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| Tronco seco apanhado num passeio pela praia. Grafite sobre papel A4 |
sábado, 31 de março de 2012
sábado, 24 de março de 2012
EXERCÍCIOS - Lápis de cor
Arum lily
Família: Araceae
Origem: O lírio de calla Rosa é originário da América do Sul. O calla significa "bonito" em grego.
Exposição solar: o lírio de calla rosa precisa de muita luz solar, e atinge mais o menos 70cm de altura.
Solo: quente e úmido.
E o tempo de florescência é entre o final da Primavera e o início do Verão.
sábado, 17 de março de 2012
PEQUENOS TEXTOS - PRANCHAS
«...um povo ignorante será sempre escravo».
Em 1836, se não me engano, Joseph-Marie Ragon publicou um Ritual do Aprendiz Maçon que ele propunha às lojas, quer do Rito Francês quer do Rito Escocês Antigo e Aceite, como complemento e aperfeiçoamento do ritual de iniciação então adoptado para aquele grau.
Julgo que esse texto, na íntegra, já não se adequa aos tempos modernos, por ser demasiado extenso e, passe o termo, verboso. Ao mesmo tempo, não me parece que se tenha desactualizado no seu conteúdo essencial. Na realidade, encontrei nele alguns elementos extremamente interessantes que não constam no texto actual do R\E\A\A\.
Estranhamente, uma das passagens que retive foi esta:
«Mesmo com a mais liberal das constituições, um povo ignorante será sempre escravo».
A frase, nesta proposta de Ragon, é dita pelo V\M\ ao Aprendiz, durante a sessão de instrução (o equivalente, julgo, ao actual catecismo, termo que aquele autor não emprega). Hoje, podemos tomá-la por lugar comum, mero efeito de retórica. Daí ser estranho que a retivesse. Mas há duas explicações para o facto, uma simples e objectiva, a outra complexa, subjectiva e, quase diria, subterrânea.
A explicação simples e objectiva salta aos olhos: aquela frase, publicada em 1836, não se limita a enunciar um princípio intemporalmente válido; descreve também a situação contemporânea, a nossa; com tanta acuidade como o fez em relação aos povos do século XIX. Porque se é certo que o povo do século XXI sabe ler, escrever e contar, tem televisão, computador e internet, escolaridade prolongada e largamente obrigatória e até mesmo diplomas de bacharelato e licenciatura, isso não o torna menos ignorante, como se prova, no caso português (que não é único), pelo uso que faz da sua própria língua e pelo desuso que faz da sua própria história, que é, em boa parte, a sua identidade.
E, também, isso não o torna menos sujeito à servidão. Desta, apenas se modificaram as formas e os instrumentos, que agora se chamam globalização, na economia, cretinização, na cultura (para usar um termo, extremamente adequado, de Gilbert Durand), e apatização, na política e na vivência social. E se podemos dizer que hoje se vive materialmente melhor, essa afirmação só é correcta em termos geograficamente restritos; a nível planetário, não ficaria surpreendido se me dissessem que ela é comprovadamente falsa.
Esta a explicação objectiva para o efeito que teve em mim aquela frase que Ragon põe na boca do V\M\. Resta a explicação subjectiva, que «quase» classifiquei de subterrânea.
Recordo a frase que citei: «mesmo com a mais liberal das constituições, um povo ignorante será sempre escravo». Considerando o termo «povo» no seu significado — que, evidentemente, não é exaustivo — de «massa popular», tal frase veio dar mais força ainda a uma pergunta que me tenho feito ultimamente: como poderei, ou melhor: como poderemos, aqueles que sentem o mesmo perigo e arrefecem com a mesma angústia, como poderemos opor-nos à nova e decorrente ofensiva de magia negra?
Antes de me classificarem definitivamente como louco, permitam-me a explicação.
Eu penso que o século XX se revelou, agora que o olhamos já a uma crescente distância, como sendo um século de magia negra.
