sexta-feira, 1 de junho de 2012

PEQUENOS TEXTOS - Pranchas V


INICIAÇÃO MASCULINA, INICIAÇÃO FEMININA
   Venerável Mestre, queridos Irmãos, como é do conhecimento de todos esta prancha é simplesmente o resumo da conferência que fiz recentemente na Grande Loja, a convite do nosso muito respeitável Grão-Mestre.
   Devo explicar a razão primeira que me levou à escolha do tema, «Iniciação masculina, iniciação feminina». E começarei por citar um texto maçónico da Grande Loja Regular de Portugal (adaptação, salvo erro, de um texto francês) que diz: «A Maçonaria autêntica é essencialmente um Rito. O Rito tem por finalidade fazer ascender o adepto à Iniciação».
   Aqui, o termo «Iniciação» ultrapassa as fronteiras estreitas da iniciação no grau de Aprendiz maçon. Com efeito, o texto prossegue dizendo: «Essa Iniciação tem por objectivo, como em todas as outras Tradições, desligar o homem dos limites do seu estado humano e tornar efectiva a capacidade que ele recebeu de aceder aos estados superiores graças a Ritos rigorosos e precisos, de uma forma activa e durável».
   Tenho de dizer que, embora não discuta esta definição, ela parece-me um pouco restritiva, na medida em que considera somente o «Rito rigoroso e preciso» e não abrange, portanto, aquele outro aspecto que é ser a Maçonaria especulativa, tal como não menciona a dinâmica entre o esforço individual de cada maçon e o esforço colectivo de toda a loja; entre indivíduo e egrégora. Não nos fala, enfim, da Busca, da Demanda espiritual que é o caminho de cada verdadeiro maçon. Mas o facto de a definição ser demasiado restritiva não lhe retira validade. E temos pois que Maçonaria é — Iniciação. E se não é Iniciação, não é nada.
   Quero eu dizer com isto que não são precisos rituais, nem paramentos, nem alfaias — não é precisa uma Ordem para fazer boas obras, para defender a verdade e a justiça, para ser tolerante, para praticar convivências fraternais. Tudo isso é resolúvel quer em acções individuais quer em associações profanas. É a Iniciação que distingue e define a Maçonaria.
   Como se sabe, a Maçonaria não é a única via iniciática. A este respeito, gosto de citar Richard Dupuy, que foi grão-mestre da Grande Loja de França (uma obediência irregular, mas trabalhando, como se costuma dizer, «para a glória do Grande Arquitecto do Universo»): escreveu ele que a Maçonaria «é somente uma das correntes do largo rio que conduz ao Conhecimento».
   Ora, no caso específico da Maçonaria regular, ela é uma corrente, é uma via que se mantém fechada às mulheres. O que levou à formação de obediências irregulares como a Maçonaria Feminina e o Direito Humano, que é misto.
   Julgo que desde muito cedo — tanto quanto sei, desde o século XVIII, pelo menos — houve mulheres interessadas na iniciação maçónica. Aliás, cabe aqui tomarmos consciência de que desde sempre houve mulheres interessadas na Iniciação, em sentido mais lato. A iniciação feminina existiu nas sociedades antigas; julgo saber que ela existe ainda hoje em sociedades chamadas tradicionais ou que pertencem àquele género a que se chamou «o primitivo actual». No Ocidente, porém, a tradição iniciática exclusivamente feminina parece ter-se perdido há muito.
   Quando, há anos, fui admitido à Ordem maçónica regular, pensei então, confesso-o, que a insistência da regularidade em excluir as mulheres já não se justificava. Era, considerava eu, o vestígio histórico de uma era passada. Por outro lado, o respeito pela mulher, proclamado em certos e raros passos do ritual maçónico — refiro-me essencialmente ao do REAA — esse respeito, dizia eu, não me parecia (e, devo dizer, ainda não me parece) suficientemente afirmativo ou expressivo. A atitude fundamental da Obediência regular perante a mulher é, ainda e sempre, de subalternização. A mulher é considerada apenas como «a companheira do homem»; ou, no aspecto que nos interessa, a «companheira do Irmão maçon». Sem existência própria, digamos; sem peso próprio — sem individualidade.
