conversa. O infante olha com admiração a sua avó, que se mantém muito direita, de cabeça levantada.

*

Derradeiros acordes do Hino da Carta. Uma trovoada de aplausos quase faz tremer as paredes do teatro. Tal como sucedeu à entrada do edifício, com os populares que, mordidos pela curiosidade, observavam a chegada do automóvel, também agora os burgueses e os aristocratas que enchem a sala se comovem estranhamente ao ver no camarote real o jovem infante, pálido, com um braço ao peito, tendo a seu lado a velha Rainha mãe, que parece protegê-lo. É um momento único, este, em que são postas de lado diferenças de opinião, críticas, ódios partidários, até mesmo indiferenças. Um momento em que aquele rapaz de dezoito anos se torna o filho de todas as mulheres maduras que estão na sala, o noivo ferido de todas as raparigas.
Longos minutos decorrem. Enfim, ouvem-se os primeiros acordes do prelúdio do primeiro acto de Tristão e Isolda.
Fiel ao seu sangue Bragança, D. Manuel é um melómano — ainda ontem, tocou a quatro mãos, com o seu mestre Alexandre Rey Colaço, o Septuor de Beethoven. A estreia em Lisboa de Tristão entusiasmou-o, encheu-o de alegre expectativa. No entanto, agora, é incapaz de se concentrar na música de Wagner. O trauma violento regressa, em retrospectiva. Primeiro, tomam conta dele as memórias daquele dia de terror; revive todos os momentos, todas as emoções. E depois da angústia passada, é assaltado por uma angústia presente: o pai e o irmão, em que estado os encontrará quando, finda a récita de gala, voltar ao hospital?
Só então, mas com muita força, a sua mente formula, com mortal nitidez, o princípio de uma equação cujo resultado ele teme: «O meu Pai é el-Rei de Portugal; o Luís Filipe é o herdeiro da coroa. Ambos feridos, com gravidade. Eu…»
Neste ponto e neste momento, invisível e insensível para todos, começa, sob a música trágica e contida de Tristão e Isolda, começa, no espírito do infante D. Manuel, um processo de alquimia espiritual que virá a mudar toda a história de um país e do seu povo.
Ele espera ainda que não lhe seja exigido desempenhar o papel para o qual já se prepara. Mas sabe que tem de estar pronto.
E esperança despedaça-se, a confirmação é-lhe revelada logo que reentra no Hospital Militar, sempre na companhia da avó, que se recusou a recolher-se à Ajuda.
Durante a sua ausência em São Carlos, várias coisas ocorreram: descomposto e desorientado, chegara ao hospital o infante D. Afonso, irmão de el-Rei, que saíra de Lisboa nesse dia. D. Carlos recobrara a consciência durante alguns momentos, trocara algumas palavras, não muito coerentes, com o irmão e com João Franco, depois adormecera sem chegar a dizer ao Presidente do Conselho quem desejava que assumisse a Regência — o que era frustrante, porque João Franco esperava secretamente que fosse possível, por uma indicação directa do Rei, tornear os princípios estabelecidos e atribuir a chefia provisória do Estado ao infante D. Afonso.
Nessa altura, D. Amélia encontrava-se à cabeceira do Príncipe Real. D. Luís Filipe estava consciente, embora torturado por violentas dores. Instantes mais tarde, João Franco apresentava-se no quarto. A conversa que manteve com a Rainha e com o Príncipe foi breve mas muito concreta e decisiva.
Assim, agora que D. Manuel entra no hospital, o Presidente do Conselho vem ao seu encontro e curva-se numa vénia que, nota o infante, é desusadamente profunda e formal.
— Senhor D. Manuel, tenho a alegria de poder dizer que sua majestade se encontra tão bem quanto é possível esperar, dada a situação, e que sua alteza real vencerá sem dúvida esta crise, segundo dizem todos os médicos. Entretanto…
João Franco faz uma pausa, respira fundo e termina:
— … Entretanto, el-Rei e o Príncipe terão sem dúvida uma recuperação lenta, pelo que vossa alteza deverá, a partir de hoje, assumir a Regência.