Isto só é defensável, evidentemente, se aceitarmos que ao termo «magia» pode ser atribuída esta definição, que, sem ser única, me parece justa: «toda a acção ou prática (conjunto coerente de acções) que recorre a meios não exclusivamente materiais, nem exclusivamente racionais, para obter determinados fins». E se assentarmos igualmente em que a magia será «negra» quando aqueles meios não são eticamente legítimos e quando os fins são também ilegítimos e ditados por ilegítimos interesses. Os pressupostos contrários referem-se, como é óbvio, à magia «branca».
A esta noção poderemos acrescentar uma outra: que a magia negra é um desvio, uma perversão, uma inversão da magia branca — como sabemos, aliás, por certas práticas bem conhecidas: a recitação de orações do fim para o princípio, o uso de símbolos invertidos, etc. E ainda: que a magia negra, pecado em que caem não só os mal intencionados mas também os aprendizes de feiticeiro simplesmente mal preparados, desencadeia, ou pode desencadear, forças insuspeitas e consequências imprevistas que, não raro, acabam por ceifar os próprios magos ou aprendizes.
Voltando ao século XX: um século de «magia negra», nos termos que propus, e em que o principal ingrediente — e também a principal vítima — foi precisamente a massa popular.
E porquê esta afirmação? Porque dificilmente vejo outra explicação global para o nazismo, o estalinismo e o maoísmo — sim; incluo o maoísmo, apesar de um relativo prestígio de que Mao Tsé Tung ainda goza, porque tenho em mente os factos do «tempo das flores» («cem» ou «mil flores», não tenho presente a designação exacta) e do «grande salto para a frente», da campanha da siderurgia e da campanha dos pássaros, além da Revolução Cultural.
Note-se que, respeitando disciplinadamente a nossa muito sensata interdição de discutir política ou religião, isto é, partidos ou igrejas, não me refiro — excepção feita ao nazismo, uma excepção que julgo legítima — a ideologias, mas à prática que essas ideologias assumiram pela mão de indivíduos. Tal atitude (referência a indivíduos e não a ideologias) é também coerente com a referência à magia negra, pois que o processo a esta conducente manifesta-se à escala individual ou, quando muito, de grupos reduzidos. Acrescento que ele pode iniciar-se, por vezes, com excelentes intenções e ser depois desviado e pervertido pela prática.
Dito isto, creio não haver dúvidas de que nos encontramos aqui perante outros tantos casos de manipulação das massas, manipulação recorrendo a meios e suportes não racionais e, no seu essencial, não materiais nem científicos, com resultados finais trágicos. Manipulação que adquire tintas tão fortes de magia negra quanto é certo que se chegou à inversão e perversão de símbolos e conceitos. Símbolos como a cruz suástica, milenar e sagrada (e, o que é menos grave mas igualmente significativo, o mesmo se passou com o feixe de varas romano), e conceitos como o de Revolução Cultural, que serviu, pura e simplesmente, para erradicar pela violência a cultura e a tradição chinesas. E se, por um momento, não nos restringirmos à vertente da manipulação de massas, pensemos na utilização concreta que foi dada à fissão do átomo, sobretudo na guerra mas também na paz; e encontraremos aqui o mesmo desvio, a mesma perversão, a mesma... «sintonia» que caracterizam a magia negra.
Até aqui, falei do século XX. Mas o tempo actual não é menos eloquente no que se refere à manipulação e à tirania que, simultaneamente, usa, explora e impõe as massas, depois de convenientemente condicionadas e castradas das suas tradições, das suas identidades, das suas potencialidades.
Basta olhar à nossa volta; basta, sobretudo, ver cinco fugazes minutos de programação televisiva ou ouvir falar algumas figuras públicas ou considerar o rumo da educação. Basta ver como a imprensa (latu sensu), cuja acção e liberdade sempre considerámos como uma condição sine qua non da democracia, se degradou ao ponto de transformar a informação em espectáculo, o jornal em produto e a ética numa anedota de mau gosto, pois que se vende e é comprada a cada passo, não tanto por interesses políticos, mas por interesses comerciais.