   Independentemente da gritante desadequação desta atitude ao tempo actual, resta aquilo que eu, nos meus primeiros tempos de vida maçónica, classificava como injustiça; porque, raciocinava então, se recusava à mulher o caminho da Iniciação e isto sem outro motivo que não fosse um costume ultrapassado e esvaziado de real conteúdo.
   Hoje em dia, porém, a minha opinião alterou-se — em parte. Não, devo acentuar, não no que se refere à atitude subalternizante em relação à mulher, pois que nesse domínio continuo a pensar como pensava; mas em relação ao motivo profundo da recusa da iniciação maçónica das mulheres.
   Essa mudança de opinião deveu-se a um conjunto de factos, de leituras e de raciocínios. Entre os factos, mencionarei uma visita feita à Respeitável Loja Europa pelo nosso Irmão, o cineasta, escritor e arquitecto António de Macedo, que, embora na situação de «adormecido», aceitou um convite que a Loja lhe dirigiu; entre as leituras, mencionarei, sem carácter de exclusividade, o seu excelente livro «Instruções Iniciáticas». E entre os raciocínios a que me entreguei figuram os seguintes:
   A questão essencial, penso, reside no tipo de iniciação que é o maçónico. Não está, de todo, em questão o valor iniciático da mulher, nem a sua capacidade. Estou convicto, também, de que na complementaridade homem-mulher não há posições subalternas.
   Tenho a consciência de que alguns poderão objectar com um argumento bíblico tirado do «Génesis». Refiro-me ao episódio da criação da mulher a partir da costela de Adão, para que o homem pudesse ter uma companheira. O que, claramente, traduz, de facto, uma subalternidade: a mulher criada em segundo lugar, só porque Deus (Yaveh) achou que, afinal de contas,  não convinha que o homem ficasse sozinho no jardim do Éden.
   Sucede, porém, que, no «Génesis», não há apenas uma história da criação do homem e sim duas, justapostas e muito diferentes. Essas duas histórias — a este respeito convirá ler as anotações publicadas na edição da «Bíblia de Jerusalém» — pertencem a tradições redaccionais diferentes: uma designada «yavista», porque os seus textos referem Deus como Yaveh, e outra designada «eloista», em que Deus é referido como Elohim. Pois bem: é na tradição yavista que surge a costela de Adão e essa história vem, no livro, em segundo lugar. O início do «Génesis» pertence à tradição eloista, sacerdotal, e nele se conta que:
   Deus (ou Elohim) criou o homem à sua imagem,
   Criou-o à imagem de Deus,
   Criou-os homem e mulher.
   Temos aqui uma criação dos sexos simultânea, sem subalternidades. E parece-me significativo que esta seja a primeira versão a ser apresentada; como se a segunda fosse um acrescento. Portanto, à criação do Homem por Yaveh, posso contrapor a criação do Homem e da Mulher por Elohim.
   Dito isto, e retornando ao nosso tema central: o que me parece, hoje, ao contrário do que pensava há poucos anos, é que a iniciação maçónica, diversamente de outras iniciações, é por essência masculina.
Admito que há outras linhas iniciáticas mistas; e não lhes contesto a validade, nem o poderia fazer, pois, recordo, a Maçonaria é apenas uma via para a Iniciação. Mas sem dúvida é uma via masculina; é-o pela tradição em que se filia e que é a dos construtores; e é-o pelo ritual. Os Ritos da Ordem Maçónica foram concebidos ou formaram-se para actuar, digamos, magicamente (não confundamos magia com feitiçaria) sobre comunidades masculinas, e não outras. Ora, um ritual definido para ser executado por, e para agir sobre, indivíduos do sexo masculino, dificilmente se adequa a indivíduos do sexo feminino. Igualdade entre sexos não é sinónimo de mesmidade — há dissemelhanças importantes a nível físico e a nível psíquico. E são essas dissemelhanças que criam a complementaridade, como são elas que asseguram a enorme riqueza do género humano.
