domingo, 1 de julho de 2012

PEQUENOS TEXTOS


SONHOS DE UMA NOITE DE AGOSTO

PRIMEIRO 
  
   O primeiro dia de Fevereiro começava, lentamente, repousa-damente, a escurecer quando chegou, vindo da Rua do Arsenal, o «landau» que transportava o infante D. Manuel e o visconde de Asseca, oficial-mor da Casa Real.
Chegado ao Terreiro do Paço, o «landau» foi parar junto da entrada da estação fluvial. Lá dentro, muita gente da Corte, o presidente do Governo, João Franco Castelo Branco, vários ministros: aguardava-se a chegada do vapor D. Luís. A bordo, viajavam o Rei, a Rainha e o Príncipe Real, que regressavam a Lisboa, vindos de Vila Viçosa.
D. Manuel dirigiu-se imediatamente ao general Vasconcellos Porto, ministro da Guerra; este era, entre os membros do Governo ditatorial de João Franco, um dos poucos que o jovem infante apreciava — não que isso tivesse qualquer importância para os mecanismos da política, D. Manuel não tinha voto nessa matéria.
Porém, mesmo sem voto, o infante estava preocupado e ninguém poderia dizer sensatamente que sem razão. Poucos dias antes, a 28 de Janeiro, rebentara em Lisboa uma intentona republicana — isto para já não falar na crescente hostilidade contra a ditadura, ainda que obviamente temporária, de João Franco. Este, um pouco no jeito de quem sossega uma criança nervosa, enviara, a 30 de Janeiro, uma carta a D. Manuel garantindo-lhe que «tudo estava sossegado e não havia nada a recear».
Essa mesma inquietação levou o infante para junto de Vasconcellos Porto e este adoptou a mesma atitude tranquilizadora tomada pelo Presidente do Ministério: tudo estava bem, nada havia a recear. Confiança que não era partilhada pelo coronel Correia, oficial da polícia, que insistia sobre o perigo de não ter sido montado um dispositivo especial de segurança, mas João Franco varreu secamente esses receios, meteu o coronel na ordem.
No exterior, outra voz apreensiva se ouvia: era o tenente-coronel Alfredo de Albuquerque, conversando com o conde de Sabugosa e com o capitão Roçadas, recente herói das campanhas de África. Apontando a carruagem aberta que esperava a família real, desabafava:
— Eu queria que viessem automóveis, mas El-Rei telegrafou-me de Vila Viçosa… prefere viajar em «landau» aberto…
Entretanto, o D. Luís aproximava-se, vencendo o Tejo.
Quarenta minutos mais tarde, os viajantes reais desembarcavam, El-Rei envergando o uniforme de generalíssimo. D. Manuel adiantou-se para abraçar os pais e o irmão, depois foi a breve cerimónia dos cumprimentos, seguida de alguns minutos de conversas soltas em que, inevitavelmente, o principal tema era a intentona do dia 28. Discretamente, o visconde de Asseca — a quem o infante, durante o trajecto para o Terreiro do Paço, voltara a falar dos seus receios — aproximou-se de El-Rei, perguntou-lhe se não preferiria, afinal, viajar para o paço em automóvel. Mas D. Carlos estava decidido. Seria a carruagem aberta, para que todos vissem a família real, para que se soubesse que ninguém tinha medo. E acrescentou, num murmúrio que só o visconde pôde ouvir:
— Eu não durmo, Salvador; trago sempre a minha arma carregada.

*

Este Primeiro Sonho ganha ritmo, passa a momento presente…

Exterior. Terreiro do Paço. A carruagem aberta avança. D. Carlos dá a direita a D. Amélia; em frente do par real, os filhos. O Rei mantém a mão direita no bolso do capote, onde guardou o seu Smith & Wesson de calibre 32. Tal como o filho mais novo, também respira naquele ar da tarde uma ameaça indefinida.
A carruagem roda. O infante olha, distraído, para a estátua de D. José — e vê, sem acreditar, um homem sombrio, de cerrada barba negra, de gabão negro, que ele abre para mostrar uma carabina… «que má brincadeira», pensa D. Manuel, antes de compreender.
E agora, tudo se precipita. O infante vai falar, mas não tem tempo: o homem deixou passar o «landau» real e depois, rápido, chega-se à frente, põe um joelho em terra e dispara — ao mesmo tempo, do outro lado, um rapaz adianta-se, de pistola em punho, salta para o estribo da carruagem e dispara também…
Mas o Rei, embora ferido nas costas, vira-se para trás, responde ao fogo do homem da carabina enquanto D. Luís Filipe, que também vem armado, se levanta, empunhando o seu Colt, e dispara sobre o segundo pistoleiro. Este logrou atingir o Príncipe Real, mas, cedendo ao impacto das balas recebidas, cai do estribo, tomba por terra e é acabado, a tiros e golpes de sabre, pelos elementos da polícia que rodeiam o «landau». Entretanto, D. Luís Filipe, amparado por D. Manuel, desaba sobre o assento, com o peito ensanguentado. A Rainha, que numa primeira explosão gritara «Infames! Infames!», tenta agora socorrer o marido. D. Carlos sangra abundantemente, mas consegue murmurar:
— Manuel… que não o matem!
O infante compreendeu. Debruçando-se por cima do irmão, que desmaiou, grita ao tenente Figueira, que vibrara já uma espadeirada no assassino do capote:
— Tenente! Não mate o homem! Ordem de el-Rei!
Ordem difícil de cumprir, porque o criminoso, embora ferido, ainda empunha a arma; porém, o oficial não só ouviu a ordem: tal como o infante, entendeu-lhe também a razão. Fere ainda o inimigo, mas cuida para que o golpe não seja mortal. Com um pontapé faz voar a carabina. E grita aos seus homens: apanhem-na e guardem-na bem. E arranjem um médico, este miserável tem de sobreviver.
Já a carruagem real se afastou, levada pelo galope dos cavalos. D. Amélia grita ao cocheiro, o leal Bento Caparica: depressa, para o Hospital da Estrela.  Mas, na Rua do Arsenal, ouve-se mais um tiro e agora a vítima é o infante D. Manuel, ferido no braço direito. O marquês de Alvito, que segue na segunda carruagem, grita:
— Bento, para o Arsenal! Para o Arsenal!
E, apesar de também ter recebido uma bala, Bento Caparica, ouvindo aquele grito, chicoteia furiosamente os animais. O Arsenal está ali mesmo, em menos de um minuto passam o portão.