A linha de rumo da sociedade contemporânea — a ocidental em primeiro lugar, as restantes por arrasto — é facilmente definível, perdoe-se-me a insistência, de acordo com as programações televisivas. Já tivemos a música tão adequadamente chamada pimba, que se impôs (falsamente, aliás) como música popular, já conhecemos o Big Brother e o Bar da TV e temos agora, ainda, o concurso em que o herói é aquele que é capaz de assaltar um cofre forte. Prelúdio, suspeito, ao concurso de homicídio voluntário e premeditado — e resta saber se simplesmente simulado.
O argumento supremo em defesa de tudo isto é: porque as pessoas gostam.
E gostam.
Que admiração, pois que se joga aqui com a imoderação dos instintos, com a vulnerabilidade, com a facilidade, que vai desde o pensamento e as emoções ao endividamento e à abertura das latas de refrigerantes?
Julgo não exagerar nem a magnitude nem o perigo de uma situação que, penso, é uma consequência directa de actos de verdadeira magia negra — não já exclusivamente, repito, com o objectivo do poder político, como no tempo dos totalitarismos desencapotados, mas também e sobretudo do poder económico, e que repousa, magicamente, numa perversão, numa simplificação artificial de conceitos como o «gosto popular» e a própria liberdade.
O objectivo essencial desta muito modesta prancha é lançar uma pergunta: como iniciar um processo susceptível de criar defesas? Ou seja: com que actos de «magia branca» poderemos nós, poderão todos aqueles que, mesmo não aceitando a minha interpretação «mágica», partilham desta angústia, opor-se a uma tal vaga selvagem que varre o planeta em geral e em particular a Europa e o nosso país?
Porque a esperança não está na política, não está nos governos, contaminados e cúmplices, nem, por maior razão, nos mecenas, pois estes integram-se geralmente na categoria dos «magos negros»: o seu mecenato é todo ele fiscal e publicitário. A única esperança de resposta está nos cidadãos ou grupos de cidadãos.
O que significa que a seta da responsabilidade moral de resposta se aproxima de nós, maçons. Não somos decerto o seu único alvo. Mas somos decerto um dos seus alvos.
Gostava, neste momento, de poder dizer: «aqui está a resposta».
Porém não a tenho e se a tivesse o teor desta prancha seria diferente. A única coisa que tenho para vos dar é esta preocupação, é esta angústia.
E diz o povo — uma vez mais o povo! — que «quem dá o que tem a mais não é obrigado».
João Aguiar C\M\
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| Berlengas - Foz do Arelho |
segunda-feira, 5 de março de 2012
PEQUENOS TEXTOS - PRANCHAS
TRADIÇÃO E RENOVAÇÃO
Hesitei longamente antes de traçar esta prancha. Por um lado, ela corresponde a uma preocupação, ou melhor, a um interesse real que sinto há muito; mas, por outro lado ela correrá, talvez, o risco de ser mal interpretada. Permitam-me, por isso, que esclareça, desde já, que a submeto com toda a humildade, sem a mínima intenção de criar polémica e ainda menos de me arrogar — o que seria, aliás, ridículo — qualquer papel de... «reformador». Este texto não é, de modo algum, uma proposta; ele não passa de uma modestíssima sugestão para reflexão. Nada mais é, nem quer ser.
Estabelecido este ponto prévio, que, espero, se manterá presente no espírito de todos, direi, para começar, que aderi à Ordem Maçónica por considerar que ela é uma via de Iniciação. Uma via com características que, não lhe sendo exclusivas, são, no entanto, muito suas e muito especiais. Em primeiro lugar, esta via de Iniciação não é apenas individual, como sabemos. Uma boa parte do nosso trabalho é executada em comunidade — e mais do que em comunidade: as lojas, se operarem segundo os princípios da Ordem, criam uma egrégora própria, que deverá auxiliar todos e cada um no seu caminho. Em segundo lugar, a verdadeira Iniciação maçónica atinge-se através de um Rito, ou, na prática, do ritual estabelecido por um dos Ritos existentes.