   Isto não traduz uma «condenação» das maçonarias feminina e mista. Condenar é não-tolerar; e embora eu não acredite na tolerância sem limites, porque ela nos abriria as portas ao próprio mal e se transformaria rapidamente em cumplicidade, afigura-se-me que a questão da iniciação maçónica feminina se coloca dentro dos limites da tolerância e da compreensão, embora se mantenha necessariamente fora dos limites da regularidade.
   Fica assim claro que não é minha intenção atacar, de qualquer forma, a iniciação maçónica de mulheres. Ao mesmo tempo, contudo, tenho de admitir a justeza das palavras de António de Macedo, entre outros, quando diz (não estou a citá-lo ipsis verbis, mas tão somente a transmitir o sentido geral) que tal iniciação comporta dois riscos: o risco mundano de, por falta de adequação do ritual, transformar-se a loja feminina em pouco mais que uma comissão organizadora de festas, como sucedeu no tempo da imperatriz Josefina, mulher de Napoleão I, e o risco, mais elevado, de, por falta dessa mesma adequação, se entrar em desequilíbrio espiritual.
   A iniciação maçónica segue a tradição dos construtores, que é como quem diz, dos carpinteiros, talhadores de pedra e arquitectos; uma tradição que, evidentemente, é não só material como também espiritual, porque estes ofícios materiais têm correspondências num nível superior, espiritual e arquetípico. Há mesmo quem fale numa antiga «Ordem de Construtores», julgo que não clara e nitidamente estruturada; possivelmente inorgânica, geograficamente dispersa, feita apenas de vivências, tradições e rituais, mas sem uma organização propriamente dita. Em todo o caso, dela acabaria por emergir, através de diversas vicissitudes, a própria Maçonaria, nascida, ao que se julga saber, nas corporações de pedreiros e construtores.
   Ora, a par dessa Ordem de Construtores, haveria uma Ordem de Tecedeiras, com características semelhantes e representando a correspondente linha iniciática feminina. Este símbolo do tecido é muito rico e não poderei, aqui e agora, explorá-lo completamente, em todos os seus aspectos; basta, porém, considerar a tradição das tecedeiras a par da tradição dos construtores.
   No fundo, trata-se de dois aspectos diferentes mas complementares de uma mesma evolução física e espiritual. Trata-se, nos dois casos, de vestir o Homem. O vestir, em sentido lato, é talvez o primeiro grande passo no trajecto do Homem enquanto Homem, evoluindo no sentido de uma crescente individuação. Nesse caminho, que é tanto físico como espiritual — porque «o que está em cima é como o que está em baixo» —, ele necessitará de se proteger. Começará por vestir-se de peles — o primeiro «véu», o primeiro «muro de protecção e de individuação» em relação ao meio natural, tal como de peles, ramos e madeira fará o outro «muro», os seus primeiros abrigos temporários. Pois bem: neste processo de individuação vão intervir, de forma decisiva, as duas grandes tradições de que falámos: tecedeiras e construtores. As primeiras fabricando os tecidos a partir de fios de origem animal ou vegetal, que substituirão em boa parte as peles e que fornecerão vestes, tapeçarias e cortinados — vestes para as pessoas e para as casas e templos; os segundos construindo, primeiro com elementos vegetais, madeira e ramos, depois com elementos minerais, pedra e tijolo, não só a casa como — o templo. E, sempre tendo em conta as correspondências entre «o que está em baixo» e «o que está em cima», irão surgir em cada uma destas tradições as respectivas linhas iniciáticas. E haverá uma «gnose da tecelagem» e uma «gnose da construção». Duas Ordens distintas, mas que se completam e que, afinal, trabalham para o mesmo fim, com instrumentos diferentes e decerto com rituais diversos, porém visando o mesmo Conhecimento.