 SEGUNDO

Paço das Necessidades.
Resistindo delicadamente às objurgatórias de D. Maria Pia, que quer absolutamente ver toda a família na Ajuda, D. Manuel vem passar aqui o resto da noite Mas, ao chegar, não se retira para os seus aposentos. À saída do hospital, pediu a João Franco — não já como simples infante mas como regente do Reino — que fosse ter com ele ao paço, depois de convocar os altos responsáveis da polícia. E quando o chefe do Governo lhe fez notar o adiantado da hora, D. Manuel olhou-o fixamente e baixou a voz para dizer com uma terrível secura:
— Senhor Presidente, dormiu-se bastante durante todo o dia, para que sucedesse o que sucedeu. Agora, é tempo de acordar. Se o regente pode passar a noite em branco, as autoridades também podem.
Provisoriamente só, na sala que escolheu como gabinete de trabalho temporário, D. Manuel senta-se num canapé e ajeita o braço ferido, que lhe dói.
Para já, as medidas urgentes, que tem de arrancar a João Franco. Afinal de contas, tudo o justifica: a tragédia e o próprio facto de se estar em período de ditadura, com a ordem constitucional suspensa.
Mas este período não pode durar. É preciso resolver tudo rapidamente. E depois, é preciso tempo. Neste momento, o bem mais precioso.
Os médicos e a sua própria intuição lhe dizem que a recuperação do Rei seu pai será lenta, na melhor das hipóteses. Mas tem esperança de poder falar em breve com o irmão.
Tempo, preciso de tempo.

*

— Trouxe estes primeiros relatórios para vossa alteza real…
Simplesmente «alteza», corrige D. Manuel, com os olhos postos nas folhas de papel. O Príncipe Real está vivo, graças a Deus.
Lê a primeira folha enquanto o graduado da polícia engole em seco:
Alfredo Luís da Costa, 23 anos, natural de Casével. Profissão, caixeiro. Trabalhou nos Grandes Armazéns do Chiado. Ocupação à data da morte, desconhecida. Solteiro, com uma irmã mais nova a residir em Casével. Suspeito de filiação na Carbonária.
— Portanto, este foi o que morreu… — murmura D. Manuel. — E o outro…
Manuel José dos Reis da Silva Buíça, 32 anos, natural de Bouçais. Professor, antigo sargento do Exército, atirador de 1ª classe. Viúvo, com dois filhos a cargo de familiares. Vive só, com poucas ou nenhumas relações.
O regente levanta a cabeça, encara os homens que tem na sua frente, entre os quais está João Franco, que ele não convidou a sentar-se.
— Este homem, o Buíça, tem de falar — declara D. Manuel. — Não quero mártires, meus senhores; mas ele tem de falar. Agora, desejo ficar a sós com o senhor Presidente do Conselho.
Continua a não convidar João Franco a sentar-se, porém ele mesmo se levanta. E quando o chefe do Governo esboça o início de um discurso, interrompe-o:
— João Franco, nunca duvidei, e não duvido, das suas boas intenções, do seu patriotismo ou da sua lealdade a el-Rei meu pai. O que vou pedir-lhe demonstra, justamente, esta minha afirmação. De momento — e espero que concorde comigo — todos os seus recursos, toda a sua energia, toda a sua inteligência devem aplicar-se mais como ministro do Reino do que como Presidente do Conselho, e é providencial que já esteja acumulando as duas funções. Com efeito, é preciso que, com grande rapidez, se deslinde o essencial da conspiração e sejam conhecidos os responsáveis. É isto o que eu lhe peço, de todo o coração. O tempo urge.