Era aqui que eu queria chegar. O Rito é preciso e é imutável, dizem-nos; e há uma lógica evidente neste princípio. Essa lógica exige, portanto, um respeito absoluto pela Tradição, porque o próprio Rito se transformou em Tradição. Isto é claro, límpido e conhecido. Mas, quando se fala em Tradição, afigura-se-me ser importante distinguir a essência (sempre imutável, repito) daqueles elementos que não representam mais do que noções e costumes que são fruto de uma determinada época histórica e da mentalidade nela predominante. Porque, quando aplicados a uma época diferente, tais noções e tais costumes podem prejudicar ou mesmo trair a essência imutável da Tradição.
Esclareço, desde já, que não estou a referir-me à sempre tão falada questão da admissão de mulheres, vedada pela Maçonaria Regular, a que pertencemos; essa questão é mais complexa do que parece à primeira vista e não pode, julgo eu, ser reduzida a simples «machismo», como já fez notar o escritor e cineasta António de Macedo, que é nosso Irmão e cuja obra não revela, bem pelo contrário, o menor vestígio de machismo. Os Ritos da Ordem Maçónica pertencem a uma linha tradicional masculina, foram concebidos para actuar, digamos, magicamente (e não confundamos magia com feitiçaria) sobre comunidades masculinas. Na minha muito humilde opinião pessoal, seria precisa, sim, uma Ordem feminina, com um Rito adequado, para retomar uma Tradição iniciática feminina que se perdeu.
Pondo assim de lado esta questão, permito-me sugerir três aspectos que, sempre na minha opinião individual, mereceriam uma «atenção renovadora» por parte da Ordem Maçónica.
O primeiro diz respeito, mais propriamente, às noções. E tomo como exemplo um texto[1] do R\E\A\A\, ao qual pertence a minha Loja de São João e no qual fui iniciado. Aí se diz que não devem ser admitidos à Iniciação homens que sofram de um defeito físico, ainda que essa anomalia seja acidental. E, baseando-se em René Guénon, o autor acrescenta, especificamente: zarolhos, coxos e gagos; «aqueles que apresentam uma dissimetria do rosto [ou] desvios vertebrais que prejudicam a circulação normal das correntes subtis no organismo».
Como todos nós, respeito e admiro Guénon, mas não o considero infalível. Tenho as mais sérias dúvidas sobre a validade deste princípio; julgo que as correntes subtis encontram sempre uma via de circulação no organismo, desde que este organismo pertença a alguém de espírito lúcido que as deseje receber e fazer circular.
É certo que tal princípio não é aplicado hoje — não o foi, felizmente, na minha Loja, onde, ainda recentemente, na presença do nosso Muito Respeitável Grão-Mestre, procedemos com alegria à iniciação de um candidato que se encontra nestas condições de «imperfeição», palavra que escrevo com aspas. Mas parece-me que seria aconselhável que a nossa Ordem reexaminasse a questão em termos teóricos e, em texto autorizado e regular, a tornasse perfeitamente clara, consagrando a prática actual pelo seu reconhecimento em teoria.
O segundo caso, colhi-o no Ritual do Grau de Aprendiz do R\E\R\. É, evidentemente, um texto que merece, em qualquer caso, o nosso profundo respeito, pois foi redigido, como se sabe, no Convento Geral de 1782 e revisto, ou completado, por Willermoz em princípios do século XIX. Pergunto-me, no entanto, se não seria conveniente uma actualização — na forma, que não no conteúdo. Assim, por exemplo, especificar que são de ouro (de ouro e não dourados) os candelabros colocados no altar do V\M\ e nas mesas dos dois Vigilantes; ou que a Câmara de Preparação deve ter chaminé ou lareira por causa do frio no Inverno, parece-me inútil, ou porque largamente impraticável — o ouro dos candelabros — ou porque tecnicamente ultrapassado — o sistema de aquecimento. Acrescento, porém, que este segundo exemplo, colhido, como referi, no Ritual do 1º Grau do R\E\R\, vale meramente para demonstrar alguma desadequação existente entre os textos e a nossa época; não vejo que o texto em causa possa conter, em si mesmo, qualquer aspecto negativo para a essência da Tradição.