   A Ordem dos Construtores, como foi dito, acabou, não interessa agora por que vias, por inspirar o surgimento da Maçonaria. Todavia, a Ordem das Tecedeiras foi menos feliz. O grande mito das Tecedeiras é a Lenda de Aracne e esta constitui um mito de ruptura e não de criação. Esse mito foi narrado por Ovídio nas suas Metamorfoses e conta como a jovem Aracne, a mais hábil das tecedeiras mortais, se atreveu a entrar em competição com a deusa Atena. Para abreviar uma história que, aliás, também é muito rica em simbolismo, direi, simplesmente, que Aracne se arrogou a competir com Atena na arte da tapeçaria; que a deusa, em cólera, destruiu os trabalhos da mortal e lhe bateu com a lançadeira; e que Aracne acabou por enforcar-se. Atena não permitiu que ela morresse e transformou-a em Aranha.
   Segundo afirma António de Macedo, a linha iniciática das Tecedeiras rompeu-se aqui — e quando uma linha iniciática se rompe, não há remédio, o fio não pode ser reatado.
  Como já disse claramente, eu não só respeito muitíssimo a sua opinião como reconheço a alta qualidade dos seus livros, e, nomeadamente, de «Instruções Iniciática». Entretanto, não posso deixar de me perguntar se a ruptura terá sido, de facto, completa e/ou se ela se terá verificado tão cedo quanto a lenda cantada por Ovídio dá a entender.
   Ou seja: terá a ruptura da linha das Tecedeiras sido total nessa época, tão remota que nos é impossível situá-la? Esta minha pergunta baseia-se na observação de um facto bastante mais moderno. Na Sagrada Família parecem encontrar-se ainda, lado a lado, as duas Ordens, as duas linhas iniciáticas,  feminina e masculina, de Tecedeiras e Construtores.
   Consideremos São José, o Carpinteiro. Convirá reter este ofício. As menções que lhe são feitas nos textos canónicos da Bíblia são muito escassas. Por mim, apenas conheço aquela que está no Evangelho de S. Mateus, 13,55: «Todos se enchiam de assombro e diziam: “De onde Lhe vem esta sabedoria e o poder de fazer milagres? Não é Ele o filho do carpinteiro?”». Em contrapartida, nos evangelhos chamados apócrifos as menções são mais abundantes: no Pseudo-Mateus diz-se claramente que José era carpinteiro; e um outro apócrifo tem mesmo como título «História de José o Carpinteiro». Neste ponto, coloquemos uma questão: como é que um membro da estirpe real de David — segundo as genealogias apresentadas por S. Mateus e S. Lucas — é um pobre carpinteiro?
   Resposta possível: é que a escolha deste ofício atribuído a S. José seria simbólica. Num sentido superior e também histórico, «carpinteiro» não se distingue fundamentalmente de «talhador de pedra», nem de «arquitecto» — ou seja, de construtor. René Guénon aborda o tema dos carpinteiros e pedreiros, ou maçons, para assinalar que os carpinteiros foram, geralmente, os primeiros construtores, visto que, quase sempre, as construções de madeira antecederam as de pedra. E podemos facilmente extrapolar do domínio físico para o domínio espiritual: o carpinteiro iniciou uma via que o pedreiro prosseguiu; mas ambos pertencem, evidentemente, à Ordem dos Construtores.
   Bom: temos Jesus com um pai (um pai putativo, segundo as várias igrejas cristãs) que era Carpinteiro, ou seja, inserido na ordem dos construtores. E a Mãe? Maria, a Virgem-Mãe?
   As referências a Maria nos Evangelhos canónicos são, sem dúvida, mais abundantes que as referências a São José, mas também não são propriamente numerosas ou extensas. Mais uma vez, são os apócrifos que preenchem essa lacuna e citarei, como exemplos, o Protoevangelho de Tiago, o Pseudo-Mateus, a Natividade de Maria, o Evangelho Árabe da Infância.
   Chamo, agora, a vossa atenção para certas passagens de alguns destes apócrifos. No Protoevangelho de Tiago temos:
   «As jovens entraram no templo do Senhor e o grande sacerdote disse: “Tiremos à sorte para saber quem tecerá o ouro, (…) o linho fino, a seda, (…) a escarlata e a púrpura autêntica”. E a púrpura e a escarlata couberam a Maria e depois de as recolher voltou para casa» (X.1).
   «…E ela olhou em redor, para a direita e para a esquerda, a ver de onde provinha a voz. E temerosa, voltou para sua casa, deixou o cântaro e pegando na púrpura sentou-se e começou a tecer» (XI.1).
   «… E ela talhou a púrpura e a escarlata e levou-as ao sacerdote. E este abençoou-a (...). (XII.1)
Passando ao Evangelho do Pseudo-Mateus:
   «Maria era a admiração de todo o povo (…). O seu rosto resplandecia como a neve até que quase não se podia olhar para ela fixamente. Esforçava-se trabalhando a lã…» (VI.1).
   «(…) Da hora terça até à hora nona, ocupava-se a tecer…» (VI.2).
   «(…) E assim aconteceu que Maria recebeu a púrpura para fazer o véu do Templo» (VIII.5).
   «De novo, no terceiro dia, enquanto tecia a púrpura com os seus dedos…» (IX.2)
Portanto, segundo uma certa tradição cristã, Jesus era filho (segundo o mundo) de um Carpinteiro — ou seja, e como vimos, de um construtor — e de uma Tecedeira.
   As duas ordens existindo a par e colaborando entre si. Completando-se.
   O problema é que a linha iniciática das Tecedeiras se rompeu, de facto. Pode ser que ela se tenha mantido, de uma ou outra forma, até ao período histórico dos primeiros tempos do Cristianismo, mas não deixa de ser verdade que, presentemente, essa linha perdeu-se.
   E isto é grave. Não admira, aliás, que, perante uma tal ausência, as mulheres que sintam uma verdadeira vocação iniciática do tipo, digamos, maçónico procurem resolver essa necessidade espiritual de qualquer forma, quer aderindo a Ordens ou Fraternidades mistas quer criando maçonarias femininas irregulares. Mas quando afirmei que era grave a ruptura da tradição das Tecedeiras, referia-me também, quase diria sobretudo, a outro aspecto: eu penso que isto é grave para a própria Maçonaria regular. Porque se quebrou aquela Tradição que a complementava em igualdade. Porque construtores e tecedeiras já não estão lado a lado, porque se rompeu o equilíbrio fundamental do tempo mítico.
   Admitindo por um breve instante que tenho alguma razão em tudo quanto disse, o que será possível fazer perante esta situação?
   Só posso responder com duas perguntas. A primeira refere-se à ruptura da linha iniciática das Tecedeiras: será, de facto, irreversível essa ruptura? Uma linha quebrada não pode mesmo ser reatada?
Bem sei que, à partida, faltará, praticamente, tudo — a começar pelas noções do próprio ritual, pois, se ritual houve, nada sabemos sobre ele, nem sobre os graus que possa ter havido — e estas questões não se resolvem pela simples fantasia ou pela imaginação; tem de haver uma razão profunda para os actos rituais como para o estabelecimento de graus e de oficiantes, tal como tem de haver um conteúdo e uma razão profunda na procura da verdade iniciática, na busca do Conhecimento. E se tudo isso se perdeu, a grande dúvida estará em como recuperá-lo. A menos que seja por eventual — e imprevisível — intervenção de entidades superiores, cujos desígnios nos escapam. Ou — talvez? — por um esforço deliberado que seja, ao mesmo tempo, estudo e pesquisa, intuição e inspiração. É esta, julgo, a grande esperança. Pensemos na criação dos vários ritos maçónicos e dos seus respectivos rituais: pensemos no modo como eles se formaram. Certamente, alguma coisa poderá ser aprendida aí.
   A segunda pergunta prende-se com uma outra questão. É fora de dúvida que a iniciação feminina diz respeito, antes de mais — às mulheres. Por isso, se houver uma qualquer possibilidade de restaurar a linha iniciática das Tecedeiras ou de criar uma Ordem que dela possa ser considerada herdeira legítima, essa possibilidade repousa, antes de mais, em mãos femininas. Chego, porém, agora, à segunda pergunta, que aliás encerra esta prancha: não poderá e, até, não deverá a Maçonaria regular tentar auxiliar esse esforço, ou mesmo ajudar a lançar essa ideia? E dar um contributo, por exemplo, em matéria de pesquisa?
   A questão não é ociosa, parece-me, porque, justamente, eu considero que a nossa Ordem é parte interessada nesse processo. Pelas razões que já mencionei e também, ou talvez sobretudo, porque há dois sexos, certamente, mas, com igual certeza, há uma só Humanidade. Pelo menos neste planeta. E a Maçonaria considera, sempre considerou, ter deveres e responsabilidades para com essa Humanidade, no seu conjunto.
   Disse, V.M.
   João Aguiar