*

«Tempo, preciso de tempo.»
Paço das Necessidades, 5 de Fevereiro.
O regente de Portugal ainda não voltou ao Hospital da Estrela, apenas se manteve informado, pelo telefone, do estado de saúde do Rei e do Príncipe Real. Entre o pessoal doméstico das Necessidades, começa a avolumar-se a lenda de que sua alteza não dorme desde o atentado, porque, exceptuando o seu criado particular, que não fala, vêem o infante sempre acordado, sempre vestido.
D. Manuel interrompeu os estudos. A Escola Naval, a que se destinava, terá de esperar. Às seis da manhã e às cinco da tarde, faz exercícios físicos durante uma hora. Tem recebido, consoante as necessidades mais prementes, o Presidente do Conselho, oficiais da polícia, membros do corpo diplomático. Mas o restante tempo, consome-o a ler e a escrever — apontamentos febris, em folhas soltas, que ele guarda depois num cofre de segredo. Quanto às leituras, não são romances. São relatórios, estudos, panfletos, documentação diversa pedida a todos os Ministérios.
Neste dia 5 de Fevereiro, a sua leitura é interrompida pela chegada do Presidente do Conselho, que ele convocou. Desta vez, D. Manuel esboça um sorriso cordial, convida o chefe do Governo a sentar-se e inicia imediatamente a conversa:
— Meu caro João Franco, devo agradecer-lhe a sua rápida actuação.
É um preito justo. Durante os três dias anteriores, usando das suas competências como ministro do Reino, João Franco sacudiu a apatia geral, pôs as autoridades a funcionar. Buíça falou, vários chefes da Carbonária estão agora presos, bem como altas personalidades do partido republicano. Nos seus traços essenciais, a conspiração foi posta a descoberto. O presidente do Ministério aceita como merecido o agradecimento do regente e tira da sua pasta um documento enquanto explica:
— Trago a vossa alteza um novo decreto, que vem completar o de 31 de Janeiro, assinado por sua majestade el-Rei. Este invoca a qualidade de «crime militar» para o vil atentado…
D. Manuel interrompe-o:
— João Franco, eu não posso assinar esse decreto, e não apenas porque ainda não posso escrever, com este meu braço ferido. O atentado contra a família real foi um acto hediondo e todos os responsáveis hão-de, espero eu, ser punidos com a maior severidade. Pelos tribunais. O crime foi, a meu ver, uma verdadeira tentativa de parricídio, mas não foi um crime militar, porque nem mesmo o Buíça estava ainda no Exército. Confesso-lhe que, pessoalmente, bem gostaria de ver esse homem horrível fuzilado ou enforcado. Mas não posso. Ambos sabemos que a pena de morte foi abolida em Portugal, pelo Acto Adicional de 1852 e pela reforma de 1867. Isto leva-me ao assunto essencial desta nossa conversa…
O infante marca uma pausa e prossegue:
— Disse-lhe já não duvidar das suas intenções nem da sua lealdade. Aceito que o tempo que governou em ditadura talvez parecesse essencial — pareceu-o, certamente, a el-Rei meu pai — para acalmar o país e fazer reformas muito necessárias. Mas a verdade é que os resultados foram desastrosos. E a imprevidência mostrada no passado dia 1 é imperdoável. Estes e outros motivos levam-me a pedir-lhe, meu caro João Franco, que sirva uma vez mais o País e el-Rei pedindo a sua demissão e a do seu Governo.

*
Hospital.
— Meu querido pai… demiti o João Franco.
D. Carlos, mantendo os olhos fechados, emite um som indefinido.
— Quem nomeaste?
— O almirante Ferreira do Amaral. Aconselhei-me com o José Luciano de Castro e reuni-me com o Conselho de Estado. O Amaral está a formar um governo de acalmação, concentrando progressistas e regeneradores. A ditadura terminou.
«Oxalá a febre não lhe suba».
Mas D. Carlos abre os olhos e sorri.
— Tu és o regente.
O médico — é D. António Lencastre — intervém:
— Com perdão de vossa alteza… el-Rei deve repousar, agora.