O mesmo não poderei dizer em relação ao terceiro exemplo. E peço agora a compreensão do nosso Respeitável Deputado Mestre e de todos os Irmãos, insistindo em que esta prancha não tem a mínima intenção polémica e que é somente o produto de uma reflexão que tenho vindo a fazer e que senti dever confiar-vos — quanto mais não seja, para a ver fraternalmente rejeitada...
O terceiro exemplo é o ágape ritual.
A importância do ágape maçónico, ritual ou informal, é evidente e não tem de ser explicada aqui. Direi, simplesmente, que, para mim, o ágape informal é a continuação da sessão de Loja e que o ágape ritual é uma sessão especial de Loja. Mas, justamente por reconhecer a sua importância, pergunto-me sobre a sabedoria de conservar integralmente as formas que assume o ágape ritual.
Uma simples análise dos textos (digo «textos» porque, na minha ignorância, julgo haver variantes conforme o Rito) levar-nos-á, penso, a concluir que, tal como eles se nos apresentam, não provêm certamente da Maçonaria Operativa; que são, antes, originários do século XVIII e dos meios da Maçonaria militar. Mostra-o todo o vocabulário utilizado, que não provém certamente de pedreiros, mas de soldados — e não soldados egípcios, gregos, romanos ou da Europa medieval, mas sim de uma época em que a artilharia tinha já assumido papel de destaque na guerra.
Há aqui, já, uma primeira incongruência, de fundo, em relação à Tradição maçónica essencial, que, tanto na prática como no símbolo, é a dos Construtores, não a dos Guerreiros. Bem sei que o Escocismo se desenvolveu sobretudo nos meios militares; resta, porém, que esse é um traço de época e não de essência, um acidente histórico e não uma parte integrante do nosso legado.
Depois, há o aspecto da forma: no R\E\A\A\, o ritual do ágape prevê uma movimentação dos talheres — como se fossem armas brancas — e um uso dos guardanapos que seriam possivelmente adequados na sociedade maçónica-militar do século XVIII, mas que, nos nossos dias, e dado, até, o desenho dos actuais talheres de mesa, me parece — perdoem-me os Irmãos — ridícula, inclusive num meio militar contemporâneo.
Também o preceito — que hoje, aliás, não é escrupulosamente seguido — de os Aprendizes servirem os Mestres pode prestar-se a situações, no mínimo, delicadas.
E, por fim, as saúdes obrigatórias. Não é, permitam-me a ousadia, questão de somenos. O número e o modo das saúdes não se coaduna nem com a nossa época nem, atrevo-me a dizê-lo, com o próprio espírito do ágape enquanto sessão de Loja: por um lado, convirá tomar em conta a actual legislação sobre bebidas alcoólicas e condução rodoviária (questão que só aparentemente é secundária); por outro, o número de saúdes, que influencia directamente a quantidade de álcool absorvida durante a refeição fraternal, afigura-se-me incompatível com o espírito, o ambiente, a intenção que, segundo os vários autores, devem presidir a sessões deste género. Meus Irmãos, tudo isto evoca uma época em que nem os transportes nem o trânsito — nem as leis! — eram o que hoje são; e em que os costumes eram outros — e, possivelmente, a capacidade normal de absorção de certos líquidos também era outra.
Recordemos, aliás, o que o cavaleiro Ramsay escreveu acerca dos ágapes[2], no seu famoso Discurso: «Os nossos repastos são à semelhança das virtuosas ceias de Horácio, durante as quais se falava de tudo o que pode esclarecer o espírito, aperfeiçoar o coração e inspirar o gosto do verdadeiro, do bom e do belo». São palavras de ouro, que deveríamos ter bem presentes quando nos sentamos à mesa entre Irmãos. Confesso não ser capaz de as ligar ao número de saúdes obrigatórias, nem ao manejo dos talheres e guardanapos, tal como consta nos rituais que se mantêm até hoje.
Deveria a Ordem Maçónica repensar seriamente alguns dos seus textos, para os renovar, não — nunca — contra a Tradição, mas antes em seu apoio? Esta a questão que se me pôs e esta a preocupação que vos confesso.
E eis tudo aquilo que, — perdoem-me a insistência — sem qualquer intenção polémica, senti querer dizer-vos, em simples jeito de sugestão para reflexões.