Óleo sobre tela 70X70cm

domingo, 27 de maio de 2012

EXERCÍCIOS - Grafite

Ficus benjamina
Desenho a grafite HB

Ficus benjamina e a Ficus retusa são chamadas, popularmente, fícus-benjamim, figueira-benjamim ou, simplesmente, figueira. São originárias da Malásia. Pode ultrapassar os vinte metros de altura e suas raízes podem destruir muros e pavimentos com facilidade.
Este exemplar, encontra-se na Av. da República - MACAU

quarta-feira, 16 de maio de 2012

ILUSTRAÇÃO CIENTÍFICA


Sementes Nelumbo nucifera
É uma planta aquática da género Nelumbo, conhecida vulgarmente como lótus ou flor-de-lótus. 
É conhecida pela longevidade das suas sementes, que podem germinar após 13 séculos.
Pontiado a caneta de tinta da china sobre poliester A5

sábado, 12 de maio de 2012

EXERCÍCIOS - Grafite


PIMENTO" Capsicum annuum"
é uma espécie de planta do género Capsicum nativa do México.

Grafite HB sobre papel A4

segunda-feira, 30 de abril de 2012

PEQUENOS TEXTOS - Pranchas IV


"As Pombinhas da Catrina"
O traçado desta prancha toma como ponto de partida uma intervenção que o nosso I\ A. B. fez durante uma visita à Loja Europa. Os II\ que a ela assistiram hão-de recordar que se tratava de propor uma descodificação simbólica da canção popular «As Pombinhas da Catrina». Essa comunicação, aliás brilhante, terá deixado em alguns de nós certas dúvidas, como se deduziu do cordial debate que seguiu a sua apresentação; dúvidas relativas, sobretudo, à realidade de uma intenção codificadora por parte do desconhecido autor do poema. Por outras palavras: não será mais simples e mais realista tomá-la pelo seu valor facial, de inocente canção popular e infantil?
Porque eu próprio partilhei dessas dúvidas, não encetaria uma nova abordagem do assunto, não fora o facto (algo estranho, admito) de ele me ter assediado o espírito nos últimos tempos, com uma insistência quase obsessiva. A decisão de compor a presente prancha veio, em parte, desse assédio, porque já aprendi a não desprezar sistematicamente tais «obsessões». Isto porque sucede, não raramente, que elas se me revelam como o impulso inicial de um processo criativo. Que eu haja cedido a tal impulso, dando à cedência a forma de uma prancha, só prova a confiança humilde que tenho na grande paciência e na solidariedade dos II\ da minha Loja e desde já lhes peço perdão, começando, evidentemente, pelo nosso V\M\.
Temos, assim, uma leitura de «As Pombinhas da Catrina» em que retive alguns elementos da comunicação do nosso I\ Araújo de Brito, construindo, porém, uma codificação algo diferente — não contraditória, mas simplesmente alternativa.
Consideremos a 1ª quadra: As pombinhas da Catrina / Andaram de mão em mão / Foram ter à Quinta Nova / Ao pombal de S. João. Conhecemos, evidentemente, a riquíssima simbologia da pomba, que assume vários aspectos. Na leitura que sugiro, a lógica exige que retenhamos, desses aspectos, a pureza e, ao mesmo tempo, a associação à memória e à alma. Quanto à «Catrina», representa a grande referência: não uma roldana, como na interpretação do nosso I\ Araújo de Brito, mas a contracção do nome Catarina, que, aliás, significa «pura» (tal como os Cátaros eram «os puros»); e, nesta minha leitura, tratar-se-ia de Santa Catarina de Siena (1347 — 1380), doutora da Igreja e co-padroeira da Europa. Não me alongarei sobre a sua história, mesmo porque ela é indiscernível da lenda; refiro somente alguns dos aspectos mais importantes: teve uma influência quiçá decisiva no restabelecimento da sede pontifícia em Itália, pois convenceu o Papa Gregório XI a transferir-se de Avignon para Roma, e interveio activamente a favor de Urbano VI quando se declarou o Grande Cisma do Ocidente. Porém, o que mais nos interessa é que Catarina de Siena criticou muito severamente o luxo e a corrupção que grassavam na corte pontifícia e que multiplicou os incitamentos a uma Cruzada destinada a recuperar os Lugares Santos. Por outro lado, os seus grandes inspiradores espirituais eram S. Tomás de Aquino — e S. João