TERCEIRO

Paço da Ajuda. Dezembro de 1908.
Os dois príncipes, sem testemunhas.
Amanhã, D. Luís Filipe assumirá oficialmente a Regência. Retirado em Sintra, D. Carlos convalesce lentamente, ainda sujeito a longos momentos de fadiga.
Os dois irmãos falam sem atender ao protocolo.
— É pouco menos que um milagre, Manuel. Não: é um verdadeiro milagre. E és tu o santo milagreiro. Conta-me, diz-me!
O infante sorri. Apesar da sua juventude, deixaram-lhe marcas fundas, estes meses de Regência.
— Os pormenores estão neste documento, que preparei para ti. O que posso dizer? Naquele dia horrível, o primeiro de Fevereiro, uma coisa, sobretudo, me ajudou: saber que o nosso pai e tu mesmo estavam vivos. O choque e o desgosto da vossa morte ter-me-iam paralisado, julgo eu, pelo menos durante os primeiros dias… quem sabe? Enfim, pensei então: será mais fácil ser regente do que Rei. Nestes primeiros momentos, poderei fazer coisas que el-Rei não poderia ou deveria fazer. É verdade que usei o João Franco para as primeiras providências e depois, logo que pude, livrei-me dele.
D. Luís Filipe afasta João Franco com um gesto.
— Do que eu falo, é desta nova atmosfera que se respira. Não sei se me entendes…
— Entendo. E é importante que me ouças, porque muita coisa não deve ficar escrita.
Em termos concisos, sem grandes tiradas, o infante explica: logo que assumiu a Regência, passou noites a fio a estudar a situação. Concluiu que, para além de muitas reformas a fazer, faltava algo de essencial: os partidos monárquicos já não tinham ideais, nem doutrina, nem programa. Os políticos, com raras excepções, estavam gastos e, enrodilhados na luta pelo poder, mostravam-se indiferentes às necessidades do País. Como regente, ele não podia intervir, tinha de respeitar as limitações constitucionais. Mas podia, sim, tentar lançar novas ideias, procurar dar força a gente mais nova, a gente diferente.
Dois homens, entre vários outros, tinham respondido ao seu apelo: um, o velho Ramalho Ortigão, quer recrutando jornalistas e escritores mais novos, quer desenvolvendo, lançando em papel e publicando as ideias que ele mesmo, D. Manuel, lhe transmitira: no fundo, uma concepção renovada de monarquia. Que era, afinal, um retorno às origens, guardadas as óbvias distâncias: o pacto, o compromisso entre o povo e o monarca, a responsabilidade deste como garante da liberdade («Nós somos livres, o nosso Rei é livre!»).
— Deus sabe as noites que passei a escrever notas que depois entregava ao Ramalho! Devemos-lhe muito, a ele e a outros cujos nomes te entregarei, numa lista. Hoje, podemos falar num novo pensamento monárquico. Mas isto, evidentemente, não chegava. Era preciso fazer mais, no campo dos partidos. Sobretudo porque, de facto, faltava uma voz essencial nas Cortes…
Essa voz, prossegue o infante, era a dos operários. Ou seja, a voz dos socialistas. E aqui fora vital o auxílio de Alfredo Aquiles Monteverde.
— Tens de falar com o Monteverde, Luís. Conseguiu a colaboração do Azedo Gneco, apesar das tendências republicanas que ele tem… tinha. Este trabalho não está acabado, evidentemente, há muito que fazer. Mas há já o apoio dos operários do arsenal da Marinha. Ouve: é preciso conseguir o apoio do Governo para as propostas feitas pelo Léon Poinsard…
— A quem tu pagaste, do teu bolso, para vir a Portugal! — exclamou D. Luís Filipe.
— Era uma das grandes urgências. Para lutar contra a pobreza, precisávamos de estudos rigorosos… mas é preciso que o Governo se interesse. E há também os projectos de assistência da nossa mãe. É preciso juntar todos os esforços, todas as boas vontades…
D. Luís Filipe ergue-se e vai abraçar o irmão.
— Manuel, não sei que títulos e condecorações te dê para…
Nada disso, responde o infante. Mete bem na cabeça que tens de assumir tudo o que de bom se tem feito e venha a fazer. É muito importante. Vê, tenho aqui a lista daqueles que mais me têm apoiado. Esses sim, devem ser ouvidos e recompensados. Temos o Ramalho, o António Cândido, o Soveral, o Sabugosa, o Monteverde, claro…
— E tu, Manuel?
— Eu? Perdi um ano de preparação para a Escola Naval, agora tenho de recuperar…
O novo regente abana a cabeça em negativa.
— Preciso de ti. Ao pé de mim.