Disse, Respeitável Deputado Mestre.
João Aguiar, M\E\S\A\
domingo, 4 de março de 2012
ILUSTRAÇÃO CIENTÍFICA
OSTRA
O reverso de qualquer coisa, é sempre uma surpresa!
Agradável ou desagradável.
Neste caso, desagradável visualmente.
sábado, 3 de março de 2012
domingo, 26 de fevereiro de 2012
PEQUENOS TEXTOS
Caríssimos paroquianos, meus irmãos em Cristo:
Hoje, neste penúltimo domingo antes da quaresma, sinto uma grande mágoa ao dirigir-me a vós.
É a primeira vez que experimento este sentir.
Até hoje, e desde aquele dia em que desembarcámos e nos estabelecemos nesta terra, as minhas homilias dominicais foram sempre uma serena fonte de prazer e de alegria — foram-no para mim, digo eu; com humildade e sentido das realidades, deverei pensar que talvez não partilhásseis estes sentimentos. E sendo este o caso, por certo a culpa há-de ser minha e não vossa, que somente haveis errado ao escolher-me como vosso director espiritual neste voluntário exílio que temos de considerar dourado e por ele louvar a Deus e dar-Lhe graças.
Porém, ainda que erradamente, haveis-me escolhido. Sou vosso pároco, vosso director espiritual — e, podeis ter a maior e mais férrea certeza, vosso amigo sincero e dedicado. Não só vosso, mas também daqueles que connosco vieram e não frequentam esta igreja, e ainda, sem qualquer discriminação na amizade, daqueles que não frequentam igreja alguma.
Pois bem. Neste domingo da sexagésima, é na tripla qualidade de pároco, director espiritual e amigo, que tenho de vos falar sobre rumores que se avolumam, acerca do joio que terá entrado na nossa seara, transportado em semente não sei por que vento maléfico.
Sabeis do que falo, caríssimos irmãos. Não preciso de explicar melhor esta alusão.
Perdoai-me se abuso da vossa paciência; vou contar-vos uma pequena história, recordá-la, quiçá, a uns e revelá-la certamente a outros. É a história daquele sacerdote que, há muitos, muitos anos, se encontrava à frente de uma paróquia da longínqua Lisboa e que era conhecido pela linguagem firme e chã que usava nas homilias. Tinha ele ouvido falar com insistência das faltas sérias, das faltas graves cometidas por algumas senhoras da sua paróquia e decidiu dirigir-lhes uma reprimenda. Só o podia fazer durante a homilia dominical, pois essa era a única altura em que as via. Escolheu, portanto, a missa mais concorrida e nela fez, com todo o vigor, as suas admoestações pastorais. E terminou assim: «A essas irmãs que assim tão erradamente procedem, dirijo a minha súplica. Já estou velho, não tardará que Nosso Senhor me chame, e quando isso acontecer Ele vai, certamente, perguntar-me por vós, pelas minhas ovelhas. E eu, irmãs, eu não quero ter de dizer-Lhe: ovelhas, meu Deus? Dizei antes, cabras!»
Ora bem: é certo que nada de semelhante se passa entre nós, tanto quanto sei. Na realidade, devo até admitir que, em rigor, o mal insidioso que parece estar em vias de atacar-nos não se concretiza, directamente (sublinho o «directamente»), em pecado, tal como este é definido pela Santa Madre Igreja.
No entanto, importa não nos iludirmos: continua a ser um mal, porquanto aflige, ou afligirá, a concretizar-se, a grande maioria dos nossos irmãos, a grande maioria de todos os que vivem nesta ilha, até agora abençoada pelo Senhor.
Ele trará consigo a peste, a fome e a guerra, disso podeis estar seguros. Esta afirmação pode parecer-vos excessiva, mas atentai em que há várias formas e vários níveis de peste, de fome e de guerra.
Mas o mais monstruoso, meus irmãos, o mais vil, o mais inacreditável é que foi deste mesmo mal que vós haveis fugido!