* 

Arsenal.
El-Rei e o Príncipe Real estão estendidos em macas de ferro, cobertas com lençóis improvisados. Os médicos observam-nos: já ali se encontram vários, mas destacam-se o Dr. Moreira Júnior e o Dr. António Lencastre.
Abriu-se um espaço para que possam observar os feridos com a necessária serenidade profissional. A alguma distância, D. Amélia, ansiosa, murmurando orações, não tira os olhos do marido e do filho mais velho. Quanto ao infante D. Manuel, o ferimento sofrido e o choque do atentado tiveram nele um efeito entorpecente. Levam-no para a Sala do Inspector, onde a sua ferida será tratada. Enquanto caminha, quase com um autómato, ele vê passar, apressadamente, João Franco, na companhia de Vasconcellos Porto e de Aires de Ornelas, ministro da Marinha: dirigem-se para a Sala da Balança, vão telefonar, a ordenar providências urgentes.
Afrontando o choque e o ferimento, o jovem endireita-se à vista do chefe do Governo; bem gostaria de o cobrir de recriminações, porém este não é o momento, há algo bem mais urgente. E chama:
— Senhor Presidente, uma palavra!
A turva expressão de João Franco torna-se ainda mais carregada: não tem tempo para ouvir aquela criança! Mas enfim, a criança tem dezoito anos e é infante de Portugal. Aproxima-se, contrariado, invocando já a sua urgência…
— É justamente uma urgência: quando tombou ferido, el-Rei meu pai ordenou — ordenou, digo bem — que fosse poupada a vida do miserável que disparou sobre ele. É muito importante que lhe tratem os ferimentos. Esse homem terá de confessar quem foram os mandantes do atentado. Peço-lhe que dê instruções à polícia e que seja esta a sua primeira providência.
A criança, afinal, tem razão. João Franco baixa a cabeça, num gesto que é anuência e saudação ao infante. Depois, afasta-se a toda a pressa. Quando o vê pelas costas, D. Manuel sente-se de novo invadido pelo entorpecimento e deixa-se levar, para ser examinado e tratado.
Junto das macas onde jazem D. Carlos e D. Luís Filipe, os médicos ministram aos feridos os primeiros cuidados; ainda é cedo para avaliar sobre o estado de el-Rei, apenas se sabe que vive; o caso do Príncipe Real, embora ele tenha sido gravemente atingido, justifica mais esperanças. É isto o que D. João de Lencastre, um dos médicos presentes, diz à Rainha. Mas, acrescenta, mesmo no caso de el-Rei, não há que desesperar. Entretanto, urge transportar sua majestade e sua alteza real para lugar mais confortável e propício às intervenções cirúrgicas de que necessitam, agora que as medidas inadiáveis foram tomadas.
O Dr. Moreira Júnior indica o Hospital da Estrela, aliás já para lá foi enviada mensagem telefónica a dar as primeiras ordens. O seu colega, D. João de Lencastre, concorda. Mais tarde, acrescenta, logo que possível, quando não haja perigo, sua majestade e sua alteza real serão transportados para o paço das Necessidades…
Uma voz firme, autoritária, interrompe-o:
— Não! Para a Ajuda!
É a Rainha mãe, D. Maria Pia. Tinham telefonado para o paço da Ajuda, a sua residência, a dar a notícia. E a velha senhora ali está, mais cedo do que todos esperavam, mostrando a sua energia indómita.
— Quando for possível, o meu filho e o meu neto irão para a Ajuda! — repete. E, dirigindo-se à nora, acrescenta: — Minha filha, peço o seu apoio. Se me tivessem ouvido mais cedo…!
Todos sabem ao que se refere a Rainha mãe: o paço das Necessidades tem fama de ser maldito. Superstição, certamente, mas é verdade que D. Maria II ali perdeu o seu primeiro marido, Augusto de Leuchtenberg, dois meses após o casamento; ali perderia, logo no parto, três dos seus filhos; ali viveria um reinado agitado por constantes convulsões; ali morreria com 34 anos somente. Depois, no mesmo paço, viveria D. Pedro V o seu breve romance com D. Estefânia — um ano durara o casamento e o próprio Rei viria a falecer aos 25 anos de idade. Tão sinistra era a reputação das Necessidades, ao cabo de tanta desgraça, que o povo de Lisboa fora em romaria pedir ao novo Rei, D. Luís I, que abandonasse o malfadado paço. E o Rei fizera a vontade ao povo, transferira-se para a Ajuda. A sua viúva, Maria Pia, não esqueceu a tradição popular. D. Amélia tenta acalmar a sogra, diz-lhe que haverá tempo para ponderar a questão.
Mas D. Maria Pia não se acalma porque, nesse momento, surge João Franco. A velha Rainha cresce para ele e a sua voz eleva-se, com o cortante de um chicote:
— A sua obra, senhor Presidente! — diz ela, apontando as macas.
João Franco, abalado por aquele ataque, não tem palavras para responder. E a Rainha mãe acrescenta:
— Já o acusaram de ser o coveiro da Monarquia. Agora, acuso-o eu. Se o meu filho e o meu neto morrerem, o senhor será o assassino!
Uma vez mais, D. Amélia tenta acalmar a sogra — não que o Presidente do Ministério lhe mereça grande consideração, mas aquela cena é pouco digna.
Lá fora, a noite cai.

*

Hospital Militar da Estrela.
Cortesãos, oficiais, altos funcionários, membros do corpo diplomático, todos contidos a uma distância conveniente, excepto alguns, mais íntimos da família real, entre eles o conde de Tattenbach, ministro da Alemanha em Lisboa.
A junta médica pronunciou-se e o Dr. D. António de Lencastre vem dar conta à Rainha: o estado de el-Rei é estacionário e o nosso prognóstico é ainda reservado, mas, por mim, sinto-me optimista. Quanto ao Príncipe Real, podemos considerá-lo fora de perigo imediato.
É ainda pouco, mas é um alívio. D. Amélia vira-se para o filho mais novo, que ouviu as notícias a seu lado, e diz-lhe, com carinho, porém com firmeza: ele representa agora a família, é uma pesada responsabilidade.
O moço reage imediatamente. Ele próprio teve já tempo para fazer aquela mesma reflexão.
— Estou pronto, minha querida mãe. Parece-me que, antes de mais, tenho duas coisas a fazer. A primeira é visitar o tenente que dominou aquele homem horrível, o da barba negra. Vi, na altura, que também foi ferido. Há-de estar neste mesmo hospital, certamente…
A Rainha aprova e diz que ela própria irá visitar o tenente Figueira, mais tarde.
— … A segunda coisa, minha mãe, será para mim um sacrifício, quando devia ser um grande prazer: como sabe, estreia-se em São Carlos uma ópera de Wagner, Tristão e Isolda, e todos nós iríamos assistir…
— Sim, mas tudo já foi cancelado, por ordem do Governo! Naturalmente!
A vinte metros de distância encontra-se João Franco, rodeado de vários ministros. D. Manuel dirige-se a ele, falando num tom friamente cortês:
— Senhor Presidente, sua majestade a Rainha e eu próprio lhe solicitamos que anule a ordem de cancelamento dos espectáculos públicos. Pela minha parte, irei a São Carlos, peço-lhe que mande a polícia tomar providências.
O ditador olha-o com estranheza.
— Senhor infante, as circunstâncias…
Mas D. Manuel interrompe-o:
— As circunstâncias exigem que se ponha cobro aos boatos que hão-de circular por Lisboa. Sua majestade el-Rei e sua alteza real estão vivos, graças a Deus… e apenas a Deus, pois aquele Terreiro do Paço estava deserto, não havia nenhuma providência. É preciso que todos saibam que el-Rei vive, que o Príncipe Real também.
— Senhor infante, a notícia já foi publicada. Peço a vossa alteza que…
— Estou certo de que tal seria a vontade de el-Rei meu pai, se ele estivesse consciente.
Sem mais, D. Manuel vira-lhe as costas e volta para junto da Rainha. Esta, que o olha com ternura, diz-lhe:
— Meu filho, que eu não seja obrigada a sair daqui. É minha intenção passar a noite no hospital, aliás já pedi que me arranjassem um quarto. Se mais nada houvesse, um canto, uma simples maca, me bastariam por esta noite. Hoje, não seria capaz de voltar ao paço, nem de sair daqui…
Uma voz se interpõe:
— Irei eu a São Carlos, com o meu neto!
Mãe e filho não se tinham dado conta da proximidade de D. Maria Pia, que ouvira a conversa. O infante olha com admiração a sua avó, que se mantém muito direita, de cabeça levantada.