QUARTO

Agora o sono torna-se mais tranquilo, a respiração mais lenta e fácil…

Em 1930, Portugal festejou, simultaneamente, o primeiro aniversário da nova Constituição, que viera substituir a Carta, e o vigésimo aniversário da aclamação de el-Rei D. Luís II. Seu pai, D. Carlos I, falecera em 1915, mas abdicara do trono cinco anos antes, por razões várias, sendo que a mais importante fora o profundo abalo que o atentado de 1908 causara à sua saúde.
No dia seguinte ao dos festejos, o Rei e o seu irmão D. Manuel, agora Príncipe Real, já que D. Luís e D. Isabel Maria ainda não tinham descendência, passeavam juntos, depois do almoço, no parque da Pena. Os dois irmãos rememoravam aqueles vinte anos, as horas difíceis e os momentos de felicidade. Um período de tensão constante fora o da Grande Guerra, em que tanto o monarca como o seu irmão se tinham visto obrigados a desdobrar-se em esforços oficiosos, discretos mas (felizmente) eficientes, para apoiar o Governo de coligação, que, com o total acordo do Rei e do Conselho de Estado, queria manter o País neutral. Portugal precisava desesperadamente da paz para consolidar a sua economia. O grande problema residia nos apetites coloniais do Império Alemão e do Império Britânico; jogar ao mesmo tempo com relações e simpatias nas cortes de Londres e Berlim não fora fácil.
— Enfim, dobrámos esse cabo! — concluiu D. Luís. — E também conseguimos atravessar a crise das grande reivindicações. Graças, no fundo, às tuas ideias. Sem elas, nunca o Partido Trabalhista seria o que é hoje.
Mesmo a sós com o seu irmão e Rei, D. Manuel preferiu mudar de assunto. A sua intervenção não devia ficar na História, pensava.
— Hoje, o que me preocupa — disse então — é o Sr. Mussolini. Ou melhor, as suas ideias, que já cá chegaram…
— Bem sei: o Oliveira Salazar — replicou D. Luís. — Mas, a meu ver, falta-lhe… fogo. E os nacional-corporativos não têm sequer representação nas Cortes.
No seu passeio, tinham chegado a um pequeno pavilhão octogonal e sentaram-se em bancos de madeira que ali havia.
— Tenho estado a pensar… disse D. Manuel. — Não achas que é tempo de fazermos uma reconciliação familiar?
— ?
— Refiro-me ao nosso primo Duarte Nuno. E às irmãs, claro. Não é só uma questão familiar, bem sabes. É uma questão de Estado. Infelizmente, estamos os dois na casa dos quarenta e ainda não temos filhos. Às vezes, pergunto-me se a nossa saudosa avó não tinha razão ao falar da «maldição» do paço das Necessidades.
Fez-se um silêncio pesado, triste. Por fim, o Rei murmurou:
— Mas ainda não somos velhos!
D. Manuel emitiu um breve riso.
— Estás casado há dezanove anos, eu há dezassete. Nem a Rainha nem a Vitória Augusta engravidaram uma só vez. Temos de pensar no futuro; e a melhor maneira de evitar discussões e intrigas sobre a sucessão é torná-la desde já transparente.
D. Luís reflectia.
— Que idade tem o moço? — perguntou.
— Vinte e três anos.
O Rei fez «hmmm», sem se comprometer ainda.
— É urgente, sabes? — insistiu D. Manuel. — Eles têm de vir, têm de perder o sotaque austríaco, têm de ser aceites pelo povo. Isso leva algum tempo.
— Mas…
— Promete-me que pensas no assunto.

QUINTO

No dia 23 de Dezembro de 1945, no paço real da Ajuda, el-Rei D. Luís II aguardava o Presidente do Conselho, que tardava. A irritação desse atraso (que sabia propositado) pôs o envelhecido monarca num estado de espírito melancólico e, quando assim acontecia, tornava-se mais viva a saudade do irmão, cuja fotografia mantinha na sua secretária, ao lado do retrato da Rainha, essa, felizmente, bem viva. D. Manuel falecera inesperadamente em 1932. E, para além da mágoa, para além da saudade, o Rei sofria com a falta dos conselhos sensatos do irmão. Um dos derradeiros, que ele abençoadamente seguira, fora o de reconciliar os dois ramos da família. Príncipe Real desde a morte de D. Manuel, D. Duarte Nuno, já completamente adaptado a Portugal, mostrara-se muito hábil durante toda a guerra. E, ao casar-se com uma princesa do Brasil, descendente de D. Pedro IV, mostrara também um grande senso político. A Casa de Bragança reunificara-se. Findas as tricas sucessórias.
— Meu senhor, chegou o senhor Presidente do Conselho.
— Ah.
*
— … É, pois, com muita alegria e muito gosto que lhe comunico a decisão que tomei de lhe conferir a grã-cruz da Ordem de Cristo e de o nomear Duque de Salazar e par do Reino.
O breve discurso não pareceu alegrar o chefe do Governo, bem pelo contrário.
— Peço perdão a vossa majestade, mas não será, digamos, prematuro? E o Conselho de Estado…
O Rei e o Presidente do Conselho entendiam-se bem na sua mútua antipatia.
— O Conselho de Estado, evidentemente, foi ouvido… uma pena que o meu caro Presidente não tenha podido assistir, devido, sem dúvida, uma vez mais, aos seus compromissos… enfim, o Conselho de Estado deu a mais entusiástica aprovação.
Silêncio. Depois:
— É o tempo certo, Sr. Prof. Oliveira Salazar. A guerra acabou, os Aliados venceram. É tempo de reentrar em vigor, plenamente, a Constituição de 1929. E é evidente que se torna politicamente inevitável a realização de eleições gerais. Gostaria de receber o seu pedido de demissão ainda hoje.
(«Para não te dar tempo de manobra!»)
Mal o Presidente caído em desgraça saiu do gabinete de despacho, uma outra porta se abriu silenciosamente e entrou, envergando grande uniforme, o brigadeiro Craveiro Lopes. O Rei saudou-o com um sorriso, ele fez uma vénia.
— Está feito, meu caro Francisco.
— E eu posso comunicar a vossa majestade que todas as unidades em Lisboa e no Norte se encontram de prevenção, para o que der e vier.
D. Luís II levantou-se, deu alguns passos para aliviar as dores que sentia na coluna.
— Bom. Convém mantê-lo sob discreta vigilância, até às eleições. Depois, será a responsabilidade do Governo que delas sair. Outra coisa, Francisco: será bom vigiar também esses jovens pró-fascistas, os Milicianos Católicos. Sobretudo o chefe, esse Álvaro Cunhal… é perigoso, porque é muito inteligente e porque é um fanático. E tem uma aliança com os nacional-corporativos do Salazar. Infelizmente, ainda é novo de mais para ser nobilitado e feito par do Reino…