Foi ele que tornou a vossa existência terrena em inferno de cólera mal contida (e a cólera, a ira, essa sim, é um pecado capital), foi ele que vos perseguiu, dentro e fora do lar, até mesmo no mais sagrado dos retiros. Foi ele que vos submergiu num oceano de frustrações, de maus sentimentos, de grosseira ignorância.
Foi ele, enfim, que vos fez abandonar a vossa vida confortável, parentes e amigos, e escolher uma ilha, esta ilha, para facilitar a vossa defesa.
Lembrai-vos desse tempo, eis o que vos peço.
Eu próprio o recordo, muito vividamente, e por mais que um motivo. Com efeito, ouvi, nessa época, alguns irmãos nossos dizerem com expressões de grande felicidade: «Tudo vai correr bem, pois vamos para uma ilha deserta!».
Devia tê-los desenganado, mas não o fiz, pois via-os felizes dizendo isto e julguei que esse engano não tinha importância. Vejo agora que errei e portanto declaro-vos:
Ninguém, nenhum homem consegue refugiar-se numa ilha deserta.
É uma impossibilidade física, é uma lei da lógica e da natureza. Porque, evidentemente, basta que um homem desembarque numa ilha deserta para que ela deixe de o ser. Por maioria de razão assim é neste caso, pois vós viestes com pais, ou com filhos, ou irmãos, ou... enfim, poucos foram os que vieram sozinhos.
Temos, pois, que nesta ilha há uma comunidade. E uma comunidade tem regras e entre essas regras são essenciais aquelas que garantem a sua própria conservação, a sua própria existência, nas condições e com as qualidades que fazem dela o que é, ou o que pretende ser.
Dizem os rumores insistentes a que já aludi que alguns de vós querem alterar tais condições e tais qualidades.
Isto, meus irmãos, não pode ser. Que esses embarquem e regressem para de onde vieram, pois que pertencem a esse mundo terrível, esse mudo cego e mau, envenenado pela estupidez, pelos apetites grosseiros e pelos conflitos, esse mundo de onde em boa hora fugimos.
E permiti que vo-lo diga, com a franqueza que vos devo: se quiserem embarcar, saberemos que não são afinal, e nunca foram, membros da nossa família. Mas se quiserem ficar, persistindo nos seus negros desígnios, então terei de os classificar como verdadeiros criminosos.
Quero crer, e espero em Deus ter razão na minha crença, que tudo não passa de uma breve crise, que não estamos em verdadeiro perigo, que se trata simplesmente de uma fraqueza passageira dos sentidos e que esses que sentem a tentação — e não lhes devemos querer mal, por isso, pois somos todos imperfeitos — não lhe vão ceder.
É escorado nessa fé, alimentado por essa esperança, que lhes peço, muito simplesmente, um pouco de inteligência e um pouco de amor ao próximo. A vós todos, meus irmãos, suplico: transmiti este apelo pungente... digo bem: pungente; transmiti-o a todos aqueles que na nossa ilha seguem outra religião ou não têm nenhuma.
Vedes, pois, que já não falo somente como pároco. Vou mais longe: se algum de vós me disser que este não é um assunto pertinente, no âmbito do meu ministério espiritual, responderei dando-lhe razão — num sentido restrito. Porém um sacerdote é também um cidadão, e com responsabilidades morais acrescidas, às quais não pode fugir.
E para vós, aqui presentes, vai um outro apelo, aos vossos corações: lutai, meus irmãos, para fechar as nossas portas e o nosso porto à pestilência infecciosa.
Meus irmãos, terminei a homilia. Mas não o meu discurso: esse vou encerrá-lo agora, falando, não já como vosso pároco e sim como um simples homem, um cidadão, como vós.
Eis o que tenho a dizer-vos, e nisto usarei da mesma frontalidade e crueza de que deu provas aquele outro pároco de que falei há pouco:
Se alguém, seja quem for, se atrever a trazer para cá um só aparelho receptor de televisão, racho-lhe os cornos.
João Aguiar
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| O rosto mais cândido do Oriente - Minha cicerone na casa Museu, em Macau, de Sun Yat-Sen. fundador da República da China |
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