Evangelista: teríamos aqui o «pombal de S. João» de que fala a cantiga. Poderemos, então, estabelecer um primeiro esboço de mensagem decifrada: A alma — no sentido de: o pensamento, o sentir, as ideias — de Santa Catarina espalhou-se por muitos, que se tornaram seus discípulos, e acabou por atingir a Quinta Nova (de que falaremos a seguir). Nessa Quinta Nova está o pombal de S. João, isto é, a tradição ligada a S. João Evangelista — o qual não nos é estranho, a nós, maçons. Recordo que aquelas ideias, aquele sentir, se relacionam com a Cruzada, que a santa defendia (e as Cruzadas evocam, naturalmente, os Templários) e também com uma atitude crítica perante a situação da Igreja como instituição, que necessitava, ao tempo de Catarina de Siena, de uma reforma que urgia (e que tardou).
A 2ª quadra: Ao pombal de S. João / À Quinta da Roseirinha / Minha mãe mandou-me à fonte / E eu parti a cantarinha. A Quinta Nova é também chamada Quinta da Roseirinha. Não vou evocar uma associação com a Rosa-Cruz; basta recordar o fortíssimo simbolismo da rosa — o conhecimento espiritual, o receptáculo do sangue de Cristo, a regeneração, etc. A fonte representa, entre outros elementos, a água viva que jorra perto da Árvore da Vida e também o ensinamento. A Mãe será, neste contexto, a Igreja: «Mãe e mestra dos povos», assim começava uma das encíclicas de João XXIII. A associação da Igreja à Mãe está por de mais generalizada para que seja preciso determo-nos sobre este ponto. Quanto à «cantarinha», a minha proposta é que seja considerada como sinónimo de «pote» — e o Pote é reconhecido como o símbolo da estupidez e da surdez. Mas temos, agora, de voltar à Quinta Nova, da Roseirinha: ela é um espaço novo, mas um espaço espiritual, contendo «o pombal» de S. João Evangelista; igualmente, o vocábulo «quinta» está, obviamente, ligado ao número 5 — e este simboliza o centro (harmonia e equilíbrio) e o homem. Temos, agora, a sequência da descodificação proposta. Antes de mais, a «mensagem» de Santa Catarina, que dizia: «Cruzada» (ou, em sentido figurado, «fé militante») e que dizia: «reforma da Igreja», saneamento da alta hierarquia da Igreja. Essa mensagem foi formulada no século XIV, um século de maçonaria operativa e o século em que, em Portugal, durante a revolução de 1383, foi reconhecida a importância dos mesteirais e das suas corporações; difundindo-se «de mão em mão», ela chegou a um novo espaço espiritual, a um novo homem: justamente (talvez...), o espaço da corporação, o espaço do mesteiral que acabava de ver a bandeira do seu ofício admitida a participar no governo da cidade de Lisboa (e de outras cidades, mais tarde), por intermédio da Casa dos 24. E aquele homem «novo», que tomou consciência da sua importância, pelo menos enquanto membro da sua corporação de ofício, ou seja, a «Quinta Nova» (a sua «loja»...), aquele homem «novo», dizia, cumprindo as ordens da Santa Madre Igreja, procurou conhecer a palavra de Deus, isto é, foi até à fonte. Mas, porque tivera em suas mãos as «pombinhas da Catrina», porque entrara no pombal de S. João, foi longe de mais, foi mais longe do que a Mãe Igreja queria: quebrou o pote. Ou seja, foi capaz de estabelecer uma relação pessoal com a Divindade, eliminou a «surdez» que o impedia de ouvir a Palavra.
Note-se, agora, que a associação do pombal (isto é, da Pomba) a S. João traz, talvez, muito a propósito, alguma água no bico. Catarina de Siena tomou como figura inspiradora S. João Evangelista; no entanto, a Pomba pode ser associada a S. João Baptista, no episódio do baptismo de Cristo, feito sob a manifestação do Espírito Santo — em forma de pomba. Temos, assim, a associação Baptista — Evangelista. O que também não nos é estranho.