*

Derradeiros acordes do Hino da Carta. Uma trovoada de aplausos quase faz tremer as paredes do teatro. Tal como sucedeu à entrada do edifício, com os populares que, mordidos pela curiosidade, observavam a chegada do automóvel, também agora os burgueses e os aristocratas que enchem a sala se comovem estranhamente ao ver no camarote real o jovem infante, pálido, com um braço ao peito, tendo a seu lado a velha Rainha mãe, que parece protegê-lo. É um momento único, este, em que são postas de lado diferenças de opinião, críticas, ódios partidários, até mesmo indiferenças. Um momento em que aquele rapaz de dezoito anos se torna o filho de todas as mulheres maduras que estão na sala, o noivo ferido de todas as raparigas.
Longos minutos decorrem. Enfim, ouvem-se os primeiros acordes do prelúdio do primeiro acto de Tristão e Isolda.
Fiel ao seu sangue Bragança, D. Manuel é um melómano — ainda ontem, tocou a quatro mãos, com o seu mestre Alexandre Rey Colaço, o Septuor de Beethoven. A estreia em Lisboa de Tristão entusiasmou-o, encheu-o de alegre expectativa. No entanto, agora, é incapaz de se concentrar na música de Wagner. O trauma violento regressa, em retrospectiva. Primeiro, tomam conta dele as memórias daquele dia de terror; revive todos os momentos, todas as emoções. E depois da angústia passada, é assaltado por uma angústia presente: o pai e o irmão, em que estado os encontrará quando, finda a récita de gala, voltar ao hospital?
Só então, mas com muita força, a sua mente formula, com mortal nitidez, o princípio de uma equação cujo resultado ele teme: «O meu Pai é el-Rei de Portugal; o Luís Filipe é o herdeiro da coroa. Ambos feridos, com gravidade. Eu…»
Neste ponto e neste momento, invisível e insensível para todos, começa, sob a música trágica e contida de Tristão e Isolda, começa, no espírito do infante D. Manuel, um processo de alquimia espiritual que virá a mudar toda a história de um país e do seu povo.
Ele espera ainda que não lhe seja exigido desempenhar o papel para o qual já se prepara. Mas sabe que tem de estar pronto.
E esperança despedaça-se, a confirmação é-lhe revelada logo que reentra no Hospital Militar, sempre na companhia da avó, que se recusou a recolher-se à Ajuda.
Durante a sua ausência em São Carlos, várias coisas ocorreram: descomposto e desorientado, chegara ao hospital o infante D. Afonso, irmão de el-Rei, que saíra de Lisboa nesse dia. D. Carlos recobrara a consciência durante alguns momentos, trocara algumas palavras, não muito coerentes, com o irmão e com João Franco, depois adormecera sem chegar a dizer ao Presidente do Conselho quem desejava que assumisse a Regência — o que era frustrante, porque João Franco esperava secretamente que fosse possível, por uma indicação directa do Rei, tornear os princípios estabelecidos e atribuir a chefia provisória do Estado ao infante D. Afonso.
Nessa altura, D. Amélia encontrava-se à cabeceira do Príncipe Real. D. Luís Filipe estava consciente, embora torturado por violentas dores. Instantes mais tarde, João Franco apresentava-se no quarto. A conversa que manteve com a Rainha e com o Príncipe foi breve mas muito concreta e decisiva.
Assim, agora que D. Manuel entra no hospital, o Presidente do Conselho vem ao seu encontro e curva-se numa vénia que, nota o infante, é desusadamente profunda e formal.
— Senhor D. Manuel, tenho a alegria de poder dizer que sua majestade se encontra tão bem quanto é possível esperar, dada a situação, e que sua alteza real vencerá sem dúvida esta crise, segundo dizem todos os médicos. Entretanto…
João Franco faz uma pausa, respira fundo e termina:
— … Entretanto, el-Rei e o Príncipe terão sem dúvida uma recuperação lenta, pelo que vossa alteza deverá, a partir de hoje, assumir a Regência.

 SEGUNDO

Paço das Necessidades.
Resistindo delicadamente às objurgatórias de D. Maria Pia, que quer absolutamente ver toda a família na Ajuda, D. Manuel vem passar aqui o resto da noite Mas, ao chegar, não se retira para os seus aposentos. À saída do hospital, pediu a João Franco — não já como simples infante mas como regente do Reino — que fosse ter com ele ao paço, depois de convocar os altos responsáveis da polícia. E quando o chefe do Governo lhe fez notar o adiantado da hora, D. Manuel olhou-o fixamente e baixou a voz para dizer com uma terrível secura:
— Senhor Presidente, dormiu-se bastante durante todo o dia, para que sucedesse o que sucedeu. Agora, é tempo de acordar. Se o regente pode passar a noite em branco, as autoridades também podem.
Provisoriamente só, na sala que escolheu como gabinete de trabalho temporário, D. Manuel senta-se num canapé e ajeita o braço ferido, que lhe dói.
Para já, as medidas urgentes, que tem de arrancar a João Franco. Afinal de contas, tudo o justifica: a tragédia e o próprio facto de se estar em período de ditadura, com a ordem constitucional suspensa.
Mas este período não pode durar. É preciso resolver tudo rapidamente. E depois, é preciso tempo. Neste momento, o bem mais precioso.
Os médicos e a sua própria intuição lhe dizem que a recuperação do Rei seu pai será lenta, na melhor das hipóteses. Mas tem esperança de poder falar em breve com o irmão.
Tempo, preciso de tempo.

*

— Trouxe estes primeiros relatórios para vossa alteza real…
Simplesmente «alteza», corrige D. Manuel, com os olhos postos nas folhas de papel. O Príncipe Real está vivo, graças a Deus.
Lê a primeira folha enquanto o graduado da polícia engole em seco:
Alfredo Luís da Costa, 23 anos, natural de Casével. Profissão, caixeiro. Trabalhou nos Grandes Armazéns do Chiado. Ocupação à data da morte, desconhecida. Solteiro, com uma irmã mais nova a residir em Casével. Suspeito de filiação na Carbonária.
— Portanto, este foi o que morreu… — murmura D. Manuel. — E o outro…
Manuel José dos Reis da Silva Buíça, 32 anos, natural de Bouçais. Professor, antigo sargento do Exército, atirador de 1ª classe. Viúvo, com dois filhos a cargo de familiares. Vive só, com poucas ou nenhumas relações.
O regente levanta a cabeça, encara os homens que tem na sua frente, entre os quais está João Franco, que ele não convidou a sentar-se.
— Este homem, o Buíça, tem de falar — declara D. Manuel. — Não quero mártires, meus senhores; mas ele tem de falar. Agora, desejo ficar a sós com o senhor Presidente do Conselho.
Continua a não convidar João Franco a sentar-se, porém ele mesmo se levanta. E quando o chefe do Governo esboça o início de um discurso, interrompe-o:
— João Franco, nunca duvidei, e não duvido, das suas boas intenções, do seu patriotismo ou da sua lealdade a el-Rei meu pai. O que vou pedir-lhe demonstra, justamente, esta minha afirmação. De momento — e espero que concorde comigo — todos os seus recursos, toda a sua energia, toda a sua inteligência devem aplicar-se mais como ministro do Reino do que como Presidente do Conselho, e é providencial que já esteja acumulando as duas funções. Com efeito, é preciso que, com grande rapidez, se deslinde o essencial da conspiração e sejam conhecidos os responsáveis. É isto o que eu lhe peço, de todo o coração. O tempo urge.

*

«Tempo, preciso de tempo.»
Paço das Necessidades, 5 de Fevereiro.
O regente de Portugal ainda não voltou ao Hospital da Estrela, apenas se manteve informado, pelo telefone, do estado de saúde do Rei e do Príncipe Real. Entre o pessoal doméstico das Necessidades, começa a avolumar-se a lenda de que sua alteza não dorme desde o atentado, porque, exceptuando o seu criado particular, que não fala, vêem o infante sempre acordado, sempre vestido.
D. Manuel interrompeu os estudos. A Escola Naval, a que se destinava, terá de esperar. Às seis da manhã e às cinco da tarde, faz exercícios físicos durante uma hora. Tem recebido, consoante as necessidades mais prementes, o Presidente do Conselho, oficiais da polícia, membros do corpo diplomático. Mas o restante tempo, consome-o a ler e a escrever — apontamentos febris, em folhas soltas, que ele guarda depois num cofre de segredo. Quanto às leituras, não são romances. São relatórios, estudos, panfletos, documentação diversa pedida a todos os Ministérios.
Neste dia 5 de Fevereiro, a sua leitura é interrompida pela chegada do Presidente do Conselho, que ele convocou. Desta vez, D. Manuel esboça um sorriso cordial, convida o chefe do Governo a sentar-se e inicia imediatamente a conversa:
— Meu caro João Franco, devo agradecer-lhe a sua rápida actuação.
É um preito justo. Durante os três dias anteriores, usando das suas competências como ministro do Reino, João Franco sacudiu a apatia geral, pôs as autoridades a funcionar. Buíça falou, vários chefes da Carbonária estão agora presos, bem como altas personalidades do partido republicano. Nos seus traços essenciais, a conspiração foi posta a descoberto. O presidente do Ministério aceita como merecido o agradecimento do regente e tira da sua pasta um documento enquanto explica:
— Trago a vossa alteza um novo decreto, que vem completar o de 31 de Janeiro, assinado por sua majestade el-Rei. Este invoca a qualidade de «crime militar» para o vil atentado…
D. Manuel interrompe-o:
— João Franco, eu não posso assinar esse decreto, e não apenas porque ainda não posso escrever, com este meu braço ferido. O atentado contra a família real foi um acto hediondo e todos os responsáveis hão-de, espero eu, ser punidos com a maior severidade. Pelos tribunais. O crime foi, a meu ver, uma verdadeira tentativa de parricídio, mas não foi um crime militar, porque nem mesmo o Buíça estava ainda no Exército. Confesso-lhe que, pessoalmente, bem gostaria de ver esse homem horrível fuzilado ou enforcado. Mas não posso. Ambos sabemos que a pena de morte foi abolida em Portugal, pelo Acto Adicional de 1852 e pela reforma de 1867. Isto leva-me ao assunto essencial desta nossa conversa…
O infante marca uma pausa e prossegue:
— Disse-lhe já não duvidar das suas intenções nem da sua lealdade. Aceito que o tempo que governou em ditadura talvez parecesse essencial — pareceu-o, certamente, a el-Rei meu pai — para acalmar o país e fazer reformas muito necessárias. Mas a verdade é que os resultados foram desastrosos. E a imprevidência mostrada no passado dia 1 é imperdoável. Estes e outros motivos levam-me a pedir-lhe, meu caro João Franco, que sirva uma vez mais o País e el-Rei pedindo a sua demissão e a do seu Governo.

*
Hospital.
— Meu querido pai… demiti o João Franco.
D. Carlos, mantendo os olhos fechados, emite um som indefinido.
— Quem nomeaste?
— O almirante Ferreira do Amaral. Aconselhei-me com o José Luciano de Castro e reuni-me com o Conselho de Estado. O Amaral está a formar um governo de acalmação, concentrando progressistas e regeneradores. A ditadura terminou.
«Oxalá a febre não lhe suba».
Mas D. Carlos abre os olhos e sorri.
— Tu és o regente.
O médico — é D. António Lencastre — intervém:
— Com perdão de vossa alteza… el-Rei deve repousar, agora.

TERCEIRO

Paço da Ajuda. Dezembro de 1908.
Os dois príncipes, sem testemunhas.
Amanhã, D. Luís Filipe assumirá oficialmente a Regência. Retirado em Sintra, D. Carlos convalesce lentamente, ainda sujeito a longos momentos de fadiga.
Os dois irmãos falam sem atender ao protocolo.
— É pouco menos que um milagre, Manuel. Não: é um verdadeiro milagre. E és tu o santo milagreiro. Conta-me, diz-me!
O infante sorri. Apesar da sua juventude, deixaram-lhe marcas fundas, estes meses de Regência.
— Os pormenores estão neste documento, que preparei para ti. O que posso dizer? Naquele dia horrível, o primeiro de Fevereiro, uma coisa, sobretudo, me ajudou: saber que o nosso pai e tu mesmo estavam vivos. O choque e o desgosto da vossa morte ter-me-iam paralisado, julgo eu, pelo menos durante os primeiros dias… quem sabe? Enfim, pensei então: será mais fácil ser regente do que Rei. Nestes primeiros momentos, poderei fazer coisas que el-Rei não poderia ou deveria fazer. É verdade que usei o João Franco para as primeiras providências e depois, logo que pude, livrei-me dele.
D. Luís Filipe afasta João Franco com um gesto.
— Do que eu falo, é desta nova atmosfera que se respira. Não sei se me entendes…
— Entendo. E é importante que me ouças, porque muita coisa não deve ficar escrita.
Em termos concisos, sem grandes tiradas, o infante explica: logo que assumiu a Regência, passou noites a fio a estudar a situação. Concluiu que, para além de muitas reformas a fazer, faltava algo de essencial: os partidos monárquicos já não tinham ideais, nem doutrina, nem programa. Os políticos, com raras excepções, estavam gastos e, enrodilhados na luta pelo poder, mostravam-se indiferentes às necessidades do País. Como regente, ele não podia intervir, tinha de respeitar as limitações constitucionais. Mas podia, sim, tentar lançar novas ideias, procurar dar força a gente mais nova, a gente diferente.
Dois homens, entre vários outros, tinham respondido ao seu apelo: um, o velho Ramalho Ortigão, quer recrutando jornalistas e escritores mais novos, quer desenvolvendo, lançando em papel e publicando as ideias que ele mesmo, D. Manuel, lhe transmitira: no fundo, uma concepção renovada de monarquia. Que era, afinal, um retorno às origens, guardadas as óbvias distâncias: o pacto, o compromisso entre o povo e o monarca, a responsabilidade deste como garante da liberdade («Nós somos livres, o nosso Rei é livre!»).
— Deus sabe as noites que passei a escrever notas que depois entregava ao Ramalho! Devemos-lhe muito, a ele e a outros cujos nomes te entregarei, numa lista. Hoje, podemos falar num novo pensamento monárquico. Mas isto, evidentemente, não chegava. Era preciso fazer mais, no campo dos partidos. Sobretudo porque, de facto, faltava uma voz essencial nas Cortes…
Essa voz, prossegue o infante, era a dos operários. Ou seja, a voz dos socialistas. E aqui fora vital o auxílio de Alfredo Aquiles Monteverde.
— Tens de falar com o Monteverde, Luís. Conseguiu a colaboração do Azedo Gneco, apesar das tendências republicanas que ele tem… tinha. Este trabalho não está acabado, evidentemente, há muito que fazer. Mas há já o apoio dos operários do arsenal da Marinha. Ouve: é preciso conseguir o apoio do Governo para as propostas feitas pelo Léon Poinsard…
— A quem tu pagaste, do teu bolso, para vir a Portugal! — exclamou D. Luís Filipe.
— Era uma das grandes urgências. Para lutar contra a pobreza, precisávamos de estudos rigorosos… mas é preciso que o Governo se interesse. E há também os projectos de assistência da nossa mãe. É preciso juntar todos os esforços, todas as boas vontades…
D. Luís Filipe ergue-se e vai abraçar o irmão.
— Manuel, não sei que títulos e condecorações te dê para…
Nada disso, responde o infante. Mete bem na cabeça que tens de assumir tudo o que de bom se tem feito e venha a fazer. É muito importante. Vê, tenho aqui a lista daqueles que mais me têm apoiado. Esses sim, devem ser ouvidos e recompensados. Temos o Ramalho, o António Cândido, o Soveral, o Sabugosa, o Monteverde, claro…
— E tu, Manuel?
— Eu? Perdi um ano de preparação para a Escola Naval, agora tenho de recuperar…
O novo regente abana a cabeça em negativa.
— Preciso de ti. Ao pé de mim.

QUARTO

Agora o sono torna-se mais tranquilo, a respiração mais lenta e fácil…

Em 1930, Portugal festejou, simultaneamente, o primeiro aniversário da nova Constituição, que viera substituir a Carta, e o vigésimo aniversário da aclamação de el-Rei D. Luís II. Seu pai, D. Carlos I, falecera em 1915, mas abdicara do trono cinco anos antes, por razões várias, sendo que a mais importante fora o profundo abalo que o atentado de 1908 causara à sua saúde.
No dia seguinte ao dos festejos, o Rei e o seu irmão D. Manuel, agora Príncipe Real, já que D. Luís e D. Isabel Maria ainda não tinham descendência, passeavam juntos, depois do almoço, no parque da Pena. Os dois irmãos rememoravam aqueles vinte anos, as horas difíceis e os momentos de felicidade. Um período de tensão constante fora o da Grande Guerra, em que tanto o monarca como o seu irmão se tinham visto obrigados a desdobrar-se em esforços oficiosos, discretos mas (felizmente) eficientes, para apoiar o Governo de coligação, que, com o total acordo do Rei e do Conselho de Estado, queria manter o País neutral. Portugal precisava desesperadamente da paz para consolidar a sua economia. O grande problema residia nos apetites coloniais do Império Alemão e do Império Britânico; jogar ao mesmo tempo com relações e simpatias nas cortes de Londres e Berlim não fora fácil.
— Enfim, dobrámos esse cabo! — concluiu D. Luís. — E também conseguimos atravessar a crise das grande reivindicações. Graças, no fundo, às tuas ideias. Sem elas, nunca o Partido Trabalhista seria o que é hoje.
Mesmo a sós com o seu irmão e Rei, D. Manuel preferiu mudar de assunto. A sua intervenção não devia ficar na História, pensava.
— Hoje, o que me preocupa — disse então — é o Sr. Mussolini. Ou melhor, as suas ideias, que já cá chegaram…
— Bem sei: o Oliveira Salazar — replicou D. Luís. — Mas, a meu ver, falta-lhe… fogo. E os nacional-corporativos não têm sequer representação nas Cortes.
No seu passeio, tinham chegado a um pequeno pavilhão octogonal e sentaram-se em bancos de madeira que ali havia.
— Tenho estado a pensar… disse D. Manuel. — Não achas que é tempo de fazermos uma reconciliação familiar?
— ?
— Refiro-me ao nosso primo Duarte Nuno. E às irmãs, claro. Não é só uma questão familiar, bem sabes. É uma questão de Estado. Infelizmente, estamos os dois na casa dos quarenta e ainda não temos filhos. Às vezes, pergunto-me se a nossa saudosa avó não tinha razão ao falar da «maldição» do paço das Necessidades.
Fez-se um silêncio pesado, triste. Por fim, o Rei murmurou:
— Mas ainda não somos velhos!
D. Manuel emitiu um breve riso.
— Estás casado há dezanove anos, eu há dezassete. Nem a Rainha nem a Vitória Augusta engravidaram uma só vez. Temos de pensar no futuro; e a melhor maneira de evitar discussões e intrigas sobre a sucessão é torná-la desde já transparente.
D. Luís reflectia.
— Que idade tem o moço? — perguntou.
— Vinte e três anos.
O Rei fez «hmmm», sem se comprometer ainda.
— É urgente, sabes? — insistiu D. Manuel. — Eles têm de vir, têm de perder o sotaque austríaco, têm de ser aceites pelo povo. Isso leva algum tempo.
— Mas…
— Promete-me que pensas no assunto.

QUINTO

No dia 23 de Dezembro de 1945, no paço real da Ajuda, el-Rei D. Luís II aguardava o Presidente do Conselho, que tardava. A irritação desse atraso (que sabia propositado) pôs o envelhecido monarca num estado de espírito melancólico e, quando assim acontecia, tornava-se mais viva a saudade do irmão, cuja fotografia mantinha na sua secretária, ao lado do retrato da Rainha, essa, felizmente, bem viva. D. Manuel falecera inesperadamente em 1932. E, para além da mágoa, para além da saudade, o Rei sofria com a falta dos conselhos sensatos do irmão. Um dos derradeiros, que ele abençoadamente seguira, fora o de reconciliar os dois ramos da família. Príncipe Real desde a morte de D. Manuel, D. Duarte Nuno, já completamente adaptado a Portugal, mostrara-se muito hábil durante toda a guerra. E, ao casar-se com uma princesa do Brasil, descendente de D. Pedro IV, mostrara também um grande senso político. A Casa de Bragança reunificara-se. Findas as tricas sucessórias.
— Meu senhor, chegou o senhor Presidente do Conselho.
— Ah.
*
— … É, pois, com muita alegria e muito gosto que lhe comunico a decisão que tomei de lhe conferir a grã-cruz da Ordem de Cristo e de o nomear Duque de Salazar e par do Reino.
O breve discurso não pareceu alegrar o chefe do Governo, bem pelo contrário.
— Peço perdão a vossa majestade, mas não será, digamos, prematuro? E o Conselho de Estado…
O Rei e o Presidente do Conselho entendiam-se bem na sua mútua antipatia.
— O Conselho de Estado, evidentemente, foi ouvido… uma pena que o meu caro Presidente não tenha podido assistir, devido, sem dúvida, uma vez mais, aos seus compromissos… enfim, o Conselho de Estado deu a mais entusiástica aprovação.
Silêncio. Depois:
— É o tempo certo, Sr. Prof. Oliveira Salazar. A guerra acabou, os Aliados venceram. É tempo de reentrar em vigor, plenamente, a Constituição de 1929. E é evidente que se torna politicamente inevitável a realização de eleições gerais. Gostaria de receber o seu pedido de demissão ainda hoje.
(«Para não te dar tempo de manobra!»)
Mal o Presidente caído em desgraça saiu do gabinete de despacho, uma outra porta se abriu silenciosamente e entrou, envergando grande uniforme, o brigadeiro Craveiro Lopes. O Rei saudou-o com um sorriso, ele fez uma vénia.
— Está feito, meu caro Francisco.
— E eu posso comunicar a vossa majestade que todas as unidades em Lisboa e no Norte se encontram de prevenção, para o que der e vier.
D. Luís II levantou-se, deu alguns passos para aliviar as dores que sentia na coluna.
— Bom. Convém mantê-lo sob discreta vigilância, até às eleições. Depois, será a responsabilidade do Governo que delas sair. Outra coisa, Francisco: será bom vigiar também esses jovens pró-fascistas, os Milicianos Católicos. Sobretudo o chefe, esse Álvaro Cunhal… é perigoso, porque é muito inteligente e porque é um fanático. E tem uma aliança com os nacional-corporativos do Salazar. Infelizmente, ainda é novo de mais para ser nobilitado e feito par do Reino…

SEXTO

Paço da Ajuda, Junho de 1957

El-Rei D. Duarte II terminou o despacho, o Presidente do Conselho retirou-se há pouco. D. Duarte recosta-se na cadeira e esfrega os olhos, cansado. Subitamente, um dos telefones que estão sobre a secretária começa a tocar e o soberano pega no auscultador, ouve a voz do seu secretário particular:
— Senhor D. Duarte, sua alteza a senhora infanta D. Maria Adelaide deseja falar com vossa majestade.
— Muito bem, pode passar a chamada — responde o Rei, que ao mesmo tempo sorri e pensa: «Aí está a ala esquerda da família!»
Os meios mais reaccionários já chamaram a D. Maria Adelaide «a infanta vermelha». Das poucas vezes que vem ao paço, é como se entrasse uma lufada de ar fresco.
— Mano Duarte?
A infanta vai directamente ao assunto, como sempre. Terá ele lido um relatório sobre a Conferência de Bandung? D. Duarte replica: sim, a conferência realizou-se há dois anos e já leu… mas a irmã, sem muita cerimónia, interrompe-o:
— Eu só agora li. E acho que dá muito que pensar. Com a quantidade de colónias que nós temos…
Províncias ultramarinas, corrige D. Duarte, sem demasiada convicção.
— É o mesmo. E é altura de o país começar a pensar…
Na sua urgência, as ideias acumulam-se, empurram-se: a Casa de Estudantes do Império; a família real do Congo; autonomia; federação; comunidade de nações aliadas; um grande exemplo a dar ao mundo, tal como o da abolição da pena de morte…
D. Duarte ouve-a. Quando pode, introduz uma frase:
— Mana, o que posso eu fazer? Sou Rei, não sou Governo, nem deputado…
— Claro! Mas pode conversar, pode aconselhar, falar com o Presidente do Conselho… é isso o poder moderador, ou não?
Um pouco mais tarde, já terminada a conversa, o Rei levanta-se e vai até à janela.
«Impetuosa como sempre. Mas é bem capaz de ter razão. Esta situação imperial não pode durar… os trabalhistas haviam de apoiar a ideia… tenho de pensar, discutir isto com alguns conselheiros de Estado, antes de…»

FINAL ABRUPTO

O rádio-despertador acorda-me.
Envolvido ainda na memória dos sonhos e na névoa do despertar, ouço farrapos de noticiário:
— … A possibilidade de Carolina Salvado se candidatar à Presidência da República foi hoje abordada…
— … decisão do Ministério de encerrar todas a maternidades nacionais e fazer um acordo com a Espanha…
— … lucro dos hospitais ascendeu no primeiro semestre a… encerrados todos os Serviços de Atendimento Permanente…
Merda, onde é que eu guardei a porra do Xanax?

João Aguiar
Hotel do Bussaco- Local de inspiração anual.
Hotel do Bussaco - Local de descanso e meditação anual

sexta-feira, 1 de junho de 2012

PEQUENOS TEXTOS - Pranchas V


INICIAÇÃO MASCULINA, INICIAÇÃO FEMININA
   Venerável Mestre, queridos Irmãos, como é do conhecimento de todos esta prancha é simplesmente o resumo da conferência que fiz recentemente na Grande Loja, a convite do nosso muito respeitável Grão-Mestre.
   Devo explicar a razão primeira que me levou à escolha do tema, «Iniciação masculina, iniciação feminina». E começarei por citar um texto maçónico da Grande Loja Regular de Portugal (adaptação, salvo erro, de um texto francês) que diz: «A Maçonaria autêntica é essencialmente um Rito. O Rito tem por finalidade fazer ascender o adepto à Iniciação».
   Aqui, o termo «Iniciação» ultrapassa as fronteiras estreitas da iniciação no grau de Aprendiz maçon. Com efeito, o texto prossegue dizendo: «Essa Iniciação tem por objectivo, como em todas as outras Tradições, desligar o homem dos limites do seu estado humano e tornar efectiva a capacidade que ele recebeu de aceder aos estados superiores graças a Ritos rigorosos e precisos, de uma forma activa e durável».
   Tenho de dizer que, embora não discuta esta definição, ela parece-me um pouco restritiva, na medida em que considera somente o «Rito rigoroso e preciso» e não abrange, portanto, aquele outro aspecto que é ser a Maçonaria especulativa, tal como não menciona a dinâmica entre o esforço individual de cada maçon e o esforço colectivo de toda a loja; entre indivíduo e egrégora. Não nos fala, enfim, da Busca, da Demanda espiritual que é o caminho de cada verdadeiro maçon. Mas o facto de a definição ser demasiado restritiva não lhe retira validade. E temos pois que Maçonaria é — Iniciação. E se não é Iniciação, não é nada.
   Quero eu dizer com isto que não são precisos rituais, nem paramentos, nem alfaias — não é precisa uma Ordem para fazer boas obras, para defender a verdade e a justiça, para ser tolerante, para praticar convivências fraternais. Tudo isso é resolúvel quer em acções individuais quer em associações profanas. É a Iniciação que distingue e define a Maçonaria.
   Como se sabe, a Maçonaria não é a única via iniciática. A este respeito, gosto de citar Richard Dupuy, que foi grão-mestre da Grande Loja de França (uma obediência irregular, mas trabalhando, como se costuma dizer, «para a glória do Grande Arquitecto do Universo»): escreveu ele que a Maçonaria «é somente uma das correntes do largo rio que conduz ao Conhecimento».
   Ora, no caso específico da Maçonaria regular, ela é uma corrente, é uma via que se mantém fechada às mulheres. O que levou à formação de obediências irregulares como a Maçonaria Feminina e o Direito Humano, que é misto.
   Julgo que desde muito cedo — tanto quanto sei, desde o século XVIII, pelo menos — houve mulheres interessadas na iniciação maçónica. Aliás, cabe aqui tomarmos consciência de que desde sempre houve mulheres interessadas na Iniciação, em sentido mais lato. A iniciação feminina existiu nas sociedades antigas; julgo saber que ela existe ainda hoje em sociedades chamadas tradicionais ou que pertencem àquele género a que se chamou «o primitivo actual». No Ocidente, porém, a tradição iniciática exclusivamente feminina parece ter-se perdido há muito.
   Quando, há anos, fui admitido à Ordem maçónica regular, pensei então, confesso-o, que a insistência da regularidade em excluir as mulheres já não se justificava. Era, considerava eu, o vestígio histórico de uma era passada. Por outro lado, o respeito pela mulher, proclamado em certos e raros passos do ritual maçónico — refiro-me essencialmente ao do REAA — esse respeito, dizia eu, não me parecia (e, devo dizer, ainda não me parece) suficientemente afirmativo ou expressivo. A atitude fundamental da Obediência regular perante a mulher é, ainda e sempre, de subalternização. A mulher é considerada apenas como «a companheira do homem»; ou, no aspecto que nos interessa, a «companheira do Irmão maçon». Sem existência própria, digamos; sem peso próprio — sem individualidade.
   Independentemente da gritante desadequação desta atitude ao tempo actual, resta aquilo que eu, nos meus primeiros tempos de vida maçónica, classificava como injustiça; porque, raciocinava então, se recusava à mulher o caminho da Iniciação e isto sem outro motivo que não fosse um costume ultrapassado e esvaziado de real conteúdo.
   Hoje em dia, porém, a minha opinião alterou-se — em parte. Não, devo acentuar, não no que se refere à atitude subalternizante em relação à mulher, pois que nesse domínio continuo a pensar como pensava; mas em relação ao motivo profundo da recusa da iniciação maçónica das mulheres.
   Essa mudança de opinião deveu-se a um conjunto de factos, de leituras e de raciocínios. Entre os factos, mencionarei uma visita feita à Respeitável Loja Europa pelo nosso Irmão, o cineasta, escritor e arquitecto António de Macedo, que, embora na situação de «adormecido», aceitou um convite que a Loja lhe dirigiu; entre as leituras, mencionarei, sem carácter de exclusividade, o seu excelente livro «Instruções Iniciáticas». E entre os raciocínios a que me entreguei figuram os seguintes:
   A questão essencial, penso, reside no tipo de iniciação que é o maçónico. Não está, de todo, em questão o valor iniciático da mulher, nem a sua capacidade. Estou convicto, também, de que na complementaridade homem-mulher não há posições subalternas.
   Tenho a consciência de que alguns poderão objectar com um argumento bíblico tirado do «Génesis». Refiro-me ao episódio da criação da mulher a partir da costela de Adão, para que o homem pudesse ter uma companheira. O que, claramente, traduz, de facto, uma subalternidade: a mulher criada em segundo lugar, só porque Deus (Yaveh) achou que, afinal de contas,  não convinha que o homem ficasse sozinho no jardim do Éden.
   Sucede, porém, que, no «Génesis», não há apenas uma história da criação do homem e sim duas, justapostas e muito diferentes. Essas duas histórias — a este respeito convirá ler as anotações publicadas na edição da «Bíblia de Jerusalém» — pertencem a tradições redaccionais diferentes: uma designada «yavista», porque os seus textos referem Deus como Yaveh, e outra designada «eloista», em que Deus é referido como Elohim. Pois bem: é na tradição yavista que surge a costela de Adão e essa história vem, no livro, em segundo lugar. O início do «Génesis» pertence à tradição eloista, sacerdotal, e nele se conta que:
   Deus (ou Elohim) criou o homem à sua imagem,
   Criou-o à imagem de Deus,
   Criou-os homem e mulher.
   Temos aqui uma criação dos sexos simultânea, sem subalternidades. E parece-me significativo que esta seja a primeira versão a ser apresentada; como se a segunda fosse um acrescento. Portanto, à criação do Homem por Yaveh, posso contrapor a criação do Homem e da Mulher por Elohim.
   Dito isto, e retornando ao nosso tema central: o que me parece, hoje, ao contrário do que pensava há poucos anos, é que a iniciação maçónica, diversamente de outras iniciações, é por essência masculina.
Admito que há outras linhas iniciáticas mistas; e não lhes contesto a validade, nem o poderia fazer, pois, recordo, a Maçonaria é apenas uma via para a Iniciação. Mas sem dúvida é uma via masculina; é-o pela tradição em que se filia e que é a dos construtores; e é-o pelo ritual. Os Ritos da Ordem Maçónica foram concebidos ou formaram-se para actuar, digamos, magicamente (não confundamos magia com feitiçaria) sobre comunidades masculinas, e não outras. Ora, um ritual definido para ser executado por, e para agir sobre, indivíduos do sexo masculino, dificilmente se adequa a indivíduos do sexo feminino. Igualdade entre sexos não é sinónimo de mesmidade — há dissemelhanças importantes a nível físico e a nível psíquico. E são essas dissemelhanças que criam a complementaridade, como são elas que asseguram a enorme riqueza do género humano.
   Isto não traduz uma «condenação» das maçonarias feminina e mista. Condenar é não-tolerar; e embora eu não acredite na tolerância sem limites, porque ela nos abriria as portas ao próprio mal e se transformaria rapidamente em cumplicidade, afigura-se-me que a questão da iniciação maçónica feminina se coloca dentro dos limites da tolerância e da compreensão, embora se mantenha necessariamente fora dos limites da regularidade.
   Fica assim claro que não é minha intenção atacar, de qualquer forma, a iniciação maçónica de mulheres. Ao mesmo tempo, contudo, tenho de admitir a justeza das palavras de António de Macedo, entre outros, quando diz (não estou a citá-lo ipsis verbis, mas tão somente a transmitir o sentido geral) que tal iniciação comporta dois riscos: o risco mundano de, por falta de adequação do ritual, transformar-se a loja feminina em pouco mais que uma comissão organizadora de festas, como sucedeu no tempo da imperatriz Josefina, mulher de Napoleão I, e o risco, mais elevado, de, por falta dessa mesma adequação, se entrar em desequilíbrio espiritual.
   A iniciação maçónica segue a tradição dos construtores, que é como quem diz, dos carpinteiros, talhadores de pedra e arquitectos; uma tradição que, evidentemente, é não só material como também espiritual, porque estes ofícios materiais têm correspondências num nível superior, espiritual e arquetípico. Há mesmo quem fale numa antiga «Ordem de Construtores», julgo que não clara e nitidamente estruturada; possivelmente inorgânica, geograficamente dispersa, feita apenas de vivências, tradições e rituais, mas sem uma organização propriamente dita. Em todo o caso, dela acabaria por emergir, através de diversas vicissitudes, a própria Maçonaria, nascida, ao que se julga saber, nas corporações de pedreiros e construtores.
   Ora, a par dessa Ordem de Construtores, haveria uma Ordem de Tecedeiras, com características semelhantes e representando a correspondente linha iniciática feminina. Este símbolo do tecido é muito rico e não poderei, aqui e agora, explorá-lo completamente, em todos os seus aspectos; basta, porém, considerar a tradição das tecedeiras a par da tradição dos construtores.
   No fundo, trata-se de dois aspectos diferentes mas complementares de uma mesma evolução física e espiritual. Trata-se, nos dois casos, de vestir o Homem. O vestir, em sentido lato, é talvez o primeiro grande passo no trajecto do Homem enquanto Homem, evoluindo no sentido de uma crescente individuação. Nesse caminho, que é tanto físico como espiritual — porque «o que está em cima é como o que está em baixo» —, ele necessitará de se proteger. Começará por vestir-se de peles — o primeiro «véu», o primeiro «muro de protecção e de individuação» em relação ao meio natural, tal como de peles, ramos e madeira fará o outro «muro», os seus primeiros abrigos temporários. Pois bem: neste processo de individuação vão intervir, de forma decisiva, as duas grandes tradições de que falámos: tecedeiras e construtores. As primeiras fabricando os tecidos a partir de fios de origem animal ou vegetal, que substituirão em boa parte as peles e que fornecerão vestes, tapeçarias e cortinados — vestes para as pessoas e para as casas e templos; os segundos construindo, primeiro com elementos vegetais, madeira e ramos, depois com elementos minerais, pedra e tijolo, não só a casa como — o templo. E, sempre tendo em conta as correspondências entre «o que está em baixo» e «o que está em cima», irão surgir em cada uma destas tradições as respectivas linhas iniciáticas. E haverá uma «gnose da tecelagem» e uma «gnose da construção». Duas Ordens distintas, mas que se completam e que, afinal, trabalham para o mesmo fim, com instrumentos diferentes e decerto com rituais diversos, porém visando o mesmo Conhecimento.
   A Ordem dos Construtores, como foi dito, acabou, não interessa agora por que vias, por inspirar o surgimento da Maçonaria. Todavia, a Ordem das Tecedeiras foi menos feliz. O grande mito das Tecedeiras é a Lenda de Aracne e esta constitui um mito de ruptura e não de criação. Esse mito foi narrado por Ovídio nas suas Metamorfoses e conta como a jovem Aracne, a mais hábil das tecedeiras mortais, se atreveu a entrar em competição com a deusa Atena. Para abreviar uma história que, aliás, também é muito rica em simbolismo, direi, simplesmente, que Aracne se arrogou a competir com Atena na arte da tapeçaria; que a deusa, em cólera, destruiu os trabalhos da mortal e lhe bateu com a lançadeira; e que Aracne acabou por enforcar-se. Atena não permitiu que ela morresse e transformou-a em Aranha.
   Segundo afirma António de Macedo, a linha iniciática das Tecedeiras rompeu-se aqui — e quando uma linha iniciática se rompe, não há remédio, o fio não pode ser reatado.
  Como já disse claramente, eu não só respeito muitíssimo a sua opinião como reconheço a alta qualidade dos seus livros, e, nomeadamente, de «Instruções Iniciática». Entretanto, não posso deixar de me perguntar se a ruptura terá sido, de facto, completa e/ou se ela se terá verificado tão cedo quanto a lenda cantada por Ovídio dá a entender.
   Ou seja: terá a ruptura da linha das Tecedeiras sido total nessa época, tão remota que nos é impossível situá-la? Esta minha pergunta baseia-se na observação de um facto bastante mais moderno. Na Sagrada Família parecem encontrar-se ainda, lado a lado, as duas Ordens, as duas linhas iniciáticas,  feminina e masculina, de Tecedeiras e Construtores.
   Consideremos São José, o Carpinteiro. Convirá reter este ofício. As menções que lhe são feitas nos textos canónicos da Bíblia são muito escassas. Por mim, apenas conheço aquela que está no Evangelho de S. Mateus, 13,55: «Todos se enchiam de assombro e diziam: “De onde Lhe vem esta sabedoria e o poder de fazer milagres? Não é Ele o filho do carpinteiro?”». Em contrapartida, nos evangelhos chamados apócrifos as menções são mais abundantes: no Pseudo-Mateus diz-se claramente que José era carpinteiro; e um outro apócrifo tem mesmo como título «História de José o Carpinteiro». Neste ponto, coloquemos uma questão: como é que um membro da estirpe real de David — segundo as genealogias apresentadas por S. Mateus e S. Lucas — é um pobre carpinteiro?
   Resposta possível: é que a escolha deste ofício atribuído a S. José seria simbólica. Num sentido superior e também histórico, «carpinteiro» não se distingue fundamentalmente de «talhador de pedra», nem de «arquitecto» — ou seja, de construtor. René Guénon aborda o tema dos carpinteiros e pedreiros, ou maçons, para assinalar que os carpinteiros foram, geralmente, os primeiros construtores, visto que, quase sempre, as construções de madeira antecederam as de pedra. E podemos facilmente extrapolar do domínio físico para o domínio espiritual: o carpinteiro iniciou uma via que o pedreiro prosseguiu; mas ambos pertencem, evidentemente, à Ordem dos Construtores.
   Bom: temos Jesus com um pai (um pai putativo, segundo as várias igrejas cristãs) que era Carpinteiro, ou seja, inserido na ordem dos construtores. E a Mãe? Maria, a Virgem-Mãe?
   As referências a Maria nos Evangelhos canónicos são, sem dúvida, mais abundantes que as referências a São José, mas também não são propriamente numerosas ou extensas. Mais uma vez, são os apócrifos que preenchem essa lacuna e citarei, como exemplos, o Protoevangelho de Tiago, o Pseudo-Mateus, a Natividade de Maria, o Evangelho Árabe da Infância.
   Chamo, agora, a vossa atenção para certas passagens de alguns destes apócrifos. No Protoevangelho de Tiago temos:
   «As jovens entraram no templo do Senhor e o grande sacerdote disse: “Tiremos à sorte para saber quem tecerá o ouro, (…) o linho fino, a seda, (…) a escarlata e a púrpura autêntica”. E a púrpura e a escarlata couberam a Maria e depois de as recolher voltou para casa» (X.1).
   «…E ela olhou em redor, para a direita e para a esquerda, a ver de onde provinha a voz. E temerosa, voltou para sua casa, deixou o cântaro e pegando na púrpura sentou-se e começou a tecer» (XI.1).
   «… E ela talhou a púrpura e a escarlata e levou-as ao sacerdote. E este abençoou-a (...). (XII.1)
Passando ao Evangelho do Pseudo-Mateus:
   «Maria era a admiração de todo o povo (…). O seu rosto resplandecia como a neve até que quase não se podia olhar para ela fixamente. Esforçava-se trabalhando a lã…» (VI.1).
   «(…) Da hora terça até à hora nona, ocupava-se a tecer…» (VI.2).
   «(…) E assim aconteceu que Maria recebeu a púrpura para fazer o véu do Templo» (VIII.5).
   «De novo, no terceiro dia, enquanto tecia a púrpura com os seus dedos…» (IX.2)
Portanto, segundo uma certa tradição cristã, Jesus era filho (segundo o mundo) de um Carpinteiro — ou seja, e como vimos, de um construtor — e de uma Tecedeira.
   As duas ordens existindo a par e colaborando entre si. Completando-se.
   O problema é que a linha iniciática das Tecedeiras se rompeu, de facto. Pode ser que ela se tenha mantido, de uma ou outra forma, até ao período histórico dos primeiros tempos do Cristianismo, mas não deixa de ser verdade que, presentemente, essa linha perdeu-se.
   E isto é grave. Não admira, aliás, que, perante uma tal ausência, as mulheres que sintam uma verdadeira vocação iniciática do tipo, digamos, maçónico procurem resolver essa necessidade espiritual de qualquer forma, quer aderindo a Ordens ou Fraternidades mistas quer criando maçonarias femininas irregulares. Mas quando afirmei que era grave a ruptura da tradição das Tecedeiras, referia-me também, quase diria sobretudo, a outro aspecto: eu penso que isto é grave para a própria Maçonaria regular. Porque se quebrou aquela Tradição que a complementava em igualdade. Porque construtores e tecedeiras já não estão lado a lado, porque se rompeu o equilíbrio fundamental do tempo mítico.
   Admitindo por um breve instante que tenho alguma razão em tudo quanto disse, o que será possível fazer perante esta situação?
   Só posso responder com duas perguntas. A primeira refere-se à ruptura da linha iniciática das Tecedeiras: será, de facto, irreversível essa ruptura? Uma linha quebrada não pode mesmo ser reatada?
Bem sei que, à partida, faltará, praticamente, tudo — a começar pelas noções do próprio ritual, pois, se ritual houve, nada sabemos sobre ele, nem sobre os graus que possa ter havido — e estas questões não se resolvem pela simples fantasia ou pela imaginação; tem de haver uma razão profunda para os actos rituais como para o estabelecimento de graus e de oficiantes, tal como tem de haver um conteúdo e uma razão profunda na procura da verdade iniciática, na busca do Conhecimento. E se tudo isso se perdeu, a grande dúvida estará em como recuperá-lo. A menos que seja por eventual — e imprevisível — intervenção de entidades superiores, cujos desígnios nos escapam. Ou — talvez? — por um esforço deliberado que seja, ao mesmo tempo, estudo e pesquisa, intuição e inspiração. É esta, julgo, a grande esperança. Pensemos na criação dos vários ritos maçónicos e dos seus respectivos rituais: pensemos no modo como eles se formaram. Certamente, alguma coisa poderá ser aprendida aí.
   A segunda pergunta prende-se com uma outra questão. É fora de dúvida que a iniciação feminina diz respeito, antes de mais — às mulheres. Por isso, se houver uma qualquer possibilidade de restaurar a linha iniciática das Tecedeiras ou de criar uma Ordem que dela possa ser considerada herdeira legítima, essa possibilidade repousa, antes de mais, em mãos femininas. Chego, porém, agora, à segunda pergunta, que aliás encerra esta prancha: não poderá e, até, não deverá a Maçonaria regular tentar auxiliar esse esforço, ou mesmo ajudar a lançar essa ideia? E dar um contributo, por exemplo, em matéria de pesquisa?
   A questão não é ociosa, parece-me, porque, justamente, eu considero que a nossa Ordem é parte interessada nesse processo. Pelas razões que já mencionei e também, ou talvez sobretudo, porque há dois sexos, certamente, mas, com igual certeza, há uma só Humanidade. Pelo menos neste planeta. E a Maçonaria considera, sempre considerou, ter deveres e responsabilidades para com essa Humanidade, no seu conjunto.
   Disse, V.M.
   João Aguiar

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