SEXTO

Paço da Ajuda, Junho de 1957

El-Rei D. Duarte II terminou o despacho, o Presidente do Conselho retirou-se há pouco. D. Duarte recosta-se na cadeira e esfrega os olhos, cansado. Subitamente, um dos telefones que estão sobre a secretária começa a tocar e o soberano pega no auscultador, ouve a voz do seu secretário particular:
— Senhor D. Duarte, sua alteza a senhora infanta D. Maria Adelaide deseja falar com vossa majestade.
— Muito bem, pode passar a chamada — responde o Rei, que ao mesmo tempo sorri e pensa: «Aí está a ala esquerda da família!»
Os meios mais reaccionários já chamaram a D. Maria Adelaide «a infanta vermelha». Das poucas vezes que vem ao paço, é como se entrasse uma lufada de ar fresco.
— Mano Duarte?
A infanta vai directamente ao assunto, como sempre. Terá ele lido um relatório sobre a Conferência de Bandung? D. Duarte replica: sim, a conferência realizou-se há dois anos e já leu… mas a irmã, sem muita cerimónia, interrompe-o:
— Eu só agora li. E acho que dá muito que pensar. Com a quantidade de colónias que nós temos…
Províncias ultramarinas, corrige D. Duarte, sem demasiada convicção.
— É o mesmo. E é altura de o país começar a pensar…
Na sua urgência, as ideias acumulam-se, empurram-se: a Casa de Estudantes do Império; a família real do Congo; autonomia; federação; comunidade de nações aliadas; um grande exemplo a dar ao mundo, tal como o da abolição da pena de morte…
D. Duarte ouve-a. Quando pode, introduz uma frase:
— Mana, o que posso eu fazer? Sou Rei, não sou Governo, nem deputado…
— Claro! Mas pode conversar, pode aconselhar, falar com o Presidente do Conselho… é isso o poder moderador, ou não?
Um pouco mais tarde, já terminada a conversa, o Rei levanta-se e vai até à janela.
«Impetuosa como sempre. Mas é bem capaz de ter razão. Esta situação imperial não pode durar… os trabalhistas haviam de apoiar a ideia… tenho de pensar, discutir isto com alguns conselheiros de Estado, antes de…»

FINAL ABRUPTO

O rádio-despertador acorda-me.
Envolvido ainda na memória dos sonhos e na névoa do despertar, ouço farrapos de noticiário:
— … A possibilidade de Carolina Salvado se candidatar à Presidência da República foi hoje abordada…
— … decisão do Ministério de encerrar todas a maternidades nacionais e fazer um acordo com a Espanha…
— … lucro dos hospitais ascendeu no primeiro semestre a… encerrados todos os Serviços de Atendimento Permanente…
Merda, onde é que eu guardei a porra do Xanax?

João Aguiar
Hotel do Bussaco- Local de inspiração anual.
Hotel do Bussaco - Local de descanso e meditação anual