Prosseguindo com a proposta de descodificação: este quebrar da «surdez», ou da «estupidez», anuncia-se como um acto criativo, um acto de amor; é o que sugere a 3ª quadra: Minha mãe mandou-me à fonte / Pela hora do calor / Eu quebrei a cantarinha / A dar água ao meu amor. A hora do calor: segundo o «Dicionário de Símbolos» de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant (que me serviu também para encontrar a explicação dos outros símbolos), «o calor associa-se à luz, tal como o amor ao conhecimento intuitivo e a vida orgânica à actividade do espírito». Este «calor» abraça homens e mulheres e é um passo decisivo, do qual não há retrocesso. É o que afirma a 4ª quadra, propositadamente  equívoca (julgo eu) no que toca ao género de quem a canta: A dar água ao meu amor / A dar água à minha amada / Eu quebrei a cantarinha / Eu quebrei-a, está quebrada.
Finalmente, a 5ª quadra, da qual conheço duas versões. Dessas, só uma, a que foi apresentada pelo I\ Araújo de Brito, pode ser considerada em termos de mensagem a descodificar: Ó minha mãe não me bata / Que ainda sou pequenina! / Não te bato, porque viste / As pombinhas da Catrina. Ou seja: esta ousadia de querer reformar a Igreja e de tentar chegar à fonte, ao conhecimento espiritual, individualmente, pela «quebra do Pote», não é vista pelo autor como rebelião: ele teme, aliás, o castigo e faz declaração de humildade: «Ó minha mãe não me bata, que ainda sou pequenina». E, idealmente, a Igreja-Mãe responde-lhe que está absolvido porque seguiu, afinal, a doutrina de Santa Catarina de Siena...
Se fosse mais ou menos exacta, esta leitura colocaria, possivelmente, o autor em época posterior ao século XIV, já que temos, como referência temporal, o ano de 1380 (morte de Santa Catarina); assim, não deveríamos considerar épocas anteriores a, pelo menos, o início do século XV. No que se refere à qualidade do autor, que é desconhecido, poderíamos considerar duas hipóteses: se aceitássemos a teoria de uma continuidade entre templários e maçonaria (operativa, sim, mas já também com uma vertente especulativa), não seria difícil aceitar igualmente que se tratasse de alguém ligado à Ordem de Cristo. A outra hipótese seria, como atrás sugeri, um homem ligado a uma corporação de ofício. Em qualquer dos casos a cantiga seria, ou poderia ser, uma espécie de profissão de fé e, simultaneamente, um sinal de reconhecimento. No caso de ter sido composta mais tarde, em meados ou finais do século XVI (ou mesmo até ao século XVIII), as duas hipóteses poderiam ser mantidas e seriam, até reforçadas: a Casa dos 24 existia, a Ordem de Cristo também — e ou já lhe tinha sido imposta a clausura ou isso estava prestes a acontecer. Também existiria já, a partir de certo momento, o tribunal da Inquisição; e se é certo que este não se mostrou muito severo durante o reinado de D. João III, não é menos certo que, já então, era da mais elementar prudência guardar segredo sobre especulações demasiado livres e escondê-las sob uma cifra simbólica.
Em jeito de remate a esta prancha, devo colocar agora duas questões, a primeira das quais é a seguinte: acreditarei eu, eu mesmo, autor do presente texto, acreditarei eu na realidade concreta desta ou de outras leituras feitas sobre «As Pombinhas da Catrina»? A resposta é: racionalmente — não. Parece-me provável que se trate de uma simples canção infantil e popular.
Logicamente, a segunda questão será: por que razão, ou razões, me dei então ao trabalho de traçar esta prancha?
Em primeiro lugar, porque, como referi no início, a ideia, pura e simplesmente — não me largava. E era reforçada, contra a minha própria vontade, ao ver como os vários elementos (pombas, Santa Catarina de Siena, reforma da Igreja, S. João,  etc.) se encaixavam uns nos outros, levando-me irresistivelmente à pergunta, algo irritante: «É incrível; mas se fosse verdade?».
Em segundo lugar, porque, ainda que este particular exercício não passe de uma construção feita no ar, ou melhor, na imaginação pura, ele não é, julgo eu, inteiramente gratuito, na medida em que me pode servir de treino para tentar descodificar outros textos mais dignos de tal esforço.
Portanto, o meu único atrevimento, de que, repito, peço perdão, foi o de querer compartilhá-lo convosco.
Disse, V\M\

Mosteiro da